Sociedade | 18-02-2024 21:00

Lutar contra o cancro e ficar para contar a história

Lutar contra o cancro e ficar para contar a história
Sónia Lapa reaprendeu a viver após reincidência do cancro da mama. Família de Cecília Francisco tem risco genético elevado de contrair cancro

Na família de Cecília Francisco, da Chamusca, quatro mulheres tiveram cancro de mama. Carla, a mais nova a receber o diagnóstico, não sobreviveu.

Sónia Lapa, de Samora Correia, enfrentou duas vezes a doença que a obrigou a reaprender a viver com a nova imagem e as dores que ficam. Estas são duas mulheres que enfrentaram o cancro de mama e que partilham com O MIRANTE as suas histórias a propósito do Dia Mundial do Cancro.

Cecília Francisco foi sempre vigiada e fazia mamografia de seis em seis meses depois da sua irmã, três anos mais nova, ter sido diagnosticada com cancro de mama aos 38 anos. A partir daí começou a pensar que qualquer dia lhe calhava. E não se enganou. Aos 49 anos sentiu um pequeno nódulo na mama direita ao qual não deu importância e, apesar de sentir falta de força no braço, adiou a ida ao médico.
A mamografia de rotina veio, desta vez, com um diagnóstico diferente que foi difícil de aceitar: Cecília tinha cancro de mama. Encaminhada para o Instituto Português de Oncologia (IPO), onde lhe disseram que tinha de retirar as duas mamas, confessa a O MIRANTE que nesse dia, apesar de ser uma pessoa positiva, chorou muito. “Queixava-me porque tinha o peito grande e gostava que fosse mais pequeno mas ter que retirar tudo foi muito duro”, recorda com a voz embargada, numa conversa a propósito do Dia Mundial do Cancro, que se assinala a 4 de Fevereiro.
Seguiram-se tratamentos de quimioterapia e radioterapia, ao mesmo tempo que a sua irmã mais velha era diagnosticada com a mesma doença. Foram operadas com um mês de intervalo, mas os casos de cancro na família não se ficaram por aqui. Também a filha da irmã mais velha de Cecília, Carla, desenvolveu a doença, diagnosticada na sequência de uma queda. “Foi a minha sobrinha que incentivou a minha irmã a fazer exames tendo em conta o historial de cancro na família. Foram diagnosticadas com cancro de mama com poucos meses de diferença”, recorda. Os médicos acabaram por constatar, após vários exames, que a doença nesta família é genética.
O cancro que atingiu a sobrinha de Cecília Francisco já estava num estágio avançado quando foi detectado e metastizou para o cérebro. Realizou uma cirurgia delicada, que acabou por não ter sucesso, com Carla a falecer pouco tempo depois quando a sua mãe ainda estava a recuperar da doença. “Foram tempos muito difíceis. Eu e a minha irmã fizemos tratamentos ao mesmo tempo. Logo depois, a doença e morte da minha sobrinha aos 34 anos, que deixou dois filhos menores. Nem queria acreditar no que estava a acontecer”, lamenta a mulher que contou com o apoio do marido na aceitação ao seu novo corpo após a reconstrução mamária.
Cecília Francisco, que está reformada há cerca de sete anos com 70% de incapacidade física e continua a ser acompanhada com regularidade, garante não ter medo da morte, mas quer viver pela sua família e, sobretudo, pelas netas, ainda pequenas. “Depois destas situações damos muito mais valor à vida e ao que realmente importa. Deixamos de nos preocupar com o que é material. O mais importante é a harmonia e o amor da família e estarmos em paz”, reflecte, acrescentando ser importante falar destes assuntos para alertar o máximo número de pessoas para que se cuidem e façam exames com regularidade.

