Sociedade | 24-05-2023 15:00

Dia da Família: "Na nossa sociedade a brincadeira com os filhos é desvalorizada"

Dia da Família: "Na nossa sociedade a brincadeira com os filhos é desvalorizada"
Sónia Mendão interessou-se pela parentalidade positiva ao não conseguir fazer com que o filho, na altura com três anos, dormisse sozinho no seu quarto

A dinâmica familiar pode ser desafiante e criar frustrações ou sentimentos de culpa nos pais que não sabem como agir perante um comportamento negativo dos filhos. A solução passa por não ignorar as emoções das crianças, aprender a brincar e trocar a abordagem negativa pela positiva, defende a especialista em parentalidade positiva, Sónia Mendão. Esta quarta-feira, 15 de Maio, assinala-se o Dia Internacional da Família.

Educar de forma consciente e positiva, com a criança a fazer parte do processo com todas as suas individualidades, é o modelo defendido pela especialista em parentalidade positiva e técnica superior na divisão de Educação e Equipa Multidisciplinar de Intervenção Comunitária da Câmara de Azambuja, Sónia Mendão. Natural do Cartaxo, esta mãe de 45 anos sentiu necessidade de fazer um curso de parentalidade positiva perante os desafios impostos pela maternidade. Já ajudou dezenas de pais a conseguirem resolver birras, a acabarem com os gritos e castigos e a estabelecerem ou recuperarem o vínculo afectivo com os filhos. Os cursos são individuais ou em grupo e fazem parte do Programa Inovador de Combate ao Insucesso Escolar da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo. Esta é uma conversa a propósito do Dia da Família, assinalado a 15 de Maio.

O conceito é relativamente recente e continua a suscitar dúvidas. O que é afinal a parentalidade positiva?

Consiste em ensinarmos a dar mais valor à positividade e desvalorizarmos aquilo que as crianças fazem de negativo. Os pais são um modelo para os filhos, logo se forem calmos e assertivos vão ensinar aos filhos essas formas de estar. Outro grande objectivo é que as crianças aprendam a lidar com as suas próprias emoções, que compreendam o que estão a sentir e se sintam compreendidas. Se houver uma birra há-de haver uma razão para estar a acontecer e a validação dessa razão é fundamental. É preciso lidar com os sentimentos negativos das crianças de forma positiva e não os desvalorizar.

Não é o mesmo que ser permissivo com tudo o que os filhos querem fazer?

Não. Existem regras e consequências, com os filhos a fazer parte do processo. As crianças têm que perceber o porquê de estarem a sofrer uma consequência. Quando falamos de crianças pequenas, a base do nosso trabalho é a brincadeira porque é a partir dela que se desenvolvem aprendizagens como a socialização, criatividade e partilha, ferramentas através das quais ganham capacidades para lidar com o mundo. Começamos sempre por ensinar os pais a brincar com os filhos e o que constatamos é que há quem ache isso muito estranho porque na nossa sociedade a brincadeira com os filhos é desvalorizada.

E onde fica o castigo, o ‘não podes fazer’ e a palmada?

As palmadas não ficam, o ‘não podes fazer’ diz-se, mas não dessa forma. Sobre os castigos não somos a favor, mas somos a favor de um tempo de pausa e das consequências. Todas as atitudes têm consequências positivas ou negativas e as crianças sabem-no se lhes for explicado. Não podem é ser consequências absurdas como deixar de ver televisão durante uma semana. Não há necessidade porque ao fim de uma semana a criança já se esqueceu do que fez.

Voltando à importância do brincar: nesta sociedade acelerada brinca-se cada vez menos com os filhos?

Há muitos pais que brincam, mas alguns não sabem brincar e querem levar para a brincadeira os conhecimentos. Por exemplo, se a criança diz que o brinquedo, que é uma vaca, vai voar a tendência do adulto é dizer que é um disparate porque as vacas não voam. Mas na imaginação daquela criança aqueles animais podem voar. E é isso que devemos estimular: a criatividade. Além disso, durante a brincadeira pode-se dar informações de forma que a criança adquira conhecimentos [cores, números, formas] e ir-se validando as conquistas e esforço para atingir o objectivo [do jogo]. Não aceito é que se diga que não se tem tempo para brincar com os filhos. Se quisermos tempo arranjamo-lo. Se calhar aquele bocado no sofá a ver redes sociais fazia a diferença.

Um dos grandes problemas educacionais é os pais não saberem lidar com as emoções dos filhos?

Sim. É muito complicado falar de emoções e nós portugueses e adultos temos muita dificuldade em lidar com emoções e elogios. É uma questão cultural não estarmos habituados a expressar aquilo que sentimos. Lembro-me de ter pais no curso a dizer que nunca ouviram os seus pais dizer ‘amo-te’. Em minha casa é uma palavra completamente normal, mas que a minha mãe aprendeu a dizer com o meu filho.

