Sociedade | 05-07-2023 12:00

Manuel Bernardes é mecânico de bicicletas há sete décadas em Vila Chã de Ourique

Manuel Bernardes é mecânico de bicicletas há sete décadas em Vila Chã de Ourique
Manuel Bernardes e o neto João Martins na histórica oficina em Vila Chã de Ourique que abriu portas há 70 anos

Manuel Bernardes é o mecânico de bicicletas mais famoso do concelho do Cartaxo e um dos últimos a ter uma oficina tradicional. O número 62 da Rua Mariano de Carvalho, em Vila Chã de Ourique, nunca fechou para férias em 70 anos. Aos 93 anos ainda vai à oficina para dar uma mãozinha e ajudar o neto que segue o seu legado com orgulho.

A oficina de Manuel Bernardes tem mais de sete décadas de actividade ininterrupta e é uma das casas mais reconhecidas no concelho do Cartaxo na reparação e manutenção de bicicletas. No número 62 da Rua Mariano de Carvalho, em Vila Chã de Ourique, está uma das últimas oficinas tradicionais do concelho que, embora o edifício possa passar despercebido à primeira vista, carrega uma história rica por onde entraram algumas das grandes figuras do ciclismo nacional.
Manuel Bernardes, 93 anos, explica a O MIRANTE que pediu ao pai para aprender o ofício aos 14 anos com o mestre José Marquez, falecido pentacampeão de ciclismo em Portugal, natural de Vila Chã de Ourique, terra onde decidiu abrir a sua oficina no pós-carreira. A infância de Manuel Bernardes foi semelhante à de muitos outros; fez a escola até à antiga quarta classe e foi trabalhar para o campo. A 1 de Janeiro de 1953, acabado de sair da tropa, estabeleceu-se em Vila Chã de Ourique e passou a ser uma figura conhecida pela paixão e dedicação às bicicletas. Até aos dias de hoje Manuel Bernardes nunca fechou para férias, nem mesmo quando tinha um emprego paralelo: “nas férias dizia à minha mulher para ir com as nossas filhas à praia. Eu ficava a trabalhar. São os sacrifícios que temos de fazer para sustentar uma família”, afirma.
O negócio correu quase sempre bem, mas o mestre recorda a década de 60 quando a oficina esteve perto de fechar devido à falta de clientela. Com duas filhas a estudar e a casa para pagar, arranjou trabalho como soldador na Ford para conseguir suportar os custos de ter a porta da oficina aberta e sem clientes. O sacrifício durou cerca de 14 anos. “Sempre me dei bem com a minha mulher. Quando estava na Ford ela apontava os recados de manhã e quando eu vinha à noite ia arranjar as bicicletas”, conta. O espaço tinha inicialmente um serviço de latoaria e dois empregados. Faziam-se regadores, funis, baldes, entre outros objectos, negócio que chegou ao fim com o aparecimento do plástico. “Fui o último latoeiro aqui da zona”, afirma orgulhoso.

A continuação do legado
Manuel Bernardes quebrou a rotina de décadas em que trabalhou todos os dias das oito da manhã às dez da noite. “Custa estar em casa sozinho a ver televisão e a dormir. Quando estou mais triste agarro na bicicleta e venho para a oficina”, conta.
Manuel Bernardes entregou o negócio ao neto, João Martins, durante a pandemia. Aos 41 anos afirma que cresceu na oficina e não pensou duas vezes quando o avô lhe deu a oportunidade de continuar com aquela que é “provavelmente uma das oficinas mais antigas do país”. Embora só esteja disponível nas folgas do trabalho que tem a tempo inteiro. Daqui para a frente, João Martins diz que quer fazer obras na oficina e frequentar formações sobre bicicletas eléctricas. O avô continua a ser muito importante para o negócio, refere. “Toda a gente que passa pergunta pelo ‘Manel’, que agora faz mais o papel de amigo e conselheiro dos clientes”, explica. João Martins defende que a bicicleta é “o transporte do passado, do presente e do futuro” e um meio que tem impacto positivo na saúde e no ambiente. A nova ciclovia, na Rua Serpa Pinto, no Cartaxo, é uma intervenção que trouxe benefícios para o concelho, refere. João Martins e Manuel Bernardes têm procurado juntar-se às entidades para promover a utilização da bicicleta e do cicloturismo.

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