Sociedade | 21-04-2024 15:00

“Memórias Gravadas” expõe história das mulheres antes do 25 de Abril de 1974

“Memórias Gravadas” expõe história das mulheres antes do 25 de Abril de 1974
Alunas da universidade sénior de Benavente mostram testemunhos da sua vida antes da revolução

Instalação colaborativa em exibição no Cineteatro de Benavente contou com a participação das alunas da Universidade Sénior e jovens do concelho de Benavente.

“Memórias Gravadas” é o nome da instalação colaborativa que está patente no Foyer do Cineteatro de Benavente. A exposição é o resultado dos trabalhos desenvolvidos, no âmbito do programa LIBERT’ARTE, que integra as comemorações dos 50 anos do 25 Abril de 1974, numa parceria entre a residência artística de gravura e bordado, dinamizada pela artista plástica Estela Baptista Costa, no Espaço Gravurar, do Núcleo Museológico Agrícola, em Benavente.
A inauguração da instalação contou com as alunas da Universidade Sénior do município, que trabalharam as gravuras da exposição através de fotografias pessoais tiradas no período do Estado Novo.
As alunas deram o seu testemunho sobre as vivências antes do 25 de Abril de 1974. As produções radiofónicas que relatam a memória das suas vidas foram conduzidas pela jornalista Sandy Gageiro e a mediadora cultural Susana Alves com a colaboração de jovens do concelho.
A O MIRANTE, Estela Baptista Costa elogia a coragem das sete senhoras que aceitaram o desafio de trabalhar as memórias pessoais, umas mais dolorosas que outras. “Se a ditadura não era boa, para as mulheres ainda era pior. O objectivo é relembrar o que estas pessoas passaram porque não podemos esquecer a história. E passados 50 anos a geração de agora já começa a esquecer”, diz.
O vereador da cultura do município de Benavente, Joseph Azevedo, explicou que o objectivo é perpetuar a cultura através da invasão de espaços. Nos 50 anos do 25 de Abril a arte traz com ela reflexões, memórias, caminhos e futuro. “Memórias Gravadas” é um convite para os visitantes mergulharem na história das mulheres antes do 25 de Abril. A instalação colaborativa vai estar patente até 31 de Maio.

Mulheres só podiam sair do país com autorização do marido
Natural de uma aldeia pobre de Trás-os-Montes, Maria Aldina Dias (terceira a contar da esquerda na fotografia) foi uma das participantes da instalação artística. Aos 74 anos frequenta a Universidade Sénior de Benavente, onde aprende informática, cavaquinho, folclore e anda na tuna e tem aulas de hidroginástica. No Foyer do Cineteatro de Benavente está exposta a sua primeira fotografia, tirada aos 12 anos e onde está de vestido acompanhada pelos pais e irmão mais novo.
“Foi uma infância de pobreza. Apanhava azeitona, pisava uvas, carregava cestas de uvas no Douro, para ganhar como os homens porque tinha de ajudar os meus pais. Aos 17 anos vim para casa de uma prima e comecei na costura e limpezas, até que entrei como dactilógrafa na Universidade de Lisboa. Após vários concursos, depois do 25 de Abril, consegui chegar a chefe de secção”, relata. Uma vez, quando se desentendeu com o marido, estava grávida e queria sair para o Luxemburgo. Não podia viajar sozinha e por ser mulher era necessário o marido assinar o papel a autorizar a sua partida. Quando se deu a Revolução Maria Aldina Dias estava grávida e tinha ido para a manifestação na Faculdade de Direito. “A polícia começou a malhar e eu tive medo por causa da gravidez. Mas consegui entrar para a reitoria. O meu filho já nasceu na Liberdade a 25 de Dezembro”.
Das memórias antes da revolução lamenta não ter estudado mais, porque os pais não podiam. Mais tarde, nas Novas Oportunidades, acabou o 9º ano de escolaridade.

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