Sociedade | 12-11-2023 18:00

Um bom ordenado não chega para ter uma casa digna e ajudar a família

Um bom ordenado não chega para ter uma casa digna e ajudar a família
Jezueligton Silva confessa que ser de origem brasileira nem sempre ajuda na hora de procurar uma casa

Jezueligton Silva, 42 anos, está como muita gente na região ribatejana: com trabalho e sem capacidade para pagar as rendas e os meses de caução que muitos senhorios ainda pedem. Decidiu contar a sua história a O MIRANTE na esperança que alguém o possa ajudar.

Foi um “golpe de coragem” que fez em 2008 Jezueligton Silva atravessar o Atlântico para arriscar a vida no Reino Unido. Acabou por se apaixonar por Portugal no caminho e estabeleceu-se em Vila Franca de Xira. Natural de Minas Gerais, no Brasil, o camionista de 42 anos está numa situação peculiar que afecta cada vez mais gente na região ribatejana: trabalha como motorista de pesados a abastecer uma cadeia de supermercados e levanta-se todos os dias pelas quatro da manhã, tem um salário a rondar os 1.600 euros mas mesmo esse valor é curto para ajudar o filho, a família e pagar as rendas elevadas que se estão a pedir no concelho, onde se inclui a exigência dos senhorios de dar três a seis meses de caução pelo aluguer dos imóveis. “O que tenho encontrado em Vila Franca de Xira é tudo 700/800 euros por mês, mais cauções de vários meses o que é incomportável”, lamenta. Por exemplo, numa renda de 800 euros, uma caução mínima de seis meses faz disparar o valor de entrada na casa para 4.800 euros. “É um paradoxo”, lamenta a O MIRANTE Jezueligton Silva, admitindo que ser brasileiro também não ajuda na hora de procurar casa. Diz ter sofrido com todas as crises financeiras desde 2008 mas que nenhuma foi tão aflitiva como a actual. “Vejo Portugal como um pai que tem uma carrada de filhos mas mesmo com dificuldades conseguiu adoptar-me e temos sofrido juntos”, lamenta o homem que toca guitarra e adora ler tendo prateleiras cheias de livros de, entre outros, Alexandre Herculano, Mário Cordeiro ou Aquilino Ribeiro.
Jezueligton Silva viveu oito meses num quarto no centro de VFX onde pagava a renda, numa casa para onde a Segurança Social enviava quem não tinha abrigo. “Vi coisas horríveis. Um senhor de 57 anos, com pé diabético, a Segurança Social pagou 160 euros para a dona da casa o meter dentro de uma dispensa, perto do esquentador, horrível”, recorda. Foi nesse momento, em Setembro do ano passado, que conheceu uma pessoa que tinha uma casa da câmara atribuída, no bairro de Povos e que o convidou a viver com ele. Agora, passado pouco mais de um ano, Jezueligton Silva recebeu uma carta da câmara a dar-lhe 30 dias para abandonar a casa por ocupação ilegal. “Tenho de sair até 15 de Novembro e não consigo encontrar casa, só gostava que a câmara me ajudasse a encontrar uma casa”, apela. Vai inscrever-se no programa municipal de atribuição de fracções sociais mas não se sabe ainda quando abrirá concurso.

Alguma casa livre?
Jezueligton Silva decidiu contar a sua história a O MIRANTE na esperança que alguém possa ter uma habitação condigna onde possa morar e pagar renda, desde que acessível e sem cauções elevadas. “Não vivo de apoios e trabalho no duro. Sou uma vítima do estado das coisas e de não haver casas”, lamenta. Jezueligton Silva está disponível para mudar de concelho, admitindo ir viver para Alenquer, Benavente ou para a cidade de Samora Correia, caso apareça alguma habitação livre. Voltar ao Brasil não está em cima da mesa. Para Jezueligton Silva o actual problema da falta de habitação é um “crime com a chancela do Estado”, dizendo que toda a gente merece ter uma casa condigna.
Contactada por O MIRANTE, a Câmara de Vila Franca de Xira confirma que Jezueligton Silva não é o arrendatário da fracção onde está a viver, em Povos, habitando no apartamento sem autorização. “Nesse sentido foi oficiado para abandonar a habitação”, confirma a câmara, prometendo em caso de despejo coercivo efectuar o encaminhamento prévio de Jezueligton Silva para alternativas e apoios habitacionais de acordo com a lei em vigor.

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