Sociedade | 02-08-2023 21:00

Artesão de Alcanena já construiu mais de uma centena de casas em miniatura

Artesão de Alcanena já construiu mais de uma centena de casas em miniatura
Rui Louro é um artesão que não gosta de vender a sua arte, que prefere oferecer a amigos e familiares

Rui Louro, 70 anos, faz do artesanato um modo de estar na vida, depois de se ter reformado da profissão de pedreiro. Natural de Alcanena, afirma que o concelho está estagnado e que há pouco interesse do poder local em promover a cultura.

Rui Louro, reformado da profissão de pedreiro, começou a fazer réplicas de barcos reais com caixas de madeira da fruta que levava para casa há cerca de duas décadas. Mais tarde, por curiosidade, decidiu testar o que aplicava em grande escala em miniaturas, começando a fazer “casitas de pedra”, como gosta de lhes chamar. Natural do concelho de Alcanena, explica a O MIRANTE que não replica casas através de fotografias e nunca faz duas peças iguais. Começa tudo com uma base de madeira onde idealiza o espaço que vai construir, define medidas e inicia assim o trabalho.
O artesão esclarece que a recolha de materiais, assim como todo o processo de trabalho, é detalhada e minuciosa. Usa pedra calcária que o próprio recolhe na Serra de Santo António, cana do rio, madeira de oliveira e madeiras brancas de carpintaria, fornecidas por amigos carpinteiros e barro de olaria. Acredita que o gosto pelo artesanato e pelos trabalhos manuais vem de família, uma vez que o avô materno fazia muitas peças de artesanato relacionadas com o trabalho agrícola, como enxadas e carroças, e que os tios também se dedicavam ao ofício, nomeadamente realizando trabalhos de serralharia à escala e tecelagem. Rui Louro diz que o período que mais gosta de trabalhar é entre Outubro e Maio. “Um dos maiores prazeres que tenho é estar a fazer as casas e ouvir chover no quintal”, conta com um sorriso, acrescentando que todo o processo vem da sua imaginação e que chega a estar mais de oito horas dedicado à arte.
Tem mais de uma centena de obras feitas, sendo que cerca de 80 se mantém em sua casa. As restantes ofereceu-as a amigos e familiares. A casita que mais gosta está electrificada e mobilada no interior; chama-lhe “Quinta do Guilherme”. Há uma outra que se destaca por ter animais no exterior, a “Casa da Maria”, nomes em homenagem aos seus netos mais novos. “Gosto de oferecer os meus trabalhos a amigos e familiares porque sei que os vão estimar. Se vendesse sentiria que estavam a tirar algo de mim”, sublinha. Questionado sobre o valor das suas obras, Rui Louro defende que reflectem a sua personalidade, uma pessoa que se diz simples, com gosto pela cultura e tudo o que seja nacional. “Gostava de doar o meu trabalho a alguns municípios da região”, afirma. Sobre o artesanato, diz que é uma actividade que se tem vindo a perder com o tempo e que um dia vai acabar, uma vez que não há sangue novo a dar continuidade. Tem opinião bem formada sobre a falta de apoio que os municípios dão à cultura. “As câmaras não investem na cultura local. Não existe promoção cultural no concelho de Alcanena. A cultura é uma forma de trazer as memórias do passado para o presente”, vinca.

Alcanena é um concelho estagnado

Rui Louro considera que o concelho de Alcanena está “estagnado”. Com o desaparecimento de grande parte das indústrias de curtumes, afirma, nunca se arranjou uma alternativa e o concelho depende das poucas fábricas existentes e da base logística de uma grande superfície comercial que “acaba por ser uma tábua de salvação”. O artesão recorda o tempo em que havia muito movimento na cidade e muitas alternativas de comércio local. “Actualmente está tudo fechado e os poucos que se mantém mal se sustentam porque há cada vez menos gente nas ruas”, alerta. Sobre os maus cheiros recorrentes em Alcanena, provocados pela indústria dos curtumes, Rui Louro diz que o problema está mais controlado, mas ainda longe de estar resolvido. “Há zonas, como perto do estádio e do mercado municipal, em que a situação se verifica de forma recorrente e causa prejuízos, como o enferrujamento do ferro e alumínios, e a degradação dos estores das habitações”, lamenta.

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