Sociedade | 25-12-2022 18:00

Hugo Ponte regressou a casa e sonha com vida independente

Hugo Ponte regressou a casa e sonha com vida independente
Hugo Ponte sofreu um aparatoso acidente a 5 de Agosto na Estrada Nacional 3 em Azam

Um acidente de mota virou a vida de Hugo Ponte do avesso mas não lhe roubou a vontade de viver.

Ao fim de quatro meses de internamento, intervenções cirúrgicas e amputações de membros, o mecânico de Vale da Pedra, que gerou uma onda de solidariedade, está de volta a casa. Está decidido a recuperar e sonha com o dia em que vai receber as próteses para conseguir uma vida independente.

Não é por ter perdido os pés, uma mão e alguns dedos de outra que Hugo Ponte assinou uma sentença vitalícia de perda da sua autonomia. Sentado numa cadeira de rodas, é certo que nesta condição precisa de “ajuda para quase tudo” mas está decido a recuperar e já sonha com o dia em que vai receber as próteses e voltar a mexer o braço e a mão que o acidente não lhe tirou. “Vai ser melhor do que se me saísse o Euromilhões. Voltar a trabalhar na oficina, juntar dinheiro e comprar uma casinha, é o que mais quero”, anuncia.
Naquele dia 5 de Agosto de 2022 tinha saído cedo de casa para ir levar o filho ao local de trabalho. Escolheu a mota como meio de transporte, deixou o filho, parou para beber um café e acenou a um amigo que se cruzou com ele na estrada. Depois disso, tudo o que aconteceu nesse dia e nas duas semanas seguintes em que esteve em coma são um vazio na sua memória. “Dizem que foi o cérebro que quis apagar, que é normal em acidentes” violentos como o que sofreu. “Só sei que o acidente aconteceu [na Estrada Nacional 3 em Azambuja] e que fui contra um Peugeot vermelho que virava à esquerda para um parque de estacionamento porque me mostraram fotografias. Pelo que vi, foi como se tivessem posto uma parede à minha frente”. Hugo foi projectado vários metros e reanimado três vezes no local antes de ser transportado ao Hospital de São José, em Lisboa, onde permaneceu internado quase quatro meses.
Ao fim de 13 dias em coma, em que foi operado aos pulmões e ao coração, acordou. Numa das primeiras visitas que recebeu uma tia perguntou-lhe a idade. “40 e quando fizer anos vou à concentração de Góis, disse-lhe. E ela responde-me: não, já tens 41 anos, a concentração já aconteceu e tu tiveste um acidente gravíssimo”. Foi aí, conta, que olhou para o corpo que já não era o mesmo. Estava fraco, tinha menos 10 Kg e os dedos das mãos e pés “estavam pretos como carvão”. A sua sorte, diz, foi que “não [lhe] deixaram morrer o cérebro”.
No dia em que lhe anunciaram que tinha que ser amputado Hugo Ponte reagiu de forma prática e objectiva. “Percebi que as amputações eram necessárias, o mais importante era viver. Se escolhesse deixar ficar o pé havia uma grande probabilidade de mais tarde terem que me cortar também a perna”, diz com a segurança que perde quando a pergunta é sobre o que mudou na sua vida e como está a ser vivido o período de adaptação. “Vera, traz-me água, Vera preciso de ir à casa-de-banho, Vera preciso disto e daquilo. Agora, preciso da Vera para quase tudo”, atira no minuto seguinte após ter chamado a sua companheira de vida para lhe dar água à boca. Vera Lúcia - que deu voz à primeira notícia em O MIRANTE sobre o acidente de Hugo Ponte e as dificuldades financeiras que o acontecimento trouxe para a família com quatro filhos, três dos quais menores - tem sido por estes dias o maior apoio do mecânico de Vale da Pedra, concelho do Cartaxo.
O tempo tem custado a passar. Parte dele é aproveitado em pesquisas na Internet sobre próteses para os pés e mãos biónicas que custam milhares de euros, e a imaginar o dia em vai voltar a abrir a oficina. “A seguradora veio ver o estado em que a mota ficou mas mais nada aconteceu”. A condutora do veículo ligeiro não se deu como culpada e Hugo também não vê como pode ter tido culpa no acidente que deixou a sua vida em suspenso, explica, temendo que o processo se arraste no tempo numa altura em que está sem qualquer rendimento e há despesas hospitalares estimadas em milhares de euros por pagar.
Apesar disso, Hugo Ponte foca-se nos próximos passos: tirar um novo cartão de cidadão, porque sem mãos não consegue assinar, e sarar as feridas dos membros amputados para garantir a sua entrada no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, onde espera recuperar força, mobilidade e aprender a andar com próteses, que também são, para já, um desejo sem data de concretização. “Nunca fui de estar parado e aqui estou. A vida prega-nos destas coisas”.

“Gostava de lhe dizer que estou bem”

Hugo Ponte não tem memórias do dia do acidente. Mas não duvida que se se recordasse da cara da jovem condutora que fez a viragem à esquerda - que pensa ter sido repentina e já com a sua mota demasiado perto - iria procurá-la. “Disseram-me que ficou traumatizada. Gostava de lhe dizer que estou bem e que vou recuperar. Não quero que se culpe”, diz, confessando que o teria alegrado ter sido contactado pela condutora do Peugeot vermelho.

Paixão pelas motas não esmoreceu

Quem conhece Hugo Ponte, ou o ‘Espanhol’ como é apelidado, sabe da sua paixão pelo mundo das motas. Perdeu a conta aos passeios, às concentrações e até aos riscos que correu. Nunca foi, confessa, o condutor mais cuidadoso. Mas depois do acidente que lhe roubou a mobilidade garante que o fascínio e a vontade de voltar a conduzir uma mota não desapareceram. “Naquela é que não, nem que desse não a queria de volta”.

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