Sociedade | 06-07-2023 18:00

Saúde pública tem secundarizado doenças psiquiátricas

Saúde pública tem secundarizado doenças psiquiátricas
José António Salgado é um psiquiatra conceituado que decidiu tentar a sua sorte na música

Após mais de 30 anos de carreira como psiquiatra José António Salgado deu asas à ambição antiga de divulgar as suas músicas. Em entrevista a O MIRANTE afirma que as doenças psiquiátricas continuam a ser desvalorizadas e que as camas dos hospitais em psiquiatria continuam a ser insuficientes.

Em Julho de 2022 havia 12.415 utentes adultos a aguardar a primeira consulta de psiquiatria e em Janeiro deste ano apontava-se uma média de 97 dias de espera para um doente muito prioritário. Que desafios enfrenta esta área para se chegar a estes números? Ao nível de saúde pública as doenças psiquiátricas têm sido secundarizadas, desvalorizadas até. Não há doenças físicas nem psíquicas, tudo o que são doenças ditas físicas têm implicações no nosso funcionamento. Uma depressão é tão biológica como uma diabetes. Dou como exemplo: uma mulher deprimida que esteja grávida tem um risco muito maior de ter um aborto espontâneo. E isto podia-se multiplicar por muitas situações, é uma questão de saúde pública. Dados epidemiológicos em Portugal mostram que mais de 20% das pessoas ao longo da vida vão ter uma doença psiquiátrica com algum significado e isso é um número bastante elevado. Além disso, a psiquiatria é pouco aliciante em termos económicos para os hospitais porque a demora do internamento é maior, o que faz com que uma cama psiquiátrica seja menos rentável do que noutras especialidades. Isso leva também à falta de recursos humanos.
Quando se fala em psiquiatria da infância e adolescência haver tempos de espera longos é ainda mais preocupante? É mais preocupante e a falta de recursos humanos é ainda maior. No serviço que dirijo notamos que a detecção precoce é algo que não é actuado e, como sabemos, em qualquer doença quanto mais cedo for a intervenção melhor será o prognóstico. A duração média da psicose não tratada anda pelos dois anos e haverá quem ande cinco ou seis sem ser tratado, com a doença em evolução. Era essencial que houvesse mais psicólogos nas escolas e centros de saúde para ajudar à detecção precoce.
O local de trabalho também carece de mais atenção nesta área? Sim, até porque as questões do burnout são muito visíveis em muitas das pessoas que chegam às consultas. A forma como esta questão não é cuidada em muitas empresas é determinante para o adoecer das pessoas. Depois, a medicina do trabalho raramente se preocupa com questões de saúde mental, geralmente não são feitas perguntas sobre esse tema mesmo em profissões onde a pressão é muito forte.

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