Sociedade | 07-06-2023 21:00

António Gordo dormia com o gado bravo e continua campino depois dos 70

António Gordo dormia com o gado bravo e continua campino depois dos 70
Campino António Gordo recebeu, aos 73 anos, a sua primeira homenagem na Feira de Maio, em Azambuja

António Cruz Gordo começou a aprender a arte da campinagem antes de saber juntar as letras do alfabeto. Aos 73 anos foi o escolhido para ser homenageado na Feira de Maio, em Azambuja. Momento de protagonismo que contraria a rotineira e dura vida de trabalho no campo na qual não entra o pomposo colete encarnado.

António Cruz Gordo ainda não tinha ingressado na escola primária quando começou a ajudar o pai nos trabalhos do campo. O gosto em lidar com o gado bravo foi crescendo até que aos 13 anos ingressou na profissão que é símbolo da região ribatejana e que se vem finando, a pouco e pouco, nas últimas décadas. Campino toda a vida, tal como o seu pai, António Cruz Gordo foi, aos 73 anos, o homenageado da Feira de Maio, no domingo, 28 de Maio, em Azambuja.
É nestes dias festivos que os campinos têm os seus dias de glória assumindo o protagonismo de grande parte das festas do Ribatejo, nos concelhos onde predominam os campos da lezíria. De pampilho na mão, trajados com o típico colete encarnado e barrete verde, do alto das suas montadas, geralmente de raça lusitana, desfilam pelas ruas ao som de bandas filarmónicas e aplausos, demonstram a sua perícia na condução de jogos de cabrestos e recebem homenagens consoante os anos que somam de presença nas festas e, alguns, da vida dura que levam no campo.
“Tinha aí os meus 20 anos quando comecei a vir a esta Feira de Azambuja. Éramos mais aqui. Hoje contam-se uns 20 campinos que realmente o são”, atira o campino que continua no activo como encarregado de uma herdade dos herdeiros do Engenheiro Rui Gonçalves, onde também é guardador de uma manada de vacas mansas. Nunca antes homenageado, António Gordo fez-se acompanhar, no célebre domingo da feira que ao longo de cinco dias encheu de gente Azambuja, pela esposa, Leonilde Queimadelas, pela nora, pelo filho que “nunca quis montar a cavalo nem por brincadeira”, pelas netas, pelo filho que lhe seguiu as pisadas e pelos netos de 14 e 16 anos, que se deixaram cativar pela beleza da arte de conduzir o gado pelas lezírias fora e o acompanham nestes dias de festa, trajados e a cavalo.
Natural de Montemor-o-Novo, o trabalhador agrícola recorda a O MIRANTE os tempos em que a campinagem se fazia a pé e dormia com o gado no campo, tapado com junco porque não havia vedações. “Nessa altura trabalhava para o senhor João Capacho, de Coruche, que tinha uma ganadaria. Guardava entre 70 a 80 toiros, sempre com mais um campino. Nunca andava sozinho porque a qualquer momento os toiros brigavam uns com os outros e podia correr mal”, diz, orgulhoso de guardar no corpo apenas uma marca de uma marrada de uma jovem novilha brava que o feriu com “uma cornada” quando se preparava para lhe dar uma vacina. “Foram sete centímetros de profundidade. Tive que levar 12 pontos”, conta.
Em tempos chegou a passar longas temporadas em França para cuidar e preparar o gado para as corridas de toiros. “Da primeira vez que lá fui, há 25 anos, e saiu o primeiro toiro que criei até aos quatro anos senti-me mal e desmaiei”, recorda, vincando que quem trata “ganha muito amor aos animais”. Continua, todos os dias, a levantar-se às 05h30 e não regressa a casa antes de o trabalho se dar por cumprido, nem que o sol já se tenha posto. Mas, atira, “quem corre por gosto não cansa”.
Apesar de ser um apaixonado pela profissão diz não ter dúvidas que está em vias de extinção e que cada vez cativa menos os jovens que não estão dispostos a passar os dias no campo à chuva e ao sol. A juntar à dureza do trabalho, que não cativa, “há muita gente contra” as actividades tauromáquicas intrinsecamente ligadas à criação do toiro bravo. “O meu dever é respeitar essas pessoas que são contra picar ou correr um toiro. Não temos que ter todos o mesmo gosto. Mas daqui a uns anos, se calhar já não andarei por cá, isto acaba mesmo”, lamenta.
Na cerimónia de homenagem da centenária Feira de Maio, antes dos comovidos cumprimentos que António Gordo recebeu dos colegas de profissão, foi ainda entregue o Pampilho de Honra, gravado com o nome do antigo campino José Carlos Semeador, ao campino Rui Moura.

Tertúlia Irmandade do Barril é representativa do espírito festivo com que se vive a Feira de Maio em Azambuja

Tertúlias são a alma da festa mas arranjar um espaço é cada vez mais difícil

De 25 a 30 de Maio miúdos e graúdos encheram as ruas do centro da vila de Azambuja para viver a centenária Feira de Maio. As tertúlias, que por estes dias dão vida às lojas e habitações desocupadas, são uma parte importante da festa que tem como uma das atracções principais as largadas de toiros. É no meio da manga onde os animais bravos são largados para contentamento dos aficionados que encontramos Roberto Moleirinho e mais alguns elementos da tertúlia Irmandade do Barril.
Este ano, pela primeira vez, não conseguiram arrendar um espaço para se instalar, conviver e receber os visitantes da feira porque as casas vão sendo remodeladas, compradas ou arrendadas durante todo o ano, o que dificulta a vida aos tertulianos que por estes dias estavam acostumados a ter facilidade em encontrar um poiso para se instalar, explica a O MIRANTE o responsável pela tertúlia fundada há 25 anos em Azambuja. Apesar do imprevisto, assegura Roberto Moleirinho, pendurados nos “paus das tronqueiras” e entrando noutras tertúlias que “estão sempre de portas abertas” a Feira é vivida pela Irmandade do Barril com a mesma intensidade.

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