Sociedade | 23-04-2023 09:00

Falta de lampreia no Tejo deve-se à escassez de água e destruição de habitats

Falta de lampreia no Tejo deve-se à escassez de água e destruição de habitats
Investigador Bernardo Quintella justifica escassez de lampreia no rio Tejo com falta de água e construção de açudes e barragens

Pescadores de Abrantes e Mação afirmam que este ano não há lampreia no rio Tejo. Investigador diz que escassez se deve à falta de água, destruição de habitats e construção de açudes e barragens.

O investigador Bernardo Quintella justificou a escassez de lampreia no rio Tejo, que afecta pescadores e turismo, com a destruição de habitats, falta de água e com a construção de açudes e barragens. “Achamos que um dos principais factores que contribuiu para haver menos lampreia, de uma forma geral, mas também no rio Tejo, tem a ver com a redução sistemática do habitat, com a falta de água e com a construção de açudes e de barragens, que têm vindo a reduzir sistematicamente o habitat disponível para este tipo de espécies”, afirmou o cientista ligado ao Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), acrescentando que “o pico de migração seria em Março/Abril” e que pouca lampreia se vê no rio.
Em declarações à Lusa, deixou ainda alguns dados relativos ao Tejo e adiantou que nos últimos 100 anos o rio perdeu entre 80% a 90% de ‘habitats’ sobretudo por causa das barragens ou de açudes. “Estamos a falar de uma redução de habitat entre os 80% e os 90% (...) que estava disponível para a lampreia, há 100 anos, e que deixou de estar. É uma redução brutal porque em vez de termos os animais espalhados ao longo do rio e dos seus afluentes, acabamos por ter os animais concentrados num troço muito mais curto e acabam por ficar mais susceptíveis a serem capturados por pescadores”, notou.
Bernardo Quintella disse que o rio Tejo tem ainda uma “agravante, que é a falta de água por causa dos transvases que acontecem em Espanha e devido às alterações climáticas”, numa conjugação de factores que acaba por ser “extremamente deletéria” para as espécies. “Aquilo que estou a dizer para a lampreia marinha também é verdade para o sável e também será verdade para a truta e para o salmão, nos rios mais a norte. Isto para falar apenas das espécies anádromas, que são aquelas que sobem os rios para se reproduzir. Como a lampreia e como o salmão são aquelas que se reproduzem na água doce depois têm uma fase de alimentação em ambiente marinho”, observou.

Pescadores de mãos vazias
A escassez de lampreia no Tejo tem deixado os pescadores de mãos vazias e a actividade turística também se tem ressentido, com os municípios ribeirinhos de Mação e de Vila Nova da Barquinha a cancelarem os tradicionais festivais gastronómicos dedicados ao ciclóstomo. Luís Grilo, pescador de Tramagal, concelho de Abrantes, assegura que nunca viu ano tão mau para a lampreia não tendo conseguido apanhar nenhuma para a amostra. “Não tenho memória de uma coisa assim. Já há muitos anos que não acontecia não apanhar. Sempre houve muita lampreia, algumas vezes havia menos, mas sempre aparecia alguma, e agora não. Não aparece nada”, afirmou. Mais a montante do rio, em Ortiga, concelho de Mação, Francisco Pinto, pescador profissional há 35 anos, diz que este ano só apanhou duas lampreias e que foi abaixo do açude de Abrantes. “Aqui à Ortiga não chega nada. Este ano foi mesmo bater no fundo e já desisti. Não há memória. Passei 17 noites à pesca da lampreia e não apanhei nada, só consegui duas e foi para baixo do açude. Este é o pior ano em 35 anos de pesca profissional”, lamentou, manifestando pouca expectativa que a lampreia recupere para o ano.

Impactos na fauna e flora
Para o Movimento Pelo Tejo – proTEJO, a falta de lampreia “deriva, em boa medida, da irregularidade dos caudais”, tendo reiterado a necessidade de “implementação de caudais ecológicos regulares contínuos e instantâneos no Tejo, medidos em metros cúbicos por segundo respeitando a sazonalidade das estações”. Afirmando estar preocupado com os impactos na fauna, flora e biodiversidade ribeirinha, Paulo Constantino salientou a importância da “preservação e salvaguarda dos ecossistemas para criar, regenerar, purificar, criar e reter água”, tendo defendido “medidas de prevenção e a envolvência do Governo nesta matéria para ser possível caminhar para um futuro mais verde, equilibrado e sustentável ambientalmente”.

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