Daniela Silvestre é um exemplo de resistência aos azares da vida

Daniela Silvestre continua internada no Hospital de Vila Franca de Xira após ter tido um enfarte medular em 2021. A necessidade de ventilação permanente e de uma cadeira de rodas adaptada fazem com que ainda não seja possível ter alta da Unidade de Cuidados Intensivos. Familiares, amigos e centenas de desconhecidos desdobram-se em iniciativas para angariar verbas para comprar o equipamento necessário.
Há mais de um ano internada na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Vila Franca de Xira (HVFX) Daniela Silvestre afirma que “desistir não é opção”. Um enfarte medular deixou-a tetraplégica a 6 de Novembro de 2021, e agora, prestes a fazer 22 anos, no dia 20 de Março, só quer regressar a casa e voltar a ter autonomia. O hospital é a sua casa desde que caiu na pista de dança da discoteca Império, em Alverca do Ribatejo.
Sem antecedentes e sem casos de doenças graves na família Daniela tornou-se um caso raro por ter tido um enfarte medular tão nova e sem causas atribuídas. No dia em que a sua vida mudou sentiu um aperto no peito e a mão dormente já não conseguiu agarrar o telemóvel. Os amigos levaram-na de carro desde a discoteca até ao HVFX e já mal respirava quando chegou. Não voltou a sair da Unidade de Cuidados Intensivos.
A vida no piso 2 do hospital é uma rotina necessária. Todas as manhãs faz fisioterapia e a tarde é passada a ver séries e filmes. Aproveita o tempo para pesquisar e actualizar as suas páginas nas redes sociais e responder às perguntas de quem a segue através de uns óculos especiais para a sua condição física. Todos os dias tem visitas dos amigos e do pai que levam o almoço e jantar para não ter que comer as refeições do hospital. Os médicos e enfermeiros são família e passam muito tempo à conversa com a Daniela.
“Vou buscar a minha força às outras pessoas. Não é um processo fácil. Para além de estar no hospital, e para além da lesão, é uma mistura de sentimentos complicados. Vou-me aguentando porque nunca fui de desistir, não era agora que isso ia acontecer. A minha vida só mudou e vou ter de aprender a viver de outra maneira”, diz a O MIRANTE.
O objectivo da Daniela é sair do hospital e poder ter autonomia ao longo da vida. Para isso é necessário adaptar a casa do pai às suas necessidades e mandar fazer uma cadeira de rodas especial. Só a cadeira custa cerca de 40 mil euros, fora as obras em casa que são mais uns milhares. Só assim vai poder ir para a universidade tirar a licenciatura em Assistência Social. Sempre quis trabalhar com a população prisional e não vai desistir de trabalhar nessa área.
Daniela Silvestre amadureceu muito e diz ter uma visão diferente da vida. Tornou-se mais atenta e com os sentidos mais apurados. Não perdeu o raciocínio, a audição, a fala, esses sentidos ficaram mais despertos. Mas para sair do HVFX é preciso muito dinheiro. Já foram angariados cerca de 14 mil euros em iniciativas um pouco por todo o país. A última foi uma caminhada no Porto Alto que juntou mais de 200 pessoas. O caminho é longo mas, para Daniela, desistir não está nos planos. “Acredito que o enfarte aconteceu porque tinha de acontecer. Se não tivesse saído naquela noite acontecia na mesma, onde quer que estivesse. No início também passei pela fase do porquê mas dei a volta. Não ia adiantar nada viver nesse ciclo. Vou chegar aos mesmos sítios mas agora com mais dificuldade”, diz convicta.
Os médicos já fazem parte da família
O médico de Medicina Intensiva André Simões, acompanha Daniela desde o primeiro dia. É o médico de referência a quem a jovem já apelidou “como um pai”. A O MIRANTE o médico explica que não é habitual ter doentes alocados a médicos específicos mas neste caso era necessário. Por isso mesmo refere que a relação já não é apenas profissional, é também pessoal.
O enfarte medular resulta de uma oclusão de uma artéria que irriga parte da medula, responsável pela função sensitiva e motora. Normalmente a doença tem um contexto mas no caso da Daniela não. Por isso a equipa médica ainda tentou reverter o quadro com corticóides e câmara hiperbárica (tratamento com grandes quantidades de oxigénio) e partilha de conhecimentos com outros médicos.
O caso de Daniela, descrito por André Simões como raro, mesmo a nível internacional, causa muitas limitações. Daniela precisa de ventilação permanente para poder respirar e não existem instituições que a possam acolher. “O que estamos a fazer é capacitar familiares e cuidadores, que está previsto em lei, para tomarem conta dela. Essa formação é feita pela equipa de enfermagem e pelas empresas de ventilação”, explica o médico.
É preciso tudo o que se possa imaginar para a Daniela poder regressar a casa. Desde o sítio onde se senta, seja cadeira de rodas ou cadeirão, bancos e colchões anti-escaras e uma maca banheira. No Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão Daniela iniciou os testes de cadeira de rodas e por isso ficou lá internada. Os testes permitiram perceber que ela seria capaz de controlar uma cadeira com diferentes controlos. É uma cadeira muito dispendiosa que tem de ser equipada com dispositivos electrónicos.
“O tempo aos 21 anos não existe. A Daniela já passou mais de um ano sem cadeira e após estes testes já vimos que ela é capaz de a conduzir. Estamos a ver se conseguimos através do hospital adquirir parte do equipamento para a casa, dentro de uma verba razoável”, sublinha André Simões.