Sociedade | 24-10-2023 12:00

Alzira Bernardino trabalha no campo há 60 anos e ainda ajuda a fazer vinho em casa

Alzira Bernardino trabalha no campo há 60 anos e ainda ajuda a fazer vinho em casa
Alzira Bernardino falou com O MIRANTE, no campo, a propósito do Dia Internacional da Mulher Rural que se assinalou a 15 de Outubro

Alzira Bernardino começou a trabalhar no campo aos 12 anos para ajudar o pai. Natural de Olalhas, no concelho de Tomar, deixou de o fazer como profissão há uma década, mas continua a viver o mundo rural diariamente e nunca perde a época da apanha da azeitona e da vindima.

Alzira Bernardino tem 72 anos, dos quais 60 foram dedicados ao trabalho no campo. Nasceu na freguesia de Olhalas, em Tomar, onde continua a viver com muito orgulho, afirma a O MIRANTE. Diz que a vida na cidade é muito agitada e prefere viver na ruralidade, onde todos se conhecem e existe um espírito de entreajuda na “vizinhança”. Começou a trabalhar no campo aos 12 anos para ajudar o pai. Naquela altura, recorda, eram sobretudo as mulheres que trabalhavam no campo.
Quando ganhou autonomia para trabalhar sozinha, começou a juntar-se com outras mulheres para realizarem as mais variadas actividades agrícolas. “Chamávamos a esse processo, troca. Juntávamo-nos no início da semana e um dia íamos trabalhar num terreno, no dia seguinte já era noutro. Muitas vezes saía de casa à segunda-feira e só voltava para casa ao sábado. Acordávamos muito cedo e trabalhávamos até meio da tarde, mas também eram momentos de diversão porque nos juntávamos sempre depois de jantar e ficávamos a conversar e rir até à hora de ir dormir”, recorda. “Acordávamos muito cedo, pelas cinco ou seis da manhã, para evitar as horas de maior calor. O trabalho dependia da época, era o que houvesse. Fazia coisas mais simples como ceifar, cavar e desfolhar milho, mas também havia as épocas das vindimas e da apanha da azeitona para a produção de azeite. No dia-a-dia semeava frutas e legumes ou tomava conta do gado”, acrescenta.
Alzira Bernardino explica que a vida no campo é dura e que as famílias sobreviviam do cultivo de produtos alimentares e da criação de gado, que servia para consumo próprio e para venda, algo que se tem vindo a perder para as grandes superfícies comerciais, considera. Na sua opinião, não existem tarefas mais exigentes do que trabalhar ao sol e debaixo de temperaturas elevadas e, noutras ocasiões, muito frias. As mãos calejadas, que mostra com orgulho, são o reflexo de uma vida dura dedicada ao campo e que deixou mazelas que ainda hoje se fazem sentir. Alzira Bernardino tem fortes tremores num dos braços e coxeia da perna esquerda, mas nem isso a impede de começar os seus dias, pelas seis da manhã, com uma caminhada pelo campo.
Aproveita para fazer algumas tarefas, como cultivar e tomar conta do gado. Apesar das dificuldades, nunca perde a época da apanha da azeitona e da vindima, e ajuda o marido a fazer vinho caseiro. “Já não ando nas árvores como antigamente, mas ainda vou ajudando no que consigo, aqui e ali. Mesmo com a perna assim as coisas têm de ser feitas. Não podemos estar parados. Dá-me gosto e vou-me mantendo entretida. Além da caminhada matinal, tenho dois hábitos que são fundamentais: beber dois cafés por dia e dormir uma sesta depois de almoço, sem isso não consigo”, confessa entre risos.

“As pessoas já preferem comprar em vez cultivar”
Alzira Bernardino considera que há um decréscimo na população rural e que se vê cada vez menos gente a trabalhar nos campos. “Além das máquinas que fazem grande parte do trabalho, há um acesso muito mais fácil a todos os produtos. As pessoas preferem comprar em vez cultivar. Faltam apoios, mas sobretudo tempo para as pessoas trabalharem nos seus terrenos e terem vontade de cultivar os seus próprios produtos”, remata.

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