Sociedade | 27-02-2024 12:00

Epilepsia já é uma doença que se pode controlar

Epilepsia já é uma doença que se pode controlar
Adelaide Palos é directora do serviço de Neurologia do Hospital Distrital de Santarém há cerca de 30 anos

A epilepsia é uma doença com origem no sistema nervoso central que se manifesta por crises recorrentes, mas nem sempre é fácil diagnosticá-la.

Actualmente é possível controlar cerca de 75% das epilepsias e as pessoas podem fazer a sua vida quase normal. Uma entrevista com Adelaide Palos, directora do serviço de Neurologia do Hospital Distrital de Santarém, a propósito do Dia Mundial de Combate à Epilepsia, que se assinalou a 13 de Fevereiro.

Estima-se que uma em cada 200 pessoas possa ter epilepsia sendo que uma pessoa em cada 20 pode ter uma crise na vida. É uma doença com origem no sistema nervoso central [no cérebro] que se manifesta por crises recorrentes. Podem acontecer em qualquer idade – embora as idades de maior prevalência sejam na infância e adolescência, e nos idosos - e ter diversas causas, desde genéticas ou hereditárias, e até situações em que os médicos não conseguem diagnosticar a causa. As mais comuns são situações adquiridas e a doença pode tornar-se incapacitante no caso de existirem muitas crises. Existem casos de epilepsia secundária como, por exemplo, um doente que tenha alterações complicadas de diabetes ou situações metabólicas que se podem manifestar por crises convulsivas. A epilepsia também pode ser causa secundária de um tumor cerebral.
As explicações são dadas pela directora do serviço de Neurologia do Hospital Distrital de Santarém (HDS), Adelaide Palos, neurologista há cerca de 30 anos. A médica explica que quando aparecem as primeiras crises é fundamental saber, através de exames, a origem dessas crises. “Para falar em epilepsia temos que falar em crises epilépticas recorrentes, sem causa conhecida. As crises não são todas iguais mas a grande maioria repete um padrão mais ou menos típico. Quando o mesmo doente nos diz que as crises não são semelhantes é de desconfiar que seja epilepsia”, explica Adelaide Palos, acrescentando que o HDS acompanha cerca de três centenas de doentes com esta doença.
A médica neurologista afirma que a epilepsia nem sempre é de fácil diagnóstico, dependendo do local do cérebro onde a crise tem origem, e dá o exemplo das chamadas ‘ausências’ das crianças, em que estas ficam alheadas, com alterações do estado de consciência durante alguns segundos e podem fazer automatismos com as mãos. “Muitos pais apercebem-se da situação mas é muito recorrente os professores aperceberem-se da situação na sala de aula. Depois da crise a criança retoma a sua actividade normalmente sem se aperceber que esteve parada por alguns momentos”, sublinha.
A neurologista diz que actualmente é possível controlar cerca de 75% das epilepsias, em que as pessoas podem fazer a sua vida quase normal. No entanto, existe sempre um grupo de doentes que, pela agressividade da doença, é mais difícil controlar porque são resistentes aos fármacos. “Tenho vários doentes com paralisia cerebral e epilepsias muitos graves, com vários tipos de crises. Conseguirmos reduzir a frequência dessas crises e o doente passar a ter uma crise de vez em quando é muito gratificante, não só para os doentes como para os seus cuidadores. O tratamento é conseguirmos tratar as crises”, confessa.

Doença ainda é estigma a nível profissional
Durante anos esta doença foi muito estigmatizada a nível profissional e ainda continua a ser, embora menos, causando dificuldade em encontrar emprego. A frequência das crises epilépticas também determina o tipo de epilepsia e a dificuldade em conseguir um tratamento eficaz. Existem casos em que o doente é reencaminhado para a consulta de cirurgia de epilepsia e, após ser feito um estudo, onde cada doente é um caso único, decide-se se é possível ser operado. “Há alguns doentes que ficam muito bem após a cirurgia mas nem todos a podem fazer”, observa a médica. Também o stress pode ser um factor desencadeante de uma crise numa pessoa com epilepsia.
A neurologista explica que é sempre muito importante o doente ir à consulta acompanhado de alguém que presenciou uma crise, para explicar como foram as características. Os médicos pedem aos familiares que filmem as crises para que se possa identificar o que aconteceu. Se alguém presenciar uma pessoa a ter uma crise deve colocar o doente em posição lateral e uma protecção de lado na cabeça para não se correr o risco de bater no chão. Não se deve colocar nada na boca do doente e tentar tranquilizá-lo. Se a crise demorar mais de cinco minutos deve chamar-se o 112. “Se a crise se prolongar e não recuperar o estado de consciência é o que chamamos de estado mau epiléptico”, que pode provocar lesões no cérebro e morte em 30% dos casos se não for tratado atempadamente. Mas estas são as situações mais graves”, destaca, acrescentando que se pode praticar desporto mas evitar alpinismo, mergulho, natação ou hipismo.

Medicação apropriada para grávidas

Qualquer mulher com epilepsia pode ter o seu bebé saudável desde que a gravidez seja programada e controlada com acompanhamento entre neurologista e obstetra. Adelaide Palos sublinha que nunca se deve suspender a medicação bruscamente quando se descobre que está grávida. “Ter crises epilépticas durante a gravidez é mais grave do que a pessoa tomar os medicamentos”, esclarece.
A neurologista explica que os médicos dão medicação diferente a mulheres em idade fértil para evitar problemas tanto para a mãe como para o bebé. A medicação faz-se de acordo com a idade e se é homem ou mulher. A neurologista acrescenta que uma mulher com epilepsia não tem que ter medo em engravidar e que é fundamental ter acompanhamento médico durante a gravidez.

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