Sociedade | 19-05-2024 07:00

A guerra colonial e a revolução vistas pelas mulheres dos militares de Abril

A guerra colonial e a revolução vistas pelas mulheres dos militares de Abril
Da esquerda para a direita, Natércia Maia, Dúnia Palma, Felisbela Bernardo e Luísa Mesquita

Dúnia Palma, Felisbela Bernardo e Natércia Maia têm muita coisa em comum. Professoras de carreira, casaram com militares da Escola Prática de Cavalaria de Santarém que combateram em África e estiveram envolvidos no golpe de 25 de Abril de 1974. Em Santarém tiveram sala cheia para ouvir episódios das suas vidas.

Felisbela Bernardo estava a passar férias com os dois filhos pequenos na praia quando, em Junho de 1969, recebeu um telefonema com hora marcada nos correios: era o marido, Joaquim Correia Bernardo, então capitão de Cavalaria destacado na Guiné, a dar em primeira mão a notícia de que tinha ficado gravemente ferido. Uma mina rebentou e o então jovem capitão perdeu uma perna. Posteriormente, a esposa recebeu um telegrama lacónico a dizer que o marido tinha sido gravemente ferido e para se dirigir às entidades competentes para saber mais notícias.
O episódio foi contado a uma vasta plateia pela esposa do capitão de Abril, e companheiro de armas de Salgueiro Maia na Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém, durante uma conversa organizada pela UTIS - Universidade da Terceira Idade de Santarém, no dia 8 de Maio, na Sala de Leitura Bernardo Santareno. Uma sessão que contou ainda com depoimentos de mais duas mulheres de militares e também professoras aposentadas, Dúnia Palma e Natércia Maia, que contaram também episódios da sua vida familiar.
Felisbela Bernardo reconheceu que a estadia do marido na Guiné foi uma “experiência traumática” que a marcou profundamente. O seu relato ilustrou a angústia e desespero que as esposas e mães dos jovens militares viveram durante a Guerra Colonial que durou 13 anos. Mas não só. Na sessão intitulada “Elas fizeram Abril” evocou-se também as muitas mulheres anónimas, sem voz activa, destituídas de direitos, que durante décadas e séculos foram consideradas meras figurantes do nosso universo colectivo, como destacou a moderadora da conversa, a ex-deputada comunista Luísa Mesquita.
“O analfabetismo, o alcoolismo, a violência doméstica faziam parte do quotidiano”, contextualizou Felisbela Bernardo, que viveu a sua juventude em Vila Chã de Ourique, no Cartaxo, onde o pai foi professor da escola primária e lhe deixou um legado de valores e um apetite voraz pela busca de conhecimento. “As mulheres não tinham voz, não tinha expressão, eram invisíveis”, reforçou a professora aposentada.
Para as mulheres dos militares mobilizados para a guerra em África o dilema muitas vezes era ficar ou acompanhá-los, deixando cá, por vezes, os filhos ao cuidado dos avós ou de colégios internos. “As mulheres dos militares tiveram uma vida difícil”, vincou referindo que houve mulheres que perderam os maridos e se suicidaram, deixando os filhos sozinhos. Felisbela Bernardo optou por ficar em Portugal, porque a zona que esperava o marido, na Guiné, era um dos palcos de guerra mais violentos.

A amargura do 16 de Março e a felicidade do 25 de Abril
Dúnia Palma avisou logo a abrir a sua intervenção que não tinha uma história tão emocionante para contar. Relatou episódios da sua vida e do seu apego à liberdade, que já vinha de família. Recordou como episódio de má memória para ela e para o marido o golpe militar falhado de 16 de Março de 1974. O então jovem oficial de Cavalaria António Palma foi um dos destacados para acompanhar a prisão dos camaradas revoltosos. “Foi o dia mais triste da sua carreira militar”, contou. O 25 de Abril chegou pouco tempo depois, quando o marido estava de férias antes de embarcar, a 28 de Abril, para uma comissão em Moçambique que nunca viria a cumprir. Dúnia Palma estava grávida de sete meses e suspeitava que os militares preparavam alguma coisa. Às 03h00 da madrugada, o marido despertou-a para dizer: “já saíram!