Sociedade | 19-02-2024 07:00

Manter um casamento feliz em tempos de divórcio

Manter um casamento feliz em tempos de divórcio
Francisco Gil e Albertina Gil estão casados há 51anos e recordam o tempo em que não tinham liberdade para namorar. Para Andreia e Nelson Lopes a compreensão é um dos segredos do casamento

Em Portugal há cada vez menos casamentos e por cada 100 registam-se 50 divórcios. Dois casais contam a O MIRANTE como é estarem juntos há mais de 50 anos e como nunca é tarde para realizar o sonho de subir ao altar. A 11 de Fevereiro assinalou-se o Dia Mundial do Casamento.

Francisco Gil e Albertina Gil, de 71 e 69 anos, vivem na Longra, concelho de Tomar, estão casados há 51 anos e acreditam que o segredo para um casamento duradouro e feliz está na confiança, companheirismo e compreensão. Conheceram-se à porta da Fábrica de Fiação em Tomar, onde Albertina trabalhava aos 16 anos e para onde Francisco, tal como outros homens na altura, se deslocava para esperar que as jovens raparigas saíssem do trabalho e assim tentar a sua sorte na arte da sedução. Já que nesse tempo, explica a O MIRANTE, era raro as raparigas andarem sozinhas na rua.
A longa relação - somam 51 anos de casados - começou oficialmente depois de Albertina comemorar os 18 anos, altura em que o seu pai, que era mais benevolente, o convidou para ir a sua casa e lhe deu autorização para namorarem “com juízo”. O progenitor contrariou, desta forma, a vontade da mãe de Albertina que chegou a proibir aquela relação depois de os apanhar a namorar. Nessa altura, isso significava apenas conversar durante uns minutos entre os intervalos do trabalho. “À noite, quando saía, só podia conversar durante cinco ou 10 minutos e tinha de ir logo para casa, excepto se o meu pai lá estivesse”, recorda Albertina.
Quando Francisco Gil começou a ir a casa da namorada não podiam sair da sala, onde os pais e irmãos assistiam às conversas do casal. Ainda assim, apesar dos condicionalismos, o salto para o casamento não foi demorado. Em três meses, a 7 de Janeiro de 1973, decidiram casar com o objectivo de, tal como muitos casais à época, poderem ter mais liberdade. Na altura, recordam, havia um subsídio de casamento, no valor de dois mil escudos para cada um, que ajudou a pagar a despesa da cerimónia e da festa que durou três dias, com os familiares e amigos a oferecerem artigos para a casa ou comida, como leitão assado e um barril de vinho.
Já casados, inicialmente os pais continuavam a não os deixar sair juntos sozinhos. A mãe de Albertina ficava-lhe com o ordenado e as vizinhas comentavam a vida do casal. “As pessoas importavam-se muito com o que os outros viam e diziam. As minhas colegas contavam o tempo da minha gravidez, quando fiquei grávida da primeira filha, para perceberem se tinha engravidado antes do casamento”, recorda Albertina Gil.
A O MIRANTE, o casal explica que para se ter um casamento “até que a morte nos separe” é necessária muita amizade, confiança, apoio, tolerância e diálogo. Após 51 anos de casamento Francisco Gil confessa não entender a razão pela qual as pessoas se divorciam “porque se julgam que vão arranjar melhor estão enganadas, nunca se arranja melhor”.

“As pessoas não podem deitar a toalha ao chão ao mínimo percalço”
Visão semelhante é partilhada pelo casal Andreia e Nelson Lopes para quem a chave para a felicidade conjugal é a compreensão mútua, o apoio incondicional e a partilha de sonhos e desafios. “As pessoas não podem deitar a toalha ao chão ao mínimo percalço”, explica Andreia, enquanto Nelson consente: “para um casamento funcionar é preciso ter muita paciência, compreensão e respeito”.
O casal da Póvoa de Santa Iria já se conhecia, mas foi depois de Nelson Lopes se divorciar que começaram a sair. Andreia Lopes trabalhava num jardim de infância e tomou conta de uma das filhas do primeiro casamento de Nelson. “Ele foi o meu maior apoio quando o meu pai morreu. Namorámos 15 dias e ao fim desse tempo juntámo-nos. Foi espontâneo. Quando me juntei com ele acolhi as duas filhas do seu primeiro casamento”, conta Andreia.
Em 2018 começaram a viver juntos e em 2019 nasceu a Constança, filha que têm em comum. Em 2021, em plena pandemia de Covid-19, decidiram baptizar a filha e, em simultâneo, casar-se. “No dia-a-dia não há diferença entre estar junto ou estar casado. A única diferença é legal, que nos salvaguarda caso aconteça alguma coisa a mim ou a ele”, sublinha Andreia Lopes, que mantém a vontade de casar pela igreja, assim que conseguirem a anulação do primeiro casamento católico do marido. “Amizade e companheirismo é o que mais valorizo no casamento, assim como chegar a casa e a pessoa estar à nossa espera”, diz Nelson Lopes, reiterando que cada vez casais mais velhos e com muitos anos de casamento também se estão a divorciar talvez por falta de paciência.

Por cada 100 casamentos há 50 divórcios em Portugal

Durante o ano de 2022 registaram-se 18.464 divórcios, mais 1.185 do que no ano anterior, o que significa que ocorreram 50 divórcios por cada 100 casamentos, segundo dados da Pordata. Comparativamente, em 1960 a percentagem de divórcios por cada 100 casamentos era de 1,1% e, em 2020, Portugal atingiu o rácio mais elevado de sempre com 91,5%. Apesar do número de divórcios, em 2022 realizaram-se 36.952 casamentos, registando-se um aumento de 7.895 celebrações de matrimónio em comparação com o ano transacto. Ainda assim são números muito inferiores aos registados em décadas passadas.

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