Sociedade | 12-03-2024 12:00

Directamente do Brasil para fazer o trabalho que portugueses não querem

Directamente do Brasil para fazer o trabalho que portugueses não querem
Andrea Lenoir e Margareth Mateus consideram que imigrar é para os fortes que são capazes de pausar os sonhos em prol da estabilidade necessária para conseguir criar raízes. Ivanete Leite, co-fundadora da Associação Internacional Luso Brasileira de Integração, Arte e Cultura

A propósito do Dia Mundial da Justiça Social fomos falar com brasileiras que vieram para Portugal com a esperança de uma vida melhor.

O preconceito, o trabalho não qualificado e a dificuldade em encontrar um senhorio que aceite arrendar casa sem pedir 10 rendas adiantadas são alguns dos desafios desta comunidade imigrante, a maior a viver em Portugal e em Santarém. E perante este cenário há quem esteja a pedir ajuda para voltar, alerta Ivanete Leite da Associação Luso Brasileira de Santarém.

Uma professora, uma contabilista e uma psicóloga. À primeira impressão parece que nada têm em comum, não tivessem estas três mulheres brasileiras imigrado para Portugal, mais concretamente para Santarém, em busca de uma vida melhor onde reinasse a segurança. Essa encontraram-na, mas este país não foi, para nenhuma, o El Dorado que esperavam, pelo menos nos primeiros tempos. Depararam-se com o preconceito, a dificuldade em encontrar casa e a frustração de não conseguirem um emprego qualificado, compatível com as suas qualificações. Neste mar de dificuldades e desilusões há quem tenha conseguido dar a volta e quem ainda esteja a tentar manter-se à tona.
É neste último cenário que se encontra Karen Silva, contabilista nascida em São Paulo há 36 anos. Chegou há um ano e três meses a Santarém incentivada por uma amiga que já se tinha mudado e lhe falava maravilhas desta cidade e deste país seguro e solarengo. “Ela criou muitas expectativas mas a realidade foi outra. Não me ajudou e fiquei dois meses sem trabalho com o dinheiro que tinha trazido acabando”, conta.
Ao fim de muitos dias de procura e já com o diploma que tinha trazido na bagagem arrumado no fundo da gaveta - “porque cá nem o aceitam” - a contabilista conseguiu trabalho numa banca de venda de bijuterias. Sem contrato, trabalhava entre oito a doze horas por dia a ganhar dois euros por hora. Teve, como diz, de se sujeitar ao que apareceu depois de ter sido rejeitada noutras entrevistas, até para fazer limpezas. “Senti um fechamento e preconceito por parte dos portugueses. Não nos dão muitas oportunidades”, lamenta. É precisamente nas limpezas que agora trabalha, mas, desta vez com um contrato de trabalho e ordenado que considera compatível com as funções.
Outra das dificuldades com a qual a imigrante se deparou foi a habitação. Chegaram a pedir-lhe quatro rendas adiantadas mais uma caução por um T1. Não lhe restou, por isso, outra alternativa senão um quarto, pelo qual paga 400 euros, num apartamento onde habita com três homens, dois deles brasileiros e um venezuelano. “Mais de metade do salário vai para o quarto”, vinca, acrescentando que para já não pretende baixar os braços nesta tentativa de converter a sua experiência de imigração noutra mais positiva.
Ivanete Leite, co-fundadora da Associação Internacional Luso Brasileira de Integração, Arte e Cultura - que tem sede em Santarém, refere que entre os brasileiros que imigram para Portugal “há muitos que vêm desprevenidos e que encontram uma realidade diferente daquela que imaginavam”. Mas este país não é esse mar calmo pintado no mundo online.

“A População portuguesa está saturada com os brasileiros”
Andrea Lenoir foi uma das que imigrou com um plano de vida e emprego assegurado como tradutora de francês numa empresa de call center em Lisboa. Já lá vão seis anos, dois dos quais a residir em Santarém, cidade que também escolheu para investir no mercado imobiliário com o namorado holandês. Começaram a comprar habitações devolutas para recuperar e devolver ao mercado de arrendamento. A ideia foi boa “mas tivemos bastantes dificuldades, não tivemos apoio e ainda estamos a sofrer com isso, com casas à espera da licença da câmara”, relata, confessando que achava, ao início, que tudo ia ser mais fácil.
Com mais de um milhão de euros investidos na compra e reabilitação de nove imóveis na cidade, Andrea Lenoir, que além de empresária trabalha numa imobiliária, arrenda muitas delas a imigrantes brasileiros. “O mercado ainda está muito fechado para os imigrantes” com senhorios a pedir fiadores, outros “a pedir 10 rendas adiantadas”, e os bancos a negarem empréstimos e a imporem o limite de cinco mil euros, especifica. Pelo meio entra o preconceito do qual a própria foi e é alvo.
“A população portuguesa está saturada dos brasileiros, somos muitos, já não aguentam mais. Por isso me senti mais confortável em Santarém do que em Lisboa. Ainda assim levei quatro anos para entrar numa casa de uma família portuguesa. Agora, com uma vida estável, não equaciona voltar às origens, pelo menos não antes da reforma.

No aperto sobra o emprego não qualificado
Natural do Amazonas, Margareth Mateus tinha planos de vir para Portugal com o marido português e conseguir emprego como psicóloga. Acabou a trabalhar num refeitório escolar, num lar de idosos e numa fábrica de alimentos congelados em Santarém. “Tive que criar um plano B porque não estava fácil”. Isto, explica, já depois de ter um anúncio no jornal O MIRANTE a apresentar-se como psicóloga. Foi desse anúncio que acabou por conseguir a primeira paciente, numa altura em que já fazia voluntariado no Hospital de Dia em Santarém, o que lhe permitia aconselhar e orientar, ainda que informalmente, alguns utentes e seus familiares. “Penso que o que me aconteceu seja transversal. Sabia que ia ser difícil mas não tanto, às vezes sentia uma grande frustração. Não trabalhar na área é um problema de imigrante que mexe muito com a parte psicológica”, afirma, precisando que agora que trabalha em exclusivo como psicóloga, a maioria dos seus pacientes brasileiros são licenciados e não conseguem trabalho na área.
Em Portugal há quase 25 anos Ivanete Leite, que chegou de Minas Gerais como atriz e bailarina e acabou por estudar Direito e Turismo e tornar-se empresária, já presenciou épocas de menor e maior fluxo de imigração, sendo este último o cenário actual. “Portugal é a porta de entrada para os brasileiros”, afirma, considerando que se por um lado o elevado fluxo veio contribuir para a crise na habitação, por outro este país “precisa de pessoas para fazer o trabalho que os portugueses não querem fazer”.

Brasileiros são os que mais regressam ao país de origem

Segundo a Organização Internacional das Migrações os brasileiros representam 80% dos pedidos de ajuda para regressar ao país de origem e, no ano passado, através do Projecto ARVoRe VIII, regressaram 367 pessoas, 287 (78%) para o Brasil. O número de pedidos de brasileiros é justificado por constituírem a maior comunidade imigrante em Portugal, com mais de 400 mil pessoas. Também em Santarém este grupo corresponde à maior comunidade com mais de 900 pessoas residentes de acordo com os dados de 2021 do extinto SEF disponibilizados à Câmara de Santarém.

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