As crianças do sexo masculino continuam a ser ensinadas a não expressar as suas emoções?

Na minha geração havia muito o dizer-se que os rapazes não choram e que não se podem mostrar as emoções, mas essa realidade está a mudar porque existe preocupação em trabalhar as emoções em contexto escolar. No concelho de Azambuja, por exemplo, temos um programa específico nas escolas onde se fala de emoções e o que notamos é que até ao 4º ano as crianças já não têm tanta dificuldade em falar delas. Do 5º ano para a frente já se nota alguma resistência.

Há uma idade para se começar a aplicar a parentalidade positiva?

Pode ser aplicada a partir dos três anos, que é quando começam a entender o que lhes queremos transmitir. Com uma criança mais pequena podemos elogiar e apostar na positividade, mas não faz muito sentido o explicar, o estabelecer regras ou consequências.

A cultura do elogio não está enraizada

Elogiar em demasia não estraga?

O elogio não estraga as crianças, pelo contrário. Devemos elogiar muito e não apenas quando a criança atinge um objectivo. Até pode não o ter conseguido alcançar, mas teve um processo até lá chegar e esse percurso tem que ser elogiado porque a criança esforçou-se. Não conseguiu? Não faz mal, vamos tentar de novo, mas vamos elogiar para que não desista. Se continuamos a não elogiar vamos diminuir-lhe a auto-estima. O esforço deve ser compensado.

E há adultos estragados porque nunca ouviram um elogio em criança?

Há e agora se o ouvem não o sabem receber. Essa cultura do elogio, por exemplo, não está de todo enraizada no nosso sistema laboral. A chefia não tem ainda em si a cultura do elogiar, do reconhecer o esforço mesmo que não se tenham atingido os objectivos ou de agradecer quando se atingem. E se não existe no trabalho, entre adultos, não vai existir em casa, com os filhos.

Há uma tendência para se replicar o modelo de educação que se recebeu, mesmo que tenha sido um modelo autoritário?

Já não tanto. Está-se a quebrar esse modelo autoritário, mas não em todas as casas. Ainda há muito caminho a fazer. Quando abrimos vagas ao público em geral para o programa normalmente vem quem não precisa. E quem vem contrariado, ou porque foi uma medida da CPCJ [Comissão de Protecção de Crianças e Jovens], geralmente acaba por não se vincular no grupo de pais.

É difícil para os pais que aplicam parentalidade positiva lidar com a restante família que não está por dentro ou não concorda com este modelo de educação?

Pode não ser fácil. Mas é importante que os familiares percebam que o pai ou a mãe daquela criança são os responsáveis e definem a forma de educar. Se a criança riscar a parede e me apetecer pôr uma moldura à volta do desenho, a parede e a casa são minhas. Se for criticada por isso? Agradeço os conselhos e explico que aquela é a minha forma de educar e explico-a. Ir pelo confronto não dá bom resultado.

As birras são um aspecto desafiador para a parentalidade. Qual a melhor forma de lidar com elas?

Com técnicas e rotinas. Muitos pais referem a hora de ir deitar como a hora da birra, mas do que as crianças precisam é de rotinas porque os faz sentir seguros. Saber que aquela é a hora de brincar, que depois os pais avisam que é para ir lavar os dentes, depois ouvir uma história e ir para a cama dormir resulta. Se a criança está a brincar devemos temporizar, dizer que tem mais cinco minutos para continuar naquela actividade que lhe está a dar prazer porque a seguir têm que ir fazer outra coisa. Explicar, envolver. Não é chegar, agarrar a criança por um braço e dizer que já não pode brincar mais. Não vai entender e depois vem a birra porque cria o sentimento de frustração.

Vai-se sempre a tempo de iniciar a parentalidade positiva ou a partir de uma certa idade já não vale a pena?

Existem programas específicos para adolescentes nos quais se ensina aos pais a importância de mostrarem aos jovens que estão lá para eles, que os ouvem e que estão preocupados com os seus sentimentos. Mas também onde se ensina a estabelecer limites e se elogia. Os pais são desafiados a deixar bilhetes positivos em locais que só os filhos vêem. É importante que não se foquem apenas no negativo e sejam capazes de dar ênfase ao positivo. Se disser ao adolescente que se está sempre a portar mal a expectativa que este sente é que os pais já não esperam mais dele e então vai replicar esses comportamentos negativos. Por outro lado, se se elogiar uma nota baixa mas para a qual o filho se esforçou, numa próxima o jovem vai querer repetir o comportamento positivo do processo de estudo.

* Entrevista publicada pela primeira vez a 24/05/2023

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