Sociedade | 11-04-2023 21:00

Fecho da fábrica da Opel em Azambuja ainda é uma ferida aberta 17 anos depois

Fecho da fábrica da Opel em Azambuja ainda é uma ferida aberta 17 anos depois
Último turno saiu da fábrica da GM de Azambuja a 20 de Dezembro de 2006. fotoDR

Chegou a produzir 22 carros por hora e a ser responsável por 0,8% do PIB nacional. Há 17 anos a General Motors despediu-se de Azambuja, a poucos dias do Natal, numa decisão economicista que acabou com uma importante unidade de produção automóvel do país e empobreceu a economia da região.

Foi há quase duas décadas que a General Motors (GM) tomou a primeira decisão de encerrar a fábrica de Azambuja, fundada em 1963 e que produzia 300 carros por dia, empregava 1.107 trabalhadores directos (e outros 400 indirectos) e contribuía com 0,8% do Produto Interno Bruto Nacional. Um momento que ainda hoje provoca lágrimas e tristeza em centenas de pessoas e famílias de gente que ali trabalhou.
Após a decisão de fecho, em 2003, seguiu-se um longo e conturbado período negocial e tudo acabaria, definitivamente, às 23h10 de 20 de Dezembro de 2006, momento em que, pelas mãos de Nuno Sampaio, natural das Quebradas, saía o último automóvel da linha de montagem e a produção foi movida para Espanha. “Chorei no último dia. O pessoal tinha ido todo embora e ainda ficámos mais três dias a acabar o último carro. Eu, um inspector da qualidade, um electricista que já morreu e um colega da linha. Ainda hoje me emociono. Custou muito acabar o último dia”, conta a O MIRANTE, emocionado.
A sua equipa construiu um caixão que, simbolicamente, foi a última coisa a circular na linha. Entrou na fábrica aos 20 anos por ser um apaixonado por automóveis e sempre trabalhou na linha de montagem dando vida a modelos como o Kadett, Corsa e Combo. Foi despedido aos 38 anos. “Ainda novo mas já velho para trabalhar”, recorda Nuno Sampaio. Recebeu, como os colegas, dois meses e meio de salário por cada ano mas voltar a encontrar emprego não foi fácil.
“Ainda estive na camionagem mas custava-me ouvir as pessoas a dizer que a fábrica fechou por culpa dos trabalhadores e das greves. Isso não era verdade”, critica o homem que nunca engoliu a explicação dada pela GM de que produzir o carro em Azambuja ficava 500 euros mais caro por unidade do que em Espanha. “As pessoas nunca acreditaram que a fábrica fosse realmente fechar. O processo foi muito mal negociado e o Governo, à época, podia ter ajudado mais. Ameaçando proibir a importação da Opel se a fábrica fechasse, por exemplo”, defende.
O fecho da fábrica é uma ferida que ainda não sarou 17 anos depois mas mesmo assim Nuno Sampaio diz não guardar rancor à marca e conseguiu emprego como motorista de autocarros de passageiros na Câmara de Azambuja. “Ganho menos hoje do que na altura ganhava na fábrica. Ganhava mais lá num ano do que agora durante 3 anos. Tenho um filho a estudar e não é com o meu ordenado hoje que ele está a estudar, é com o dinheiro que poupei da Opel”, confessa.

A arte do desenrasca
Armando Martins, de 63 anos, foi supervisor de produção na fábrica e lembra os dias em que se andava de bicicleta dentro da fábrica. “Era uma empresa onde dava gosto trabalhar. Havia muitos problemas, claro, mas muita actividade e, de uma forma geral, éramos uma família aguerrida. A arte do desenrasca era uma mais-valia portuguesa”, recorda. Que o diga Nuno Sampaio: “Os alemães sabiam sempre se a linha de produção estava parada ou não por isso chegámos a esconder problemas e carros que saíam com falta de peças. No Astra tivemos 2.600 carros em parque só com as rodas montadas para que passassem nos sensores como estando já prontos”, recorda com um sorriso.
Para Armando Martins não há dúvida que o fecho da fábrica foi traumático para muita gente e que as feridas ainda não sararam. “Ficaram famílias inteiras no limbo. Não foi fácil para muita gente encontrar trabalho depois disso nem encontrar um salário próximo ao que ganhavam. Foi uma tristeza para o nosso concelho e região. As pessoas tinham um nível de vida superior, havia qualidade de vida e isso perdeu-se. Azambuja não tem hoje emprego qualificado nem minimamente bem pago”, lamenta.
Armando Martins admite ser polémico na sua opinião sobre a intervenção dos sindicatos junto da comissão de trabalhadores na recta final. “Houve excessos. Sempre pensaram que podiam fazer o que queriam com a GM e começaram a tomar medidas que não faziam sentido”, critica. Pouco depois de sair Armando Martins juntou-se a um concessionário de automóveis em Loures onde ficou até se reformar recentemente.
Também durante década e meia a Câmara de Azambuja lutou junto do Governo para reaver quase um milhão de euros que tinha isentado à fábrica, relativos a taxas, licenças e impostos, verba que chegou aos cofres da câmara há sete anos, como O MIRANTE deu nota.

Armando Martins foi supervisor de produção
Pelas mãos de Nuno Sampaio passou o último carro a sair da fábrica

Onde pára a cápsula do tempo?

Já nada existe em Azambuja que identifique o local onde funcionou a fábrica, o que Nuno Sampaio lamenta. “Devia existir algo que contasse a história e a importância da fábrica. Azambuja sempre foi a terra das fábricas da Ford e da GM”, defende. Por esclarecer fica também a história da cápsula do tempo que foi enterrada junto a um antigo pinheiro da fábrica que continha a história da GM em Azambuja e os planos iniciais da fábrica com assinaturas de todos os trabalhadores que a fundaram. Já ninguém sabe onde está enterrada ou se foi recuperada. “Muitas pessoas que já morreram e lá trabalharam contaram-me essa história. Não sabemos onde está em concreto, o que é uma pena. Alguém tem de preservar esta história”, lamenta.

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