Controlar uso de tecnologias para não perder competências sociais
A esmagadora maioria dos jovens é utilizadora de Internet sendo que a rede social Instragram é a mais utilizada pelos jovens portugueses.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, crianças até três anos não devem ter contacto com um ecrã digital, o que não acontece em muitas casas portuguesas. Jogos online são cada vez mais perigosos e é fundamental os pais acompanharem a vida online dos seus filhos. Dinheiro está cada vez mais presente nos videojogos. Dependência de jogos online foi debatida em Salvaterra de Magos.
Quem está mais tempo online está a perder competências sociais fundamentais para o desenvolvimento do ser humano como socialização e empatia. As palavras são da psicóloga clínica e investigadora, Ivone Patrão, que participou no seminário “Dependências: novos desafios”, no dia 25 de Outubro, integrado na 7ª edição das Jornadas da Saúde, Social e da Educação, que decorreu em Salvaterra de Magos de 13 a 28 de Outubro.
Ivone Patrão afirmou que 97% dos jovens são utilizadores de Internet sendo que a rede social Instagram é a mais utilizada pelos jovens portugueses. A psicóloga clínica abordou os perigos da Internet e da sua dependência. Segundo a Organização Mundial de Saúde, crianças até três anos não devem ter contacto com um ecrã digital. “As crianças não se vão conseguir desenvolver correctamente se estiverem ligadas aos ecrãs. A libertação de dopamina, que é considerada a hormona da felicidade, por nos deixar bem dispostos, é a causa continuada do desgaste das vias neuronais”, alerta.
A investigadora falou do perigo dos jogos online e defendeu ser muito importante os pais perceberem que tipo de jogos os filhos jogam na Internet e quem está a jogar com as crianças e jovens. “Acompanhei o caso de um jovem que foi padrinho do filho de um colega de jogo que vivia nos Estados Unidos da América. Ele queria viajar para junto desse colega, que considerava como amigo e família. É preocupante perceber que o contacto físico e presencial está a perder terreno para as amizades na Internet”, referiu.
Ivone Patrão alertou que muitos perfis são falsos. Um estudo, com uma amostra de 1.700 jovens portugueses, revela que muitos admitiram fazer cirurgia digital e apresentarem-se no mundo digital com uma aparência diferente. “É preciso muito cuidado porque podemos travar amizade com pessoas que pensamos serem da nossa geração e depois vão a encontros presenciais e podem encontrar predadores sexuais”, disse, acrescentando que 28% dos jovens já teve um encontro com pessoas que conheceram primeiro na Internet.
A investigadora também alertou para a necessidade dos pais terem o seu próprio equilíbrio no tempo que passam na Internet para poderem dar o exemplo aos filhos. Ivone Patrão diz ser urgente fazer um doseamento do tempo que se passa online e explicou o impacto que pode ter na saúde psicológica e física. 90% dos jovens adormece com tecnologia, 79% utiliza aparelhos móveis nas refeições em família, 58% dos jovens não pratica exercício físico sendo que quem passa mais tempo online pode ter problemas de obesidade ou anorexia. Além disso, a dependência online está ligada com alterações de humor, baixos níveis de empatia e alterações funcionais.
“Temos que saber controlar as tecnologias nas nossas vidas. Os jovens precisam de ter amigos online mas sobretudo offline. Têm que aprender a socializar, não podem ficar agarrados aos telemóveis nos intervalos da escola, por exemplo. Há quem deixe de comer de faca e garfo para continuar a jogar. Esta dependência é muito perigosa para todos porque quem passa mais tempo online depois deixa de saber conviver com as pessoas que estão ao seu lado”, concluiu Ivone Patrão.
Há jovens que usam dinheiro dos pais para alimentarem vício do jogo online
O vício de crianças e jovens em jogos online é um problema emergente potenciado pela procura de reconhecimento ou sentimento de pertença a um grupo. O alerta foi deixado pela psicóloga do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ), Sarha Menezes, que participou no seminário sobre vício de jogos durante as Jornadas da Saúde, Social e da Educação, que decorreu em Salvaterra de Magos. Sarha Menezes reforçou que a perturbação de jogo é validada, no plano científico, como uma patologia aditiva sem substância.
Segundo a psicóloga, o dinheiro está cada vez mais presente nos videojogos. Sarha Menezes contou que as crianças e jovens adultos fazem operações bancárias com os cartões dos pais havendo casos em que o vício é alimentado pelas apostas desportivas e em casinos. ”Pode parecer demasiado trabalho termos estes cuidados quando são adolescentes, mas é muito mais difícil quando são adultos”, deixa a reflexão. Por outro lado, defende que é preciso deixar as crianças ‘voarem’ e abdicar da segurança que dava tê-las fechadas no quarto em frente ao computador.
A psicóloga explica que o jogo passa de recreativo a abusivo quando há uma troca de prioridades e se negligencia o sono, a alimentação e a higiene. A irritabilidade também surge e parte da solução, defende, é entender que papel ocupa o jogo na vida das crianças e jovens. “As relações interpessoais têm um impacto directo no interesse pelo jogo”, argumenta, acrescentando que o “desligar do mundo” através dos videojogos é muitas vezes acompanhado de adição à pornografia e a algum tipo de drogas.
Sarha Menezes considera que o caminho a seguir é sempre o da negociação, dando à criança a possibilidade de dizer quanto tempo consegue estar longe do ecrã, não chantageando com a retirada de actividades no exterior e mantendo a sintonia entre quem dita as regras, de forma a que a criança não sinta que tem poder.


