Sociedade | 14-04-2024 12:00

Para a maioria dos jovens o 25 de Abril é só mais um feriado

Para a maioria dos jovens o 25 de Abril é só mais um feriado
Pedro Afonso, Maria Inês Brito e Hugo Tavares, alunos dos cursos de aprendizagem do ISLA Santarém, participaram no debate "O que Salgueiro Maia ajudou a mudar 50 anos depois" organizado pelo ISLA Santarém

Alunos dos cursos de aprendizagem do ISLA Santarém participaram num debate, intitulado “O que Salgueiro Maia ajudou a mudar 50 anos depois”, que assinalou o 32º aniversário da morte do capitão que liderou a coluna militar que saiu de Santarém em direcção a Lisboa para derrubar a ditadura.

O MIRANTE falou com alguns alunos, que admitem que a sua geração é pouco interessada no marco mais importante da história contemporânea de Portugal.

Maria Inês Brito gostava de tirar o curso de Medicina na Força Aérea. Aos 15 anos está a preparar-se para isso. A aluna do 1º ano do curso de aprendizagem de técnicas de sistemas de informática do ISLA Santarém sabe que os portugueses se libertaram da ditadura com a revolução do 25 de Abril de 1974 mas lamenta que os jovens da sua geração não saibam muito sobre a data que representou um virar de página em Portugal. Uma opinião partilhada com O MIRANTE na manhã de 3 de Abril, à margem do debate intitulado “O que Salgueiro Maia ajudou a mudar 50 anos depois”, organizado pelo ISLA Santarém e que assinalou o 32º aniversário da morte de Salgueiro Maia.
“Os jovens demonstram muito desinteresse em querer saber como foi e tudo o que esteve por detrás da revolução. Para a maioria, o 25 de Abril é só mais um dia de feriado em que não têm aulas. Temos que recordar a nossa história enquanto povo, para que possamos continuar a viver em liberdade”, afirmou a jovem a O MIRANTE, acrescentando que a matéria também deveria ser mais valorizada nas escolas. Na sua opinião, Salgueiro Maia foi alguém que teve a coragem de ir em frente com o plano de derrubar o regime ditatorial: “Foi alguém muito importante. Pode ter sido uma ideia louca, que poderia ter corrido mal, mas para mim foi um herói que deve continuar a ser lembrado”.
Para o seu colega de turma, Pedro Afonso, a revolução de Abril foi o marco mais importante da história moderna portuguesa. Concorda que os jovens não se importam com o significado e não dão valor à revolução que mudou o país em 1974. “Toda a minha geração, e outras anteriores, não fazem a mínima ideia do que aconteceu. A matéria é dada na escola mas há falta de interesse em estudar e perceber os erros do passado - dos tempos em que as pessoas não viviam em liberdade - para que não se voltem a repetir”, considerou.
Pedro Afonso, de 24 anos, defende que Salgueiro Maia é uma “espécie rara” de pessoa, como já existem poucas, que pensava de maneira diferente e não teve medo de ir contra o poder. “Teve ideias diferentes mas pensou sempre no povo e no bem colectivo. Uns talvez o tenham chamado de maluco, mas para outros, incluindo para mim, foi um herói”, sublinhou.
Maria Inês Brito e Hugo Tavares consideram que o serviço militar deve continuar a ser opcional uma vez que, referem, tudo o que é obrigatório acaba por ser extremista. “Se for obrigatório não é bom porque quem não pretende cumpri-lo e for obrigado não vai ser feliz. Deve continuar a ser voluntário”, defendem os alunos. Pedro Afonso acha que poderia ser positivo porque no Exército existem regras, disciplina, horários a cumprir e tarefas a desempenhar. “Muitos jovens poderiam aprender coisas essenciais e básicas que não aprendem no dia-a-dia”, lamenta.
Hugo Tavares sublinha a palavra liberdade para explicar o que o povo português ganhou com a revolução. O aluno de 17 anos, do curso de aprendizagem de Sistemas de Informática, fala da importância de Santarém uma vez que foi da cidade ribatejana que saíram os militares que derrubaram o regime. “Deveria ser dada mais importância a Santarém porque foi aqui que tudo foi planeado e de onde saiu a coluna militar. Infelizmente só se fala do que se passou no Largo do Carmo, em Lisboa”, reflecte. O jovem também lamenta que a grande maioria dos jovens não esteja muito interessada em saber como realmente aconteceram as coisas que permitiram que hoje todos possam conversar descansados, em grupo.

Da esquerda para a direita: o advogado João Madeira Lopes, o antigo preso político Carlos Cruz, o administrador do ISLA Santarém, Domingos Martinho, o vereador da Cultura da Câmara de Santarém, Nuno Domingos e o Coronel Correia Bernardo

As memórias de quem viveu o 25 de Abril

O coronel Correia Bernardo nunca vai esquecer o demorado abraço que deu a Salgueiro Maia antes de este partir com a coluna militar da Escola Prática de Cavalaria de Santarém em direcção a Lisboa na madrugada de 25 de Abril de 1974. Eram ambos jovens capitães. “Da minha parte foi um abraço de incerteza, havia dúvida e temor por não saber como as coisas iriam correr. Do lado dele senti-lhe a certeza de que tudo iria dar certo. Ele estava muito confiante”, recordou Correia Bernardo no debate “O que Salgueiro Maia ajudou a mudar 50 anos depois”, organizado pelo ISLA Santarém.
Correia Bernardo contou aos alunos presentes no auditório do antigo edifício do ISLA algumas histórias dos meses em que foi preparado o plano para avançarem com a revolução, tudo feito na clandestinidade. As primeiras conversas começaram em Novembro de 1973 e tudo foi sendo delineado aos poucos. O coronel lembra Fernando Salgueiro Maia como um homem frontal e com apurado sentido de humor. “Quando iniciou o seu percurso militar estava sempre a querer ver como tudo funcionava, a colocar questões e a querer ver como os seus superiores faziam para aprender”, conta.
Também presente esteve Carlos Cruz, ex-preso político, que foi detido a poucos meses de ser pai. Na cadeia em Caxias mentiram-lhe dizendo que a sua companheira, e mãe do seu filho que estava para nascer, também estava presa. “Torturaram-me e diziam-me que se eu não falasse o que eles queriam que lhe faziam mal. A sorte foi que soube, por acaso, que ela não estava presa e fiquei mais descansado”, lembra. Para o ex-preso político, Salgueiro Maia foi um herói porque teve a coragem de, já no Largo do Carmo, se dirigir, a pé, para falar com o inimigo. “Levava consigo uma granada na mão, estava disposto a dar a sua vida pela nossa liberdade. Isso nunca deve ser esquecido”, afirma o antigo professor.

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