Sociedade | 28-01-2024 15:00

Fetiche: quando o prazer sexual é refém da adoração de um objecto ou parte do corpo

Fetiche: quando o prazer sexual é refém da adoração de um objecto ou parte do corpo
Grupo de amigos concordam que comprar brinquedos sexuais ou ter um fetiche pode ser uma forma de fugir à monotonia numa relação

Fantasiar na cama pode apimentar a relação e ajudar a quebrar a rotina. Mas quando o prazer sexual passa a depender exclusivamente da adoração de objectos ou partes do corpo já estamos no campo da perturbação sexual, alerta a psicóloga Mónica Lopes. Uma conversa a propósito do Dia do Fetiche à qual juntamos testemunhos de quem não tem tabus e defende a comunicação aberta entre o casal.

O desejo sexual não é algo que ocorra sempre de forma espontânea, assim como homens e mulheres não estão sempre prontos para o sexo. Às vezes é preciso criar estímulos eróticos e dar asas à imaginação para que o desejo e excitação aconteçam. E, neste campo, “as fantasias - tudo o que desejamos ou fantasiamos na hora do sexo - podem ajudar a estimular ou melhorar a vida sexual de um casal. Fazem parte da imaginação e têm que estar integradas e consentidas na relação sexual do casal, mas não têm que estar sempre presentes”, refere a O MIRANTE Mónica Lopes, psicóloga clínica há 22 anos, acrescentando que a pornografia pode até ser “um refúgio à rotina sexual”, que também pode ser quebrada com recurso a adereços sexuais.
Deixando de lado tabus e preconceitos, que teimam em persistir na sociedade quando o tema está relacionado com sexo, Sofia Silva não esconde que visita lojas de brinquedos sexuais porque, como diz, não tem problema em procurar por aquilo em que lhe desperta interesse. “Esses objectos servem não só para apimentar, mas também para conhecermos o nosso corpo”, refere ao nosso jornal numa conversa a propósito do Dia Internacional do Fetiche, assinalado a 19 de Janeiro, e à qual se junta Cláudia Dias. Para esta mulher, de 35 anos, o fetiche é encarado como uma forma de fugir à monotonia. “Temos que respeitar também e ceder às coisas que o nosso parceiro ou parceira gosta”, afirma, sublinhando que entre casais deve haver uma partilha aberta sobre o que dá mais prazer a cada um.
Mas falar sobre sexualidade e o que mais satisfaz no sexo ainda é tabu entre homens e mulheres e entre diferentes gerações. “Infelizmente, ainda somos uma sociedade estereotipada e preconceituosa. Deve-se falar abertamente sobre o assunto. Apesar da sociedade estar mais evoluída, na forma como lida com as questões da sexualidade humana, ainda falta muito para que haja igualdade e aceitação das distintas identidades de género. Temos dificuldade em aceitar a diversidade sexual, quer por falta de conhecimento quer por preconceito”, diz a psicóloga clínica, que dá consultas na A.S. Clínica, em Santarém.
Embora considere que as fantasias sexuais podem ajudar a quebrar a rotina sexual, Mónica Lopes alerta que, no caso dos fetiches, por se tratarem de uma “fixação num objecto ou num acto que é necessário para a excitação e gratificação sexual”, são considerados perturbações sexuais que podem ser prejudiciais ao comportamento humano. “Quem sofre de uma perturbação sexual tem uma orientação sexual não saudável, tem fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais intensos e recorrentes referentes a situações incomuns ou objectos”, que podem ser sapatos, cintos de ligas, lenços, cordas ou uma parte do corpo, por exemplo pé, joelho ou cotovelo.

Fetiches descontrolados podem originar desvios sexuais graves
Fábio Coelho, estudante de 19 anos, confessa não ter nenhum fetiche, mas entende que o mesmo pode ou não ser saudável para uma relação, caso implique, por exemplo, infligir dor ao parceiro. É por isso fundamental, defende, que haja comunicação aberta entre o casal de forma que ambos estejam de acordo e em sintonia com o que é e não é aceitável no sexo. Até porque há bandeiras vermelhas às quais se deve estar atento e porque, alerta a psicóloga, fetiches descontrolados podem originar desvios sexuais graves, como a pedofilia.
“Para além do sofrimento resultante da desaprovação social, é necessário que a pessoa sinta angústia pessoal, o seu sofrimento provoque sofrimento ou dano a outrem ou ainda a prática sexual sem o consentimento da mesma”, diz Mónica Lopes. Mas para haver um diagnóstico, ressalva a psicóloga, estas fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais atípicos precisam de ser recorrentes, de persistir há pelo menos seis meses e têm de causar sofrimento pessoal ou disfunção a nível social.
Questionada sobre se a pornografia torna as pessoas violentas, Mónica Lopes afirma que essa questão pode gerar alguma controvérsia porque a pornografia pode ser, simplesmente, uma forma de fugir ao que é rotineiro ou, se quisermos, “um espaço onde expressamos fantasias e desejos pessoais”. E isso, ressalva, “não torna as pessoas necessariamente violentas”.

Fábio Coelho defende ser fundamental existir comunicação entre casais

Comunicação e individualidade na relação são fundamentais para um vínculo forte

A psicóloga clínica defende que as principais causas para o afastamento de um casal são, por exemplo, dificuldades financeiras; dificuldades ao nível da comunicação; desinvestimento no relacionamento conjugal; relacionamento extra-conjugal; desinvestimento ou não gratificação na relação sexual; dificuldades na educação e comportamento dos filhos ou conflitos familiares. “A comunicação é a chave para a construção de um vínculo forte e duradouro entre o casal. Além disso, cada elemento do casal deve ter tempo para si próprio e tempo enquanto casal. Isto é fundamental para que o relacionamento seja saudável”, explica Mónica Lopes, acrescentando que quando a relação não está bem é importante reconhecer e recorrer a consultas de terapia de casal que podem ajudar a ultrapassar os problemas.

Mónica Lopes, psicóloga clínica na A.S. Clínica, em Santarém

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