Sociedade | 09-03-2024 07:00

Obesidade: testemunhos de quem venceu a doença

Obesidade: testemunhos de quem venceu a doença
Olívia Leal e Luísa António fizeram a cirurgia da redução de estômago e ganharam qualidade de vida

Olívia Leal e Luísa António foram obesas, tempo em que sofreram com as tarefas mais básicas como subir escadas.

Com a cirurgia da redução de estômago, ambição de muitos que padecem da doença, ganharam qualidade de vida e auto-estima. A prevalência de excesso de peso na população adulta é de mais de 50% e mais de metade dos portugueses não cumpre a recomendação de ingerir 400 gramas de hortícolas e fruta, alerta a nutricionista Rita Ribeiro.

Olívia Leal, de 52 anos, do Forte da Casa, e Luísa António, de 61, de Aveiras de Cima, chegaram a pesar 106 e 125 quilos, respectivamente. A primeira pesa agora 60 quilos e a segunda perdeu 50 desde que realizou a cirurgia de redução de estômago, há quase dois anos, no Hospital Distrital de Santarém. Subir escadas, fazer a própria higiene ou baixar-se eram tarefas morosas e cansativas para ambas as mulheres que chegaram a dormir ligadas a uma máquina devido à apneia do sono provocada pelo excesso de peso e que lhes interrompia a respiração enquanto dormiam. Após as cirurgias tornaram-se mulheres confiantes, enérgicas e mais felizes, mas foi a vontade de levarem o processo até ao fim que ditou o sucesso da cirurgia, garantem estes dois casos de sucesso após terem realizado o processo em hospitais públicos, onde as listas de espera parecem infindáveis.
Nascida em França, Olívia Leal era uma criança com apetite que comia regularmente fast food e começou, a partir dos 11 anos, a ter excesso de peso, com a agravante de tomar medicação com cortisona para a epilepsia. Mais tarde, juntou-se a diabetes, o colesterol, a hipertensão e o stress de ser directora financeira numa empresa que a levava a refugiar-se na comida como tentativa de se acalmar. Recorda-se que a primeira vez que pediu ajuda tinha menos de 30 anos e pensava em engravidar. “Tentei ser operada, tinha 82 quilos e disseram-me que não estava com peso suficiente. É chocante ouvir isso”, desabafa, revelando que mede 1,50 metros. Conseguiu perder 12 quilos com a ajuda de uma dieta e engravidou da sua única filha. Com a gravidez atingiu os 105 quilos e aos 106 apanhou uma gripe que a deixou em casa com 17 comprimidos e uma máquina para a apneia do sono. “O médico foi muito sincero. Ou mudava ou tinha pouca esperança de vida”, refere a O MIRANTE numa conversa a propósito do Dia Mundial da Obesidade que se assinala a 4 de Março.
Olívia conseguiu a tão desejada cirurgia, há seis anos, no Hospital de Vila Franca de Xira, em parte porque, explica, os problemas de vesícula aceleraram o processo que se deu em menos de um ano. Três anos depois realizou uma abdominoplastia para eliminar o excesso de pele abdominal que lhe causava desconforto e insegurança e realizou uma lipoaspiração. No primeiro ano após a operação ao estômago perdeu 18 quilos e três meses depois da cirurgia estava no ginásio a fazer 45 minutos de passadeira. Há dois anos chegou aos 52 quilos, consta ao mesmo tempo que alerta para o perigo dos extremos e a importância do acompanhamento psicológico durante todo o processo. “Não podemos fazer a operação para agradar aos outros, temos de achar necessário. A operação é uma ajuda, não é a solução. A solução somos nós”, argumenta, dizendo que nunca pensou que a filha pudesse abraçá-la à volta da cintura.

