Sociedade | 12-02-2024 12:00

O estranho caso da associação Companheiros da Noite

O estranho caso da associação Companheiros da Noite
Associação Companheiros da Noite, da Póvoa de Santa Iria, que chegou a distribuir alimentos aos sem-abrigo duas vezes por semana vive, actualmente, momentos complicados e não se lhe conhece actividade

A associação Companheiros da Noite, da Póvoa de Santa Iria, já foi uma referência na área do apoio social mas actualmente vive momentos complicados e não se lhe conhece actividade. Os dirigentes refugiam-se no silêncio e vários sócios dizem que não foram convocados para participar na recente assembleia-geral, por videoconferência, para eleição de novos órgãos sociais e apresentação de contas.

Após vários anos sem apresentar contas a associação Companheiros da Noite, da Póvoa de Santa Iria, realizou uma assembleia-geral por videoconferência que está a gerar polémica porque alguns sócios dizem não ter sido convocados nem sabiam como aderir à reunião. Recorde-se que vários sócios queriam saber o ponto de situação dos quase 20 mil euros que estavam no banco e o que aconteceu ao património da associação que, em tempos, chegou a receber apoios do município de Vila Franca de Xira.
A associação, criada com o intuito de prestar apoio aos sem-abrigo e carenciados do concelho de Vila Franca de Xira, publicou um edital a convocar eleições para os novos corpos sociais para 27 de Janeiro, às 20h30. Na mesma convocatória constava a apreciação e votação do relatório e contas, algo há muito reclamado por alguns sócios da instituição, mas ninguém sabe o que se passou na reunião, que terá ocorrido por “meios telemáticos”. Os associados não tiveram conhecimento dos candidatos aos novos órgãos sociais nem qual o resultado da alegada votação para a nova direcção.
No final do ano passado o presidente do conselho fiscal da associação, Vítor Domingos, disse a O MIRANTE que estava a ser preparada uma assembleia para prestação de contas. Devido a problemas de saúde o dirigente encontra-se arredado de qualquer actividade relacionada com a associação e remeteu explicações para o presidente.
O MIRANTE contactou por diversos meios o presidente dos Companheiros da Noite, Telmo Domingos, antes e depois da assembleia-geral, mas sempre sem resposta. E sem resposta ficou também da parte do presidente da mesa da assembleia-geral, Ricardo Marques, que havia dito antes da reunião que ia dar o recado ao presidente, não fazendo mais comentários ou prestando qualquer esclarecimento.
Vários sócios contactados por O MIRANTE confirmam não ter recebido qualquer convocatória para assembleia-geral nem a composição das listas, nem como a forma como podiam participar e votar.

Voto é secreto e presencial
A forma como a eleição para os órgãos sociais decorreu levanta dúvidas jurídicas, já que as eleições para órgãos associativos têm de ser feitas por voto secreto dos seus associados. “E tal não se garante por videoconferência, whatsapp ou por mensagens escritas. Se houve eleição de pessoas sem ter havido voto secreto o acto eleitoral é impugnável”, explica o advogado António Jorge Lopes.
A eleição de uma nova direcção implica a existência de uma acta a dizer quem é que foi eleito e o número de votantes e tem de ser assinada pelo presidente da assembleia-geral. O MIRANTE solicitou o envio da acta a Ricardo Marques mas sem resposta. Segundo António Jorge Lopes, também as actas são alvo de impugnação jurídica.
A situação só veio avolumar ainda mais as preocupações dos sócios, incluindo João Tremoço, um dos rostos mais visíveis dos Companheiros da Noite. “Como dirigente da associação durante nove anos e voluntário 12 anos, estou preocupado com o rumo dos Companheiros da Noite. Existiam ao serviço cerca de 60 voluntários distribuídos por várias tarefas, desde preparação de alimentos, vestuário, apoio na rua e eventos. Preocupa-me as pessoas que ajudávamos e os bens que deixamos”, conta. João Tremoço sublinha ainda que não consegue pagar as quotas de associado porque não sabe sequer como e a quem o pode fazer.
A presidente da União de Freguesias da Póvoa de Santa Iria e Forte da Casa, Ana Cristina Pereira, disse desconhecer o ponto de situação da instituição, mas que “ia procurar conseguir ter informação”. Até ao fecho desta edição ainda sem novidades.
O MIRANTE sabe que a Câmara Municipal de Vila Franca não consegue entrar em contacto com os dirigentes da associação e está a preparar-se para fazer um ultimato para que provem que mantêm actividade. Além disso têm a seu cargo um espaço municipal na Póvoa de Santa Iria que não estará, alegadamente, a ser usado e que poderá servir outras instituições que também precisam dele.

À margem – opinião

Transparência precisa-se

É difícil perceber como é que uma associação com a importância dos Companheiros da Noite está actualmente na situação de vazio em que está. Sem resposta. Sem um rosto que explique à população o que se passa. População essa que doou mobílias, roupa e alimentos para ajudar os sem abrigo e famílias carenciadas ao longo dos anos.
Para trás parece ficar o trabalho de dezenas de voluntários e dirigentes que dedicaram parte do seu tempo, e às vezes era mesmo muito tempo, para ajudar os que mais precisavam. Os Companheiros da Noite foram Personalidade do Ano, um reconhecimento atribuído pelo O MIRANTE, e agora é uma associação blindada à comunicação social e à comunidade.
Certamente que os dirigentes estão a dar o melhor para manter a instituição viva e certamente que o património da instituição não desapareceu e está seguro algures, mas o clima de silêncio que se vive na associação legítima a preocupação dos sócios. Aliás, faz questionar se não estamos perante um caso de polícia que eventualmente mereça investigação para serenar a comunidade e os autarcas locais.
Às dúvidas que já andavam no ar soma-se agora a questão da legalidade de como a assembleia-geral foi realizada. A bem do esclarecimento de toda a comunidade não custava nada aos dirigentes virem a público, explicar afinal como está a associação que foi um exemplo cívico em toda a região.

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