Sociedade | 03-01-2023 10:00

O apoio do Estado aos idosos é insuficiente

O apoio do Estado aos idosos é insuficiente
TRÊS DIMENSÕES
Fernanda Rosa é Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Fátima/Ourém há 13 anos mas faz parte da instituição desde a sua criação em 2005

Fernanda Rosa, 55 anos, Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Fátima/Ourém

Fernanda Rosa é licenciada em Serviço Social e actualmente trabalha na Direcção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. Além disso, é provedora da Santa Casa da Misericórdia Fátima/Ourém há cerca de 13 anos mas faz parte da instituição desde a sua criação, em Outubro de 2005. O seu trabalho na Misericórdia é voluntário. Por vezes aproveita os dias de férias para despachar trabalho. Garante que ajudar os outros completa-a e é uma recompensa. “Sinto-me útil”, afirma, acrescentando que a incomoda ver alguém sofrer e não fazer nada.

Ter nascido em Fátima ajudou a solidificar a minha fé. O meu Natal é vivido de forma intensa mas a nível interior. Além do convívio com a família é o virar-me para mim e viver o meu lado espiritual. Tenho muita fé. Vou à Missa do Galo e faço parte do coro da paróquia de Fátima. Natal é compromisso. O meu avô era primo da Irmã Lúcia. Era um cristão convicto das Aparições, assistiu ao Milagre do Sol e falou-me sempre disso com muita fé. Claro que junto dos fenómenos que envolvem grandes multidões há sempre um negócio associado que não tem que ser necessariamente mau. É da natureza humana e a sua maneira de sobreviver. Onde há turismo há negócio e foi também uma forma de Fátima crescer. O que Fátima não pode perder é a sua essência, a sua imagem de paz, reconciliação e devoção a Nossa Senhora.
O momento mais difícil da minha vida foi o falecimento de uma sobrinha aos 14 anos. Nasceu com fibrose quística que lhe foi diagnosticada aos seis meses de vida. Já passaram 20 anos mas ainda é muito difícil para a família falar nisso. Foi uma sobrinha muito desejada e foi uma luta muito grande dos pais e da família para lhe dar a melhor qualidade de vida. Passei a ter mais fé apesar de fazer mossa. Não culpo Deus por todos os males do mundo. Deus não é milagreiro. É uma forma de vida e dá sentido à vida. Nunca houve revolta na família apesar do sentimento doloroso da perda. As coisas acontecem, faz parte da natureza humana.
Não estava preparada para o nascimento do meu primeiro filho. Tinha 28 anos e já tinha alguma maturidade mas acho que nunca se está preparada para o nascimento do primeiro filho. O nascimento dos meus dois filhos são os momentos mais marcantes da minha vida e foram filhos desejados e planeados. No entanto, a adaptação ao primeiro filho não é fácil porque muda tudo. Temos que ter uma grande capacidade de abdicar de muita coisa sobretudo do descanso. São muitas noites sem dormir e isso acaba por nos afectar. O segundo filho já é mais fácil, porque já estamos preparados para o que nos espera (risos).
Aprendi a tocar flauta aos 50 anos. Gosto muito de música e com os filhos crescidos decidi aprender a tocar flauta no Conservatório de Música de Fátima, mas tive que parar porque exige muito tempo e não consigo conciliar tudo. Quando posso refugio-me na praia. Costumamos ir para Monte Gordo, no Algarve. Também gosto muito de ler e de momentos para estar sem fazer nada. Se puder passar sem cozinhar prefiro. Tenho uma filha vegan que nos tem educado um bocadinho na parte gastronómica. Como peixe mas carne é só em dias festivos. Quando cozinho gosto de fazer uma feijoada de cogumelos e, para quem não é vegan, gosto muito de cozinhar o bacalhau com cebolada como a minha mãe fazia.
Os idosos têm sido muito maltratados por todos nós. Nos últimos dez anos houve melhorias significativas mas ainda existe muito caminho a percorrer. Ninguém quer ser velho mas também ninguém quer morrer jovem. O apoio do Estado aos idosos é insuficiente e depois vemos situações que nos partem o coração, em que os mais velhos vivem sem condições. Tem que haver mais apoios, investimentos e mais preocupação com as pessoas que trabalharam uma vida inteira e precisam de ajuda.
Os principais problemas da Misericórdia de Fátima/Ourém são financeiros e de recursos humanos. Os acordos de cooperação não são suficientes e não é fácil trabalhar com idosos, quer física quer psicologicamente por isso os recursos humanos são tão difíceis de manter. Sei que os ordenados não são altos e são profissões que deveriam ser melhor remuneradas, mas não podemos endividar a instituição. A Santa Casa tem 45 funcionários e estamos num espaço arrendado desde 2007. Adquirimos um terreno no Moimento, a preço simbólico, para construirmos o nosso espaço. Temos o projecto aprovado na câmara municipal e temos uma parte do financiamento aprovado pelo programa PARES. Estamos a preparar a abertura do concurso público que esperamos que fique concluído em Janeiro de 2023. Se tudo correr bem mudamo-nos daqui a dois anos.
Tenho medo de andar de avião. Quando casei o meu marido ficou colocado nos Açores durante dois anos. Numa dessas viagens tive uma experiência bastante desagradável e por isso tenho evitado andar de avião. Mas a minha viagem de sonho é fazer um safari em África para ver as diferenças que existem no nosso mundo, em que vivemos numa correria, para ver a vida animal no seu estado puro e selvagem. Deve ser uma beleza digna de ser vista.

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