Operação devolve qualidade de vida
A história de Olívia Leal assemelha-se à de Luísa António, que já tinha excesso de peso e aumentou mais de 30 quilos com a gravidez. Há cerca de sete anos surgiu a tensão alta e um cansaço extremo ao ponto de ter de se encostar no trabalho, quase adormecer a conduzir e a jantar com a família. Numa das vezes foi parar ao hospital e, por suspeita de embolia pulmonar, ficou internada tendo posteriormente sido diagnosticada com apneia do sono. Numa conversa com a médica de família, na qual esta lhe fez ver que não tinha qualidade de vida, aceitou ser reencaminhada para uma consulta de obesidade. Lembra-se do pequeno-almoço que comeu antes da cirurgia porque nunca mais conseguiu comer um igual: uma tosta mista e um leite com chocolate. No dia da operação pesava 110 quilos. Deixou de dormir com a máquina para a apneia do sono e, em Outubro de 2023, foi operada ao peito por causa do excesso de pele estando a ser seguida em Psicologia no Hospital de Santarém.
Segundo a nutricionista Rita Ribeiro, de 34 anos, que dá consultas em Santarém, Coruche, Caldas da Rainha, Lisboa e Torres Vedras, além da terapêutica medicamentosa e alteração de hábitos alimentares e de estilo de vida, a cirurgia da obesidade é considerada uma solução terapêutica segura e eficaz para indivíduos com obesidade mórbida. Num momento prévio à realização da intervenção cirúrgica existe um acompanhamento nutricional especializado com vista a preparar o doente para as alterações nos seus hábitos alimentares pós-cirurgia, mas também a promover mudanças ao nível do padrão alimentar que poderão resultar numa perda de peso pré-cirurgia e que poderão contribuir para um maior sucesso da cirurgia.

Quase 1.700 pessoas fizeram cirurgia da obesidade no SNS em 2023

Em 2023, no âmbito do Programa de Tratamento Cirúrgico da Obesidade, foram operadas 1.965 pessoas, que esperaram em média 5,5 meses pela intervenção e no final do mesmo ano perto de 1.400 doentes aguardavam pela cirurgia para a obesidade. Os dados provisórios avançados à Lusa pela Administração Central do Sistema de Saúde indicam que o tempo médio de espera para cirurgia tem vindo a diminuir: 10,4 meses em 2021, 6,5 meses em 2022 e 5,5 meses em 2023. Segundo a lei, as cirurgias de prioridade normal devem ser realizadas num prazo máximo de seis meses.

Rita Ribeiro, nutricionista

Um problema de saúde pública

A obesidade é um dos principais problemas de saúde pública, não só em Portugal, mas à escala mundial, sendo considerada uma doença crónica com inúmeras complicações a curto e longo prazo, nomeadamente o aparecimento de outras doenças crónicas como diabetes, doenças cardiovasculares e vários tipos de cancro, alerta a nutricionista Rita Ribeiro. Acrescenta que a prevalência de excesso de peso na população adulta é de mais de 50% e que mais de metade dos portugueses não cumpre a recomendação da Organização Mundial de Saúde de ingerir, pelo menos, 400 gramas de hortícolas e fruta diariamente, embora reconheça que com a inflação alimentos compostos por cereais refinados, açúcares de adição e elevado teor de gordura e sal podem parecer mais atractivos não só em termos organoléticos como monetários.
Rita Ribeiro afirma que nas crianças os hábitos alimentares adquiridos em casa são os que mais facilmente as acompanham à medida que crescem e que por isso “crianças com obesidade têm maior probabilidade de se tornarem adultos com obesidade”. A obesidade é uma doença de origem multifactorial, onde factores genéticos, socio-ambientais, psicológicos e comportamentais contribuem para o aumento da sua prevalência. Para que seja possível que o processo de emagrecimento ocorra é necessário promover um balanço energético negativo, em que a energia consumida deverá estar abaixo da energia que é gasta. “Não será o indivíduo que deverá adaptar-se a determinada abordagem/dieta em específico, mas sim o contrário”, termina.

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