Sociedade | 22-02-2023 12:00

Daniela Silvestre é um exemplo de resistência aos azares da vida

Daniela Silvestre é um exemplo de resistência aos azares da vida
Daniela Silvestre acompanhada pelo médico André Simões, está internada no hospital há mais de um ano depois de ter sofrido um enfarte medular que a deixou tetrap

Daniela Silvestre continua internada no Hospital de Vila Franca de Xira após ter tido um enfarte medular em 2021. A necessidade de ventilação permanente e de uma cadeira de rodas adaptada fazem com que ainda não seja possível ter alta da Unidade de Cuidados Intensivos. Familiares, amigos e centenas de desconhecidos desdobram-se em iniciativas para angariar verbas para comprar o equipamento necessário.

Há mais de um ano internada na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Vila Franca de Xira (HVFX) Daniela Silvestre afirma que “desistir não é opção”. Um enfarte medular deixou-a tetraplégica a 6 de Novembro de 2021, e agora, prestes a fazer 22 anos, no dia 20 de Março, só quer regressar a casa e voltar a ter autonomia. O hospital é a sua casa desde que caiu na pista de dança da discoteca Império, em Alverca do Ribatejo.
Sem antecedentes e sem casos de doenças graves na família Daniela tornou-se um caso raro por ter tido um enfarte medular tão nova e sem causas atribuídas. No dia em que a sua vida mudou sentiu um aperto no peito e a mão dormente já não conseguiu agarrar o telemóvel. Os amigos levaram-na de carro desde a discoteca até ao HVFX e já mal respirava quando chegou. Não voltou a sair da Unidade de Cuidados Intensivos.
A vida no piso 2 do hospital é uma rotina necessária. Todas as manhãs faz fisioterapia e a tarde é passada a ver séries e filmes. Aproveita o tempo para pesquisar e actualizar as suas páginas nas redes sociais e responder às perguntas de quem a segue através de uns óculos especiais para a sua condição física. Todos os dias tem visitas dos amigos e do pai que levam o almoço e jantar para não ter que comer as refeições do hospital. Os médicos e enfermeiros são família e passam muito tempo à conversa com a Daniela.
“Vou buscar a minha força às outras pessoas. Não é um processo fácil. Para além de estar no hospital, e para além da lesão, é uma mistura de sentimentos complicados. Vou-me aguentando porque nunca fui de desistir, não era agora que isso ia acontecer. A minha vida só mudou e vou ter de aprender a viver de outra maneira”, diz a O MIRANTE.
O objectivo da Daniela é sair do hospital e poder ter autonomia ao longo da vida. Para isso é necessário adaptar a casa do pai às suas necessidades e mandar fazer uma cadeira de rodas especial. Só a cadeira custa cerca de 40 mil euros, fora as obras em casa que são mais uns milhares. Só assim vai poder ir para a universidade tirar a licenciatura em Assistência Social. Sempre quis trabalhar com a população prisional e não vai desistir de trabalhar nessa área.
Daniela Silvestre amadureceu muito e diz ter uma visão diferente da vida. Tornou-se mais atenta e com os sentidos mais apurados. Não perdeu o raciocínio, a audição, a fala, esses sentidos ficaram mais despertos. Mas para sair do HVFX é preciso muito dinheiro. Já foram angariados cerca de 14 mil euros em iniciativas um pouco por todo o país. A última foi uma caminhada no Porto Alto que juntou mais de 200 pessoas. O caminho é longo mas, para Daniela, desistir não está nos planos. “Acredito que o enfarte aconteceu porque tinha de acontecer. Se não tivesse saído naquela noite acontecia na mesma, onde quer que estivesse. No início também passei pela fase do porquê mas dei a volta. Não ia adiantar nada viver nesse ciclo. Vou chegar aos mesmos sítios mas agora com mais dificuldade”, diz convicta.

Os médicos já fazem parte da família
O médico de Medicina Intensiva André Simões, acompanha Daniela desde o primeiro dia. É o médico de referência a quem a jovem já apelidou “como um pai”. A O MIRANTE o médico explica que não é habitual ter doentes alocados a médicos específicos mas neste caso era necessário. Por isso mesmo refere que a relação já não é apenas profissional, é também pessoal.
O enfarte medular resulta de uma oclusão de uma artéria que irriga parte da medula, responsável pela função sensitiva e motora. Normalmente a doença tem um contexto mas no caso da Daniela não. Por isso a equipa médica ainda tentou reverter o quadro com corticóides e câmara hiperbárica (tratamento com grandes quantidades de oxigénio) e partilha de conhecimentos com outros médicos.
O caso de Daniela, descrito por André Simões como raro, mesmo a nível internacional, causa muitas limitações. Daniela precisa de ventilação permanente para poder respirar e não existem instituições que a possam acolher. “O que estamos a fazer é capacitar familiares e cuidadores, que está previsto em lei, para tomarem conta dela. Essa formação é feita pela equipa de enfermagem e pelas empresas de ventilação”, explica o médico.
É preciso tudo o que se possa imaginar para a Daniela poder regressar a casa. Desde o sítio onde se senta, seja cadeira de rodas ou cadeirão, bancos e colchões anti-escaras e uma maca banheira. No Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão Daniela iniciou os testes de cadeira de rodas e por isso ficou lá internada. Os testes permitiram perceber que ela seria capaz de controlar uma cadeira com diferentes controlos. É uma cadeira muito dispendiosa que tem de ser equipada com dispositivos electrónicos.
“O tempo aos 21 anos não existe. A Daniela já passou mais de um ano sem cadeira e após estes testes já vimos que ela é capaz de a conduzir. Estamos a ver se conseguimos através do hospital adquirir parte do equipamento para a casa, dentro de uma verba razoável”, sublinha André Simões.

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