Sociedade | 04-01-2023 10:00

Conhecido pelos cornos foi no folclore que deixou marcas ao longo de 60 anos

Conhecido pelos cornos foi no folclore que deixou marcas ao longo de 60 anos
José Maria Batista, mais conhecido por "Canolho" ou "Zé Maria dos Cornos", é uma figura típica de Almeirim que dedicou 60 anos da sua vida ao folclore

Tornou-se conhecido pelo pitoresco de andar a vender cornos nos restaurantes de Almeirim, às vezes mantas ribatejanas, de Minde, sendo a figura mais típica da cidade perante os milhares que a procuram para se deliciarem com a sopa de pedra.

Com os cornos foi sustentando a família e com o folclore alimentou o espírito de defensor das tradições e da cultura. Ajudou a fundar e ensaiou ranchos no seu concelho e fora dele e esteve dez anos em África a ensinar as danças e cantares típicos de um país em ditadura que estava fechado ao mundo.

Muitos dos que o vêem ainda hoje, com 85 anos, a vender cornos de toiros na zona dos restaurantes da sopa de pedra em Almeirim não imaginam o que José Maria Batista, “Canolho” e “Zé dos Cornos” de alcunhas, já somou de dedicação ao folclore, promovendo a arte e ajudando a criar ou desenvolver grupos na sua terra e fora dela. Nascido em 1937 no bairro da Tróia, dos mais típicos da cidade, desde muito novo se dedicou ao folclore. Aos 18 anos juntou-se ao grupo que fundou o Rancho da Casa do Povo de Almeirim, em 1956, tendo sido o primeiro fandanguista com o tio Joaquim “Polícia”, o primeiro ensaiador do agrupamento. Depois ajudou a criar o grupo infantil e começa a dar nas vistas como ensaiador, primeiro do já inactivo Rancho da Quinta da Alorna, onde foi trabalhador rural, e depois em África.
Em Angola, esteve a ensaiar o Rancho Folclórico da Casa do Ribatejo do Lobito, de 1965 a 1975, num país em guerra pela descolonização, o que, mesmo assim, não o impediu de andar com o grupo por vários pontos da então colónia portuguesa, incluindo a capital, Luanda. Foi neste território africano que também deu os primeiros passos nas marchas populares e a sua dedicação e saber são recompensadas com sucessos. A Marcha da Caponte, que formou em Angola, ganhou logo no primeiro ano o primeiro prémio das Grandes Marchas do Lobito. No segundo ano já tinha formado a segunda, a Marcha Infantil da Casa do Ribatejo do Lobito, e as duas arrecadaram o primeiro prémio nas categorias adulto e infantil. Na década de 80 voltou a formar marchas, desta vez em Benfica do Ribatejo.
Após a revolução do 25 de Abril regressou a Almeirim, mas só parava em casa para arranjar os cornos com os quais ganhava a vida e se tornava conhecido pelos muitos visitantes que procuram Almeirim para comer a sopa de pedra. Sempre esteve no folclore abnegadamente e foi desse modo que, como ensaiador, deu início ao Rancho Folclórico da Gouxaria, no concelho de Alcanena, para onde se deslocava à sua custa as vezes que fossem precisas, além de acompanhar a formação nas actuações pelo país fora. O rancho apresentou-se em 1985 com seis meses de ensaios. José Maria Batista a ensinou a arte neste agrupamento durante seis anos sem ganhar um cêntimo.

Sem nunca recusar ajuda
Andou seis décadas no folclore e nunca recusou ajudar os grupos do concelho de Almeirim que procuravam o seu saber tendo ajudado a lançar o Rancho Folclórico de Benfica do Ribatejo, que se estreou em 1980 e que nos primeiros cinco anos teve actuações em Inglaterra e Itália. Três anos depois do rancho adulto estreou o grupo infantil que teve logo uma actuação em França, em 1984, um ano após iniciar actividade. Criou o segundo grupo infantil, o de Almeirim, que entre 1988 e 1990 actuou na Turquia e na Jugoslávia. Chegou a ensaiar três grupos em simultâneo: o de Benfica do Ribatejo, o da Gouxaria e o infantil de Almeirim. Com o Rancho Folclórico da Velha Guarda de Almeirim, de que foi também um dos fundadores, mostrou as danças e cantares em vários países, como Canadá ou França. Nesta localidade do concelho de Almeirim também formou as marchas de 1981 e 1984.

Milhares de crianças e adultos que ensinou e ajudou
O Agrupamento “Os Maduros do Folclore de Cortiçóis”, homenagearam-no e classificaram-no como um dos maiores dançarino e fandanguista ribatejano, que ensinou a sua arte a várias gerações, sempre de forma abnegada. Foi também o primeiro a fazer par com a esposa. O gosto pelas danças e cantares acompanhou-o desde tenra idade quando assistia aos bailes na Rua Angola, no típico bairro da Tróia, tendo começado cedo a aprender o fandango com o pai e as danças tradicionais com as tias e as pessoas mais velhas do bairro. “Dediquei com muito gosto 60 anos da minha vida à cultura da minha terra, do meu concelho, do meu distrito, levando o nome do meu país pelo mundo fora. Foram milhares de crianças, homens e mulheres que tive o prazer de ensinar e, sobretudo, ajudar a serem bons homens e mulheres”, sublinha José Maria Batista.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal

    Edição nº 1597
    01-02-2023
    Capa Vale Tejo
    Edição nº 1597
    01-02-2023
    Capa Médio Tejo