Sociedade | 31-10-2023 15:00

Feira de Doçaria de Abrantes para valorizar tradição e identidade de um território

Feira de Doçaria de Abrantes para valorizar tradição e identidade de um território
António Alves e a família produzem o seu mel e licores na aldeia das Bicas. Maria Madeira estreouse na arte da doçaria há duas décadas. Pedro António gere a Confeitaria Palha de Abrantes

Uns são profissionais da doçaria, outros encontraram nela um passatempo ou segundo emprego. Une-os a paixão pelo que fazem e a vontade de continuarem a dar forma e sabor às receitas perpetuadas ao longo de gerações. Na Feira Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes deram a provar as suas gulosas especialidades.

Na azáfama do primeiro dia da XXI Feira Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes, Maria Madeira atende, explica e serve aqueles que procuram adoçar o paladar na sua banca, onde há de tudo um pouco, desde as tradicionais broas e tigeladas ao red velvet enfeitado com frutos vermelhos e açúcar pilé. Mas nenhum é tão aclamado como o bolo de caramelo salgado, uma das suas especialidades que mais sucesso faz. Para que tudo ficasse no ponto ficaram para trás longas horas em volta dos tachos e do forno lá de casa. “Aqui é tudo caseiro, feito à moda antiga”, atira enquanto serve uma fatia de bolo de amêndoa com doce e fios de ovos.
Na sua montra também não falta a rainha da festa: a palha de Abrantes, um pequeno doce conventual em forma de ouriço feito com doce de ovos e cobertura de fios de ovos levemente tostados, cuja feitura requer muita dedicação e paciência. As receitas sabe-as todas de cor e continua a segui-las à risca por respeito à tradição e a quem lhas passou. Muitas, conta, herdou-as de Maria Amélia Carreiras, uma antiga doceira de Abrantes, já falecida, que sabendo do seu gosto pela doçaria lhe confiou os seus segredos de pasteleira.
Maria Madeira, 55 anos, estreou-se na arte da doçaria há duas décadas, mas só depois de ficar desempregada começou a levá-la mais a sério. Criou a sua marca, as Delícias d’Maria e começou a participar nas festas e feiras da cidade de Abrantes, de onde é natural e onde muitos a conhecem pelas suas mãos abençoadas para a doçaria. Actualmente trabalha num infantário, mas todos os dias, ao chegar a casa, põe o avental e as mãos na massa. “Acho que não há um dia que não faça, tenho encomendas. Faço-o por paixão, mas também por questões financeiras, como isto está é uma ajuda”, conta a abrantina que participa há 10 anos na Feira de Doçaria de Abrantes.
Este ano, o certame contou com 11 doceiros do concelho de Abrantes e 23 nacionais, nomeadamente dos Açores e da Madeira. Não faltaram as queijadas e travesseiros de Sintra, os doces de Arouca e os ovos-moles de Aveiro. A nível local, além das famosas tigeladas e palha de Abrantes houve novidades como os donuts e duchesse de palha de Abrantes, e a recriação das limas, um doce abrantino que tinha caído no esquecimento.
Ano após ano, durante os dias do certame, Pedro António, sócio-gerente da Confeitaria Palha de Abrantes, não tem mãos a medir. Os tabuleiros com o doce - que dá o nome à casa fundada em 1964 pelo seu pai, Daniel António - esgotam e são repostos num ápice. “A palha de Abrantes é o nosso ex-líbris. Somos os produtores mais antigos da cidade e a tradição mantém-se: fazemos tudo como antigamente sem adição de qualquer conservante, apenas com açúcar, gema e água”, explica, acrescentando que a casa que gere não trabalha nem nunca trabalhou com revenda “para não perder a sua identidade e qualidade superior” da doçaria tradicional.


“Trabalho com abelhas desde os 13 anos”
Além da doçaria houve ainda destaque para os licores e o mel produzidos de forma tradicional. É o caso do Mel da Aldeia, produzido na aldeia das Bicas, no concelho de Abrantes. “Este mel é unicamente feito pelas abelhas, não tem adição de mais nada. Temos o mais claro, com maior percentagem de rosmaninho, e o mais escuro que tem um sabor mais intenso”, explica o produtor, António Alves, que viu na Feira da Doçaria uma “boa oportunidade para promover o produto”.
Operador de máquinas, começou a levar a produção de mel “mais a sério há uns quatro ou cinco anos”, mas a sua relação com as abelhas é bem mais antiga. “Trabalho com abelhas desde os 13 anos. O meu pai tinha uns cortiços e comecei a aprender”. Nos dias de hoje, lamenta, é mais difícil a produção devido às pragas de varroa, um ácaro que infesta as colónias de abelhas e a presença cada vez mais assídua de vespas velutina e cabro, que embora seja nativa da Europa “está cada vez mais agressiva com as abelhas”.

Manuel Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes, destacou o potencial identitário da doçaria local

Doçaria é uma marca identitária de Abrantes

Para o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos, a Feira Nacional de Doçaria Tradicional é já uma marca no calendário anual do concelho, da região e do país. “A doçaria é mais do que uma simples mistura de ingredientes, é a manifestação da nossa história, cultura e identidade. Em Abrantes, este legado é preservado com muita dedicação, desde a nossa palha de Abrantes, a grande embaixadora da doçaria abrantina, assim como as tigeladas, as broas, os nossos licores, compotas, mel, entre muitas outras iguarias”, disse no acto inaugural do certame que decorreu até domingo, 22 de Outubro.

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