Lutar contra a doença pela segunda vez
A palavra proibida depois do cancro é metástase. Foi essa a palavra que Sónia Lapa ouviu da boca dos médicos quando teve conhecimento do resultado das análises aos gânglios das axilas. Começou assim um novo processo na luta contra o cancro da mama. “Tive o primeiro cancro na mama em 2016 em que fiz quimioterapia e mastectomia. Quando atingi os cinco anos, em 2021, estava na expectativa de ter alta hospitalar e ficar livre oficialmente da doença. Mas durante o Verão apareceu uma impinge na mesma mama que tinha sido retirada. Pensei que era uma reacção alérgica ao calor mas a borbulha foi crescendo”, conta.
Em Novembro de 2021 Sónia Lapa, actriz ligada ao grupo de teatro Revisteiros e muito acarinhada no concelho de Benavente, foi vista pela oncologista mas, por causa da pandemia de Covid-19, a biópsia apenas se realizou em Março de 2022 e só em Maio soube que tinha cancro. “O dermatologista perguntou-me o que estava ali a fazer e, com a maior frieza, disse que tinha cancro. O meu mundo caiu outra vez e andei a apanhar os pedacinhos. O processo foi muito mais doloroso do que na primeira vez. Levei muito mais quimioterapia e 30 sessões de radioterapia, todos os dias, durante dois meses; fiquei toda queimada. Não fiz a reconstrução e fiquei sem mama. Tenho uma cicatriz do tamanho de um pé no lugar da mama. Depois é a revolta e aceitação do corpo. Sentimo-nos um monstro quando nos olhamos ao espelho”, relata.
Sónia Lapa teve de reaprender a viver e conviver com o novo corpo. Continua a fazer hormonoterapia oral todos os dias, que lhe causa efeitos secundários como afrontamentos, alterações de humor que variam entre estados depressivos e eufóricos. As dores no corpo vão alternando até porque já tinha sido diagnosticada com fibromialgia. Desde os 14 anos que sofre da coluna e em alguns dias até a planta dos pés lhe dói. Por causa do esvaziamento axilar ficou com incapacidade no braço para toda a vida porque incha, uma vez que já não tem sistema linfático. Diariamente coloca uma luva elástica que apanha braço, dedos e mão para o inchaço não piorar e não pode carregar pesos.
“O que as pessoas vêem por fora não tem a ver com as cicatrizes que estão aqui dentro. É um processo doloroso a nível físico e psicológico. Façam tudo como os médicos mandarem: medicação e vigilância”, sublinha, lamentando ter que ter estado um ano à espera para ser operada no Hospital de Vila Franca de Xira, onde é seguida. “E agora estou aqui à espera, sem mama, sem saber o que fazer a seguir”.

Ouvir o corpo e ganhar novo olhar sobre a vida
Sónia Lapa é uma força da natureza e nunca se entregou à doença. Mas “não querer dar parte fraca tem o reverso, porque as pessoas esquecem depressa e pensam que já passou, mas isto é para toda a vida”. Durante o processo nunca recorreu a terapias alternativas nem a apoio psicológico. Apoiou-se nas “suas pessoas” e vai gerindo os momentos. No último ano começou a ter ataques de pânico e reconheceu que não estava bem. Procurou ajuda e hoje respira fundo, faz ginásio e massagens para relaxar.
“A face mais visível do cancro é quando se perde o cabelo mas o resto é silencioso e muito individual. Temos de ter quem nos ampare mas é um processo que temos de gerir e saber ir buscar força dentro de nós. A única certeza que comecei a ter é estar viva e fazer o que gosto para estar bem. E fazer teatro para mim é como pão para a boca”, refere a actriz que, desde o cancro, começou a olhar para a vida com outros olhos.
Continua a gerir pessoas, a fazer teatro, pinta, cuida da casa e da família. Passou a relativizar os problemas e a desacelerar. “Cuidado que o stress mata pessoas e dá cabo de nós. Nada é mais importante nesta vida que nós próprios. Cuidem do vosso corpo mas não olhem tanto da parte de fora. Olhem para dentro se estão bem e em paz. Não tenham vergonha e apalpem-se, cuidem-se, sem se tornarem egocêntricos”, finaliza.

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