Sociedade | 05-09-2023 15:00

Empresas poluidoras em Alcanena estragam imagem do sector dos curtumes

Empresas poluidoras em Alcanena estragam imagem do sector dos curtumes
O director-geral do CTIC - Centro Tecnológico da Indústria do Couro, Alcino Martinho, e o proprietário da Curtumes Fonte Velha, Joaquim Inácio

Os maus cheiros continuam a condicionar o estilo de vida da população de Alcanena, embora de forma mais moderada.

O director-geral do CTIC e o proprietário da fábrica Curtumes Fonte Velha defendem que as empresas de curtumes são as principais interessadas em que tudo funcione. Alcino Martinho e Joaquim Inácio defendem que a ETAR de Alcanena tem de funcionar a 100% rapidamente. A O MIRANTE afirmam que algumas empresas são poluidoras, estragam a imagem do sector e devem ser multadas sempre que transgridam.

As empresas da indústria do couro são as principais interessadas em que tudo funcione bem e têm investido bastante ao longo dos anos para evitar a poluição e os maus cheiros porque são elas que suportam o sistema ao pagar todos os meses valores muito altos. A explicação é dada a O MIRANTE por Alcino Martinho, director do CTIC – Centro Tecnológico da Indústria do Couro, - a propósito dos maus cheiros que continuam a aparecer no concelho de Alcanena, embora com menos regularidade. “As empresas querem que a Aquanena funcione bem o mais rápido possível para que possam chegar a mais clientes de topo. Existem algumas empresas, que são excepções, que estragam a imagem do sector. A Câmara de Alcanena e a empresa municipal Aquanena têm que actuar junto de quem não cumpre”, sublinha Alcino Martinho.
A mesma opinião tem o proprietário da Curtumes Fonte Velha, empresa que celebrou 90 anos recentemente. Joaquim Inácio diz a O MIRANTE que, no anterior mandato da Câmara de Alcanena, em que era presidente Fernanda Asseiceira, o município “geriu muito mal a situação dos maus cheiros. Colocou o foco dos maus cheiros em toda a indústria. A autarquia tinha o dever de identificar as situações ilegais e aplicar multas. Em vez disso colocou as culpas em todos mas não tomou medidas”, crítica, acrescentando que o município sabe, há vários anos, quem são as entidades poluidoras.
Alcino Martinho concorda que a autarquia e a empresa municipal devem actuar junto de quem não cumpre porque as outras empresas, cumpridoras, vão ser penalizadas por situações que não são elas que criam e que afecta a imagem do sector. O director-geral do CTIC esclarece que o sector tem tido uma evolução significativa nos padrões de qualidade nos últimos 15 anos, incluindo na capacidade de internacionalização das empresas. A maioria das unidades industriais tem feito investimentos de grande volume, num total de três milhões de euros no conjunto do sector, para cumprirem com os padrões impostos. “Muitas empresas trabalham com grandes marcas da moda, incluindo na área dos automóveis e aí os padrões são exigentes assim como os requisitos exigidos e para isso as nossas empresas têm que cumprir com todas as certificações. E é preciso ter licenças de cumprimento de várias regras para as marcas quererem trabalhar com as empresas”, justifica.
O problema, segundo Alcino Martinho, é que até agora a APA (Agência Portuguesa do Ambiente) tem passado licenças temporárias para que as empresas possam trabalhar com as grandes marcas. “A Aquanena tem feito investimentos de melhoria e afinação que fazem a diferença e quando a ETAR da empresa municipal estiver a funcionar dentro de todos os parâmetros vamos conseguir com que as empresas cumpram todos os requisitos. A ETAR cumpre quase com tudo, mas falta ali um ou outro detalhe que tem que ser melhorado”, realça, acrescentando que, actualmente, o sector dos curtumes exporta cerca de 40% da sua produção, por isso, Alcino Martinho, reafirma ser do maior interesse das unidades industriais cumprir todos os padrões exigidos.
Joaquim Inácio refere que os maus cheiros no concelho de Alcanena é um problema com cerca de 15 anos. Em 2014 foi recuperado o sistema de esgotos que ligavam as unidades industriais à ETAR o que foi, segundo o empresário, uma grande melhoria porque nessa altura havia efluentes que transbordavam para os campos. “A recuperação dos colectores foi uma melhoria inegável, mas não foi suficiente porque os odores continuaram. A origem era na ETAR e durante o percurso de efluentes de algumas unidades industriais”, explica. O proprietário dos Curtumes Fonte Velha lamenta que no final do anterior mandato da Câmara de Alcanena, o município tenha eleito a indústria dos curtumes como única fonte de poluição. “Não sei como estão as situações ilegais, mas suponho que continue tudo na mesma, com o conhecimento de todos”, criticou, acrescentando que a situação trouxe prejuízos à indústria dos curtumes. O aterro de lamas da ETAR de Alcanena é um foco de maus cheiros, afirma Joaquim Inácio. “Por isso a Aquanena está a fazer obras para minimizar os cheiros, o que é bem-vindo porque todas as acções correctivas são positivas”, sublinhou.

Indústria dos curtumes aposta em produtos biológicos

Alcino Martinho afirma que a indústria do couro tem feito pressão junto da Câmara de Alcanena e da empresa municipal Aquanena e tem havido um diálogo construtivo para que as situações se resolvam. “Existe espírito de cooperação, o que não existia no anterior mandato. Temos um problema em mãos que é de todos e todos o queremos resolver”, refere o director-geral do CTIC. O administrador diz que os maus cheiros afectam o concelho, que tem perdido população ao longo dos anos, em grande parte também por causa dessa situação”, garante. Alcino Martinho explica que no âmbito do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) se está a avançar com um projecto, na área do calçado, para produzir através de bio-couro. O administrador diz que o couro é biológico e se for devidamente processado e tratado tem impactos muito reduzidos. “As empresas estão a trabalhar na parte mais sustentável e ecológica com extracto de folha de oliveira ou de borra de café ou de vitivinicultura. Estamos a estudar soluções que sejam viáveis. O couro é sujeito a uma bateria de testes que têm que passar em especificações muito exigentes”, sublinha Alcino Martinho.

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