Sociedade | 21-12-2022 12:00

A história de Bruno Videira esfaqueado pela namorada e abandonado para morrer

A história de Bruno Videira esfaqueado pela namorada e abandonado para morrer
Bruno Videira foi vítima de violência doméstica até ao dia em que a companheira o esfaqueou durante uma discussão

Bruno Videira foi esfaqueado pela namorada e deixado para morrer no apartamento que compartilhavam em Santarém.

A vítima fala sobre a relação tóxica, marcada por ciúmes doentios, possessão e privação da liberdade de escolha. A agressora, de nacionalidade brasileira, que está em situação irregular no país, foi condenada a sete anos de prisão e à expulsão do país, mas a justiça não apaga as memórias traumáticas de quem pensou que ia morrer sozinho.

Bruno Videira viveu durante dois anos numa relação tóxica, possessiva, marcada por ciúmes doentios e violência doméstica continuada da namorada, de nacionalidade brasileira, condenada agora pelo Tribunal de Santarém por tentativa de homicídio a sete anos de prisão. Bruno Videira, esfaqueado e deixado a esvair-se em sangue no apartamento no centro de Santarém, já tinha tentado libertar-se da namorada, mas acabava por a aceitar de volta, acreditando em promessas de que tudo ia melhorar. Durante a relação não podia contactar com amigos, colegas de trabalho ou familiares como e quando queria. As suas redes sociais eram vigiadas e um novo pedido de amizade foi o suficiente para ser agredido com um candeeiro. Depois de o esfaquear, Cristiane Oliveira, brasileira que estava irregular em Portugal, fugiu e só se entregou às cerca de um mês depois.
No dia em que se deu a tentativa de homicídio, a 5 de Outubro de 2021, Bruno Videira, 28 anos, tinha saído de casa pela manhã para fazer um serviço de pintura e entregar o montante que ia receber à companheira para ajudar à construção de uma casa no Brasil. Ela era para o acompanhar no trabalho, mas disse que estava cansada e ia ficar deitada. Horas mais tarde foi ao seu encontro e teve um ataque de ciúmes. No regresso a casa, nas escadas do prédio começou a ser pontapeado no peito por Cristiane, de 37 anos. “Espera que já vais ver”, disse-lhe a mulher quando entraram em casa. Foi à cozinha buscar uma faca, entrou no quarto, empurrou o companheiro para cima da cama, e cara a cara desferiu-lhe um golpe.
“Rasga-me o abdómen no sentido descendente. Quando me levanto sinto o calor do corpo, olho para baixo e vejo o intestino a sair. Disse-lhe: já me mataste”, descreve a vítima a O MIRANTE. Pede-lhe ajuda mas perante a rejeição dirige-se à sala para tentar chegar ao telemóvel e ligar para o 112. “Ela ficou em pé, de faca na mão. Depois foi à cozinha, pousou-a, pegou na mala e foi embora”, lembra.
Pensou que ia morrer e as memórias e os planos que tinha para o futuro vêm-lhe à cabeça como flashes. Começou a ter “dores insuportáveis”. Com uma camisola a tentar estancar o sangue que saía da ferida aberta conseguiu ligar para o 112 e depois ligar à mãe. Com a sensação de desmaio e emocionado, não conseguiu contar à progenitora o que aconteceu. Pediu-lhe “apenas que fosse ter ao Hospital de Santarém”, onde ficou internado durante oito dias, após uma intervenção cirúrgica de três horas ao abdómen e intestino perfurado.

Tribunal não deu credibilidade às declarações da arguida

O colectivo de juízes do Tribunal de Santarém, que julgou o caso, considerou que Bruno Videira “sofreu um concreto perigo para a sua vida”. O acórdão que condenou Cristiane Oliveira realça que actuou “movida por sentimentos de ciúme e desconfiança, admitindo como possível que pudesse tirar a vida a Bruno Videira conformando-se com essa previsão”. O tribunal considerou que a pena de sete anos de prisão é suficiente, aplicando também uma pena acessória de expulsão do território nacional por 10 anos, após cumprir a pena. Tem ainda de pagar as despesas hospitalares no valor de 1.741 euros.
Cristiane Oliveira inicialmente exerceu o direito de não falar na audiência de julgamento, mas fê-lo no final, negando que fosse ciumenta ou possessiva em relação ao ofendido, atribuindo tais qualificativas ao ofendido, que a controlava, que discutia com ela e batia-lhe. Os juízes, com base nas provas documentais e os restantes depoimentos, considerou que as “declarações da arguida mostraram-se desprovidas do mínimo de credibilidade”. O acórdão realça também que a arguida não é portadora de qualquer documento que a habilite a permanecer em Portugal, desde Dezembro de 2020.

Manteve contacto com a fugitiva para ver se a polícia a localizava

Bruno Videira demorou sete meses a recuperar e ficou com uma cicatriz de 32 centímetros no abdómen, a lembrá-lo do dia em que a pessoa que amava o tentou matar. Na cama, “se estivesse de lado tinha a sensação que o intestino saída do sítio”, mas o pior, conta, foi ter de manter conversa com Cristiane dias depois da alta hospitalar. “Respondia para tentar saber onde ela estava e a polícia monitorizava as mensagens. Chegou a mostrar arrependimento, mas logo de seguida punha as culpas em cima de mim”. A mulher chegou a ser localizada pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) numa casa de alterne no Algarve. Só depois de tentar uma segunda fuga acabou por se entregar à polícia.
Quando a reencontrou no julgamento sentiu raiva, nojo e desilusão. Não conseguiu encarar Cristiane com o olhar invadido pela mágoa dela não ter prestado auxílio e por ver que não mostrava arrependimento. A condenação deixa-lhe uma “sensação de pouco”, embora Bruno reconheça que uma pena mais pesada não o ajudaria a apagar da memória o episódio traumático. “Fica a desilusão. Sabia que os ciúmes eram excessivos e que a relação era tóxica, mas nunca imaginei que algo assim pudesse vir a acontecer”, recorda.
Bruno Videira tentou pôr um ponto final na relação mais do que uma vez. Cristiane fazia-o crer que concordava que o melhor era seguirem caminhos separados. “Dias depois vinha com promessas de que ia mudar” e que deviam “mudar de vida, de trabalho, de cidade e até de país” e Bruno aceitava-a de volta na casa onde continua a viver. “Cheguei a ver outras opções, mas decidi enfrentar o problema. Arrepiei-me assim que voltei a casa, não conseguia dormir. Ainda hoje sempre que ouve um barulho fica receoso. Desde o ataque, tornou-se um homem mais desconfiado e cauteloso, mas que não desiste de reconstruir a sua paz e felicidade. “Dizem que o tempo tudo cura, espero que sim”.

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