Sociedade | 06-09-2023 07:00

Joaquim Ferreira está há mais de sete décadas a cortar cabelos em Tomar

Joaquim Ferreira está há mais de sete décadas a cortar cabelos em Tomar
Salão de Cabeleireiro Ferreirinhas é um dos mais antigos da cidade de Tomar

O Salão Ferreirinhas tem as portas abertas no centro histórico de Tomar há cerca de 70 anos, quase tantos como tem de experiência o seu proprietário, Joaquim Ferreira, uma das figuras incontornáveis da história da cidade nabantina. Deixar as pessoas mais bonitas é uma das paixões que o cabeleireiro diz só querer deixar quando morrer.

São 18 horas de uma tarde quente de Agosto quando O MIRANTE encontra Joaquim Ferreira sentado à entrada do Salão de Cabeleireiro Ferreirinhas, na Rua Infantaria 15, em Tomar. O cabeleireiro, que também é proprietário do salão, olha desconfiado e depressa se apercebe que não é uma cliente habitual, embora receba a repórter com a mesma simpatia e delicadeza que o caracteriza. O salão é um ponto de encontro no centro histórico da cidade nabantina há sete décadas. Por ali passa gente de todos os feitios, de várias nacionalidades e idades; as conversas giram à volta do que é habitual num cabeleireiro tradicional: futebol, histórias de vida e conquistas amorosas; no entanto, há um tema que não entra por aquela porta: a política.
Aos 88 anos Joaquim Ferreira é, provavelmente, o último dos cabeleireiros tradicionais de Tomar. O seu estatuto fez com que o município o homenageasse, no Dia da Cidade, entregando-lhe a Medalha de Mérito Municipal. Começou a sua jornada há 74 anos, quando via trabalhar o seu amigo barbeiro do Carvalhal Pequeno, aldeia do concelho. Em jeito de brincadeira, o amigo passou-lhe a tesoura e uma máquina manual para as mãos e Joaquim Ferreira começou a aventurar-se no ofício; tinha 14 anos. A partir daí foi apurando a técnica com a repetição e, sobretudo, observando quem já percebia muito e tinha o talento natural para a profissão.
Após uma passagem pela tropa em Santarém, aos 18 anos, onde também exerceu a profissão, Joaquim trabalhou em cidades como Coimbra e Lisboa. No entanto, o seu coração trouxe-o de volta a Tomar onde, aos 22 anos, abriu o Salão Ferreirinhas. Ao longo das últimas sete décadas o salão tornou-se mais do que um espaço onde as pessoas vão para ficarem mais bonitas; transformou-se numa parte da história da cidade e muitas pessoas do concelho sabem onde fica. Joaquim Ferreira faz de tudo um pouco, e admite, sem falsas modéstias, que tem melhorado muito com a idade e que ainda tem tempo para aprender mais umas técnicas. É conhecido pela habilidade em realizar cortes, colorações, penteados e permanentes.
A chave para a longevidade do estabelecimento, refere, assenta na paixão que tem pela profissão e na ligação que tem aos seus clientes, quase todos “prata da casa”, embora muitos dos que o acompanharam nos primeiros tempos já tenham morrido.
O dia de Joaquim Ferreira começa às 08h30, quando chega ao salão depois de uma pequena viagem de carro. Durante o trabalho mete a conversa em dia e, no final, continua a conviver com amigos no café, em casa ou nas festas do concelho, onde também é conhecido pela sua habilidade de tocar acordeão e harmónica. A família é o seu porto de abrigo e tem sido muito importante na sua carreira profissional. Actualmente a sua esposa sofre com alguns problemas de saúde e Joaquim Ferreira tenta nunca faltar com as suas responsabilidades e ajuda-a para que tenha mais qualidade de vida. O cabeleireiro, que ao longo da conversa demonstrou ser bem-disposto por natureza, afirma que tem intacta a sua determinação em continuar a trabalhar. “Deixar de trabalhar era a morte do artista e, provavelmente, mandava-me para o cemitério mais cedo. Só quero parar de trabalhar quando tiver 150 anos”, termina, com um sorriso no rosto.

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