Sociedade | 10-12-2023 10:00

Integração de jovens com autismo ainda encontra muitas barreiras

Integração de jovens com autismo ainda encontra muitas barreiras
Parte da equipa da Inovar Autismo que organizou o quinto seminário sobre autismo que decorreu no auditório da Escola Superior de Educação de Santarém

No quinto seminário da Inovar Autismo, que decorreu na Escola Superior de Educação de Santarém, debateu-se a igualdade de oportunidades para pessoas com autismo. Pais de filhos autistas explicam que a sociedade ainda não está preparada para integrar jovens com qualquer tipo de incapacidade intelectual. Professora admite que ainda há muito caminho a percorrer nas escolas portuguesas.

O filho de João Veiga foi alvo de dois processos judiciários por agressão a docentes. Os comportamentos agressivos de Manuel, de 19 anos, deveram-se a uma descompensação pelo facto de ser autista. Num dos casos não foi a julgamento por ser menor. No outro caso, cuja decisão foi conhecida há cerca de duas semanas, a juiz absolveu o jovem do cometimento de qualquer crime. “O nosso sistema judicial achou normal levar um jovem com autismo para um processo judicial porque a professora considerou agressão aquilo que foi uma descompensação”, afirmou João Veiga.
Este foi um dos depoimentos de um pai com um filho autista durante o quinto seminário Inovar Autismo, nome da associação de cidadania e inclusão para pessoas com autismo. O seminário decorreu na quinta-feira, 30 de Novembro, no auditório da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém.
Lídia Venâncio, da Portela das Padeiras, Santarém, é mãe de três filhos sendo que o mais novo, Diogo, de 24 anos, foi diagnosticado com autismo. A enfermeira referiu que o período mais difícil para o filho foi durante o pré-escolar quando as educadoras o colocavam de castigo. Numa das vezes Diogo ficou sem lanchar junto de todos os colegas que estavam a comer. “Houve mais episódios mas o que me magoou mais foi as funcionárias dizerem que o problema do meu filho era falta de atenção dos pais. Meti baixa e estive três meses a cuidar do meu filho, até que fui ao médico e percebi que falta de amor dos pais ele não tinha. Digo sempre que quando os pais estranharem algum comportamento devem procurar um diagnóstico. Se o meu filho tivesse sido diagnosticado mais cedo talvez não tivesse havido tanto sofrimento”, reflecte.
Lídia Venâncio conta com orgulho que Diogo frequenta o terceiro ano do curso de Programação e Multimédia em Educação, no Politécnico de Santarém, depois de ter concluído o curso profissional de Artes nas Caldas da Rainha. A família tem o apoio de um assistente pessoal que, segundo a mãe, melhorou muito a qualidade de vida de todos mas sobretudo do filho. “Estava reticente quando aceitei este projecto mas o assistente pessoal foi o melhor que poderia ter acontecido. O Diogo está mais confiante, toma as decisões sozinhos. O José Luís, que é o nosso assistente pessoal, dá-me dicas de como lidar com o meu filho e aprendi a esperar até ele tomar uma decisão em vez de eu decidir por ele, como acontecia muitas vezes. São pequenos detalhes que fazem toda a diferença”, confessa.

Pessoas com deficiência são as mais excluídas da sociedade
Pessoas com deficiência são as mais excluídas de todos os excluídos da sociedade e por isso são as mais vulneráveis à pobreza. O alerta foi deixado pelo professor investigador José Miguel Nogueira, do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, durante o mesmo seminário. O docente explica que a sociedade não está preparada para incluir no mercado de trabalho jovens com incapacidade intelectual nomeadamente autismo.
Actualmente, apenas 0,9% dos alunos com deficiência frequentam a universidade e muitos não saem diplomados. “Tudo isto acontece porque existem barreiras na sociedade que ainda persistem. Um jovem com deficiência precisa de casa, carro e família como todas as pessoas. Temos que reflectir enquanto sociedade para que as pessoas com deficiência tenham uma vida igual à das pessoas que não têm qualquer tipo de deficiência”, sublinhou José Miguel Nogueira.

Têm aumentado os casos de autismo
Opinião semelhante tem Olga Antunes, directora do Agrupamento de Escolas de Constância. A responsável realça que nem todos os professores sabem trabalhar de forma a incluir alunos com necessidades especiais. “Tenho 40 anos de serviço e ter a oportunidade de ajudar quem precisa é um privilégio. Infelizmente, nem todos os professores são assim. Muitos querem que os alunos fiquem sossegados durante as suas aulas porque há muita matéria escolar para dar mas não pode ser sempre assim”, afirma.
“Todos fomos ensinados a ser docentes de alunos sem problemas. Nos últimos anos têm aumentado os casos de autismo e é algo que me preocupa. Temos que saber incluí-los na sala de aula”, destaca Olga Antunes, acrescentando: “Temos imensos alunos com necessidades especiais que ficaram a trabalhar nas empresas onde estagiaram e isso é muito importante e gratificante”.

Inovar Autismo quer sociedade igual para todos

A psicóloga e elemento da Inovar Autismo, Maria Inês Gambóias, esclarece que a associação aposta muito na capacitação da comunidade e a interacção com pessoas com autismo. “Aos poucos vamos conseguindo que exista uma maior abertura da sociedade para as pessoas com autismo. É através da capacitação que vamos deixando a semente da inclusão”, refere a psicóloga.
A Inovar Autismo foi fundada em 2016 por 34 sócios, entre os quais pessoas com e sem autismo e seus familiares. Actualmente conta com mais de 200 sócios e a história da associação continua em permanente construção. Dela fazem parte todos os que acreditam numa sociedade mais equitativa e justa e que também acreditam que a inclusão não é uma utopia, mas um desígnio alcançável. Esta visão implica “abrir as portas à sociedade”, apostar em respostas inovadoras, em actividades e eventos para pessoas com e sem deficiência evitando a segregação e promovendo a inclusão.

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