Sociedade | 17-04-2024 12:00

Celestino Marques preserva tradição da olaria artesanal em Tomar

Celestino Marques preserva tradição da olaria artesanal em Tomar
Celestino Marques é oleiro há cinco décadas na Charneca da Peralva, concelho de Tomar

Celestino Marques começou a trabalhar o barro há 50 anos e tem a única olaria de louça tradicional do concelho. O oleiro explicou todo o processo de criação de uma peça em barro com técnicas antigas a O MIRANTE enquanto falava da sua preocupação em relação ao futuro da arte.

Celestino Marques, de 60 anos, cresceu numa família que trabalhava o barro na Charneca da Peralva, concelho de Tomar, onde mantém viva a arte da olaria tradicional. Apesar de existirem muitas olarias na década de 50, conta, o oleiro acredita que a sua olaria de louça tradicional pode ser a única do Médio Tejo. “Trabalhar o barro já me está no sangue, que vem dos meus antepassados”, diz. Começou a aprender a arte aos dez anos com o primo e “mestre” José Caetano das Neves que tinha uma olaria tradicional onde trabalhou até aos 18 anos quando o “mestre” morreu. Nessa altura decidiu abrir a sua própria olaria.
“Comecei do zero, não tinha nada. Amassava o barro com os pés porque não tinha máquinas. Ia com um burro e uma carroça para trazer o barro que cavava, não tinha luz e construí os fornos com uma caldeira para cozer as peças”, recorda enquanto fez uma visita a O MIRANTE pelo museu onde tem algumas das milhares de peças em barro que criou durante a sua vida e pela olaria onde demonstrou todo o processo de criação.
Com sacrifício foi aumentando a olaria onde ainda prefere utilizar as técnicas antigas e continuar a utilizar barro puro que vai buscar à terra. O processo de criação de uma peça em barro começa nos barreiros onde coloca os quatro tipos de barro que utiliza para misturar numa pasta uniforme durante cerca de oito a 15 dias. De seguida, leva a massa até uma máquina que amassa o barro, até estar em condições de moldar e corta. Depois, o oleiro passa para a roda tradicional onde se senta com o avental de saco de sarapilheira para trabalhar o barro com as mãos, parte de uma cana e uma esponja enquanto gira a roda com o pé. O processo de secagem, seguido da cozedura das peças é o mais longo chegando a demorar semanas.
“A vida de oleiro é muito dura. É preciso ter amor à arte para não desistir”, diz com um sorriso, acrescentando que a arte da olaria tradicional é das artes “mais bonitas que há” apesar de ser trabalhosa. A industrialização da olaria em barro veio comprometer o futuro da olaria tradicional tornando-se difícil competir em termos de rentabilidade apesar da perda de qualidade e autenticidade que a arte tradicional oferece. “Na nossa região ainda não há muitas pessoas que dêem valor à arte tradicional para que os jovens possam ter futuro nesta arte”, lamenta o oleiro que continua a não ter “mãos a medir” para tantas encomendas pelo reconhecimento do seu trabalho.
Celestino Marques mantém a esperança que as próximas gerações possam dar continuidade à olaria tradicional, ao ensinar a arte às crianças das escolas do concelho e dando workshops a adultos para transmitir o seu conhecimento. No entanto, acredita que a olaria tradicional com as técnicas antigas, utilizando fornos a lenha e barro puro, vai acabar deixando o desejo que a neta dê continuidade à sua olaria para manter a tradição da família.

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