Sociedade | 06-11-2023 18:00

Conservante vendido na Internet está a causar uma vaga de mortes silenciosas

Conservante vendido na Internet está a causar uma vaga de mortes silenciosas
Carlos Durão é médico em VFX e um dos investigadores nomeados para o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República

O alerta é deixado a O MIRANTE por Carlos Durão, médico em Vila Franca de Xira e co-autor de um estudo que acabou por levar à identificação de mais de uma centena de mortes em todo o mundo causadas por um conservante de venda livre, pelo menos oito deles em Portugal nos últimos três anos.

O investigador está a concorrer ao Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República.

Um composto químico usado como fertilizante e conservante de alimentos, sem cheiro nem cor e com aspecto cristalino semelhante ao sal, que é de venda livre ao público, está a ser responsável por uma epidemia de suicídios silenciosos em todo o mundo e também em Portugal. Está a ser vendido na Internet em formato de “kit suicídio” e a ser enviado para casa dos compradores por encomenda e sem qualquer controlo, alerta um estudo realizado por dois peritos forenses, Ricardo Dinis-Oliveira, professor e presidente da Associação Portuguesa de Ciências Forenses, e Carlos Durão, ortopedista no Hospital de Vila Franca de Xira e médico legista no Instituto de Medicina Legal.
Carlos Durão tem 44 anos, nasceu no Rio de Janeiro e é filho de pais portugueses naturais de Fafe. Chegou a Portugal para trabalhar no Hospital de Vila Franca de Xira, ainda no antigo Reynaldo dos Santos, e esteve entre os primeiros clínicos a inaugurar a Parceria Público-Privada naquela unidade de saúde. É um apaixonado pelas questões forenses e sempre dedicou a vida ao estudo da morte.
Há cinco anos, numa autópsia, os investigadores encontraram uma substância que fez soar alarmes. Um homem de 37 anos foi encontrado morto dentro do carro com uma caixa ao lado que continha o produto usado na indústria alimentar que, quando ingerido em doses elevadas, é letal por impedir a oxigenação dos tecidos e levar à morte por asfixia. A descoberta da venda da substância pela Internet, de forma livre e sem controlo, deixou Carlos Durão chocado.
“Conseguimos identificar a comercialização dessa substância através de um kit de suicídio vendido junto com outros medicamentos para que a pessoa não vomitasse e dormisse melhor, por exemplo. Disseminado pela Internet. É assustador”, alerta. Os investigadores logo que começaram a pesquisar pela substância nas autópsias perceberam que estavam perante uma epidemia silenciosa de suicídios. “Foi como jogar à batalha naval e acertar em cheio no porta aviões. Percebi logo que estávamos perante um fenómeno ainda não identificado em Portugal mas de grande dimensão e que não se limita à nossa região”, avisa. Desde então há registo de pelo menos oito casos em Portugal com vítimas, todos homens, entre os 17 e os 59 anos, mas pode haver muitos mais já que muitas autópsias ainda não procuram aquele químico. Carlos Durão não quis revelar em concreto quantos casos já identificou na região para não causar alarme social “mas a minha cara é de alarme”, confessa.

“Diferença entre um veneno e um remédio está na sua dose”
Através de um artigo publicado numa revista científica a comunidade mundial tomou nota do fenómeno e já foram entretanto identificados pelo menos uma centena de casos em todo o mundo e os números estão a crescer. Nas autópsias, recorde-se, não é possível investigar toda a gama de substâncias tóxicas. “O que estamos a ver é apenas a ponta do icebergue. Quantas mortes aparecem e essa substância não é pesquisada? Quem não sabe o que procura não interpreta o que acha. Se não estamos sensíveis para pesquisar essa substância podemos não a detectar. Alguns casos que foram interpretados como sendo morte natural podem não o ser. E isto passa-se no mundo inteiro”, alerta o especialista.
O objectivo de Carlos Durão é que este conservante deixe de ser de venda livre. “Ou pelo menos que possa existir algum controlo. Temos de consciencializar os médicos para identificar o uso dessa substância e depois bloquear ou diminuir essas vendas e olhar para as autópsias de outra maneira”, apela. O químico até é bem conhecido dos médicos, já que é usado para tratar intoxicações graves por cianetos. “A diferença entre um veneno e um remédio está na sua dose”, lembra Carlos Durão. O estudo da dupla de investigadores está na corrida ao Prémio Direitos Humanos deste ano promovido pela Assembleia da República juntamente com outros nove trabalhos de investigação.

Falar do suicídio sem tabus

Para Carlos Durão, a patologia mental nos tempos que correm precisa de muita atenção. “É um problema de saúde pública. O suicídio pode ser uma solução definitiva para um problema temporário. Não sofre só a vítima mas toda a família e amigos. Morrem juntos. Temos de meter o dedo na ferida. Não se combate o que se desconhece. É importante conhecer o fenómeno, estar atento e criar estratégias que o possam combater”, defende.
O médico não tem dúvidas que há no país um tabu sobre o suicídio e diz que enquanto isso acontecer se está a esconder o problema. “É como ter uma aranha na sala. Mete muito medo mas pior que ver a aranha é deixar de a ver. Só vamos combater o problema se soubermos como. Quem trabalha com saúde mental, pais e professores, têm de estar atentos a mudanças de comportamento para evitar o suicídio”, apela.

Vozes que ajudam

- SOS Voz Amiga: 213 544 545/912 802 669 (15h30 às 00h30);
- Vozes Amigas da Esperança: 222 030 707 (16h00 às 22h00);
- Conversa Amiga: 808 237 327/210 027 159 (15h00 às 22h00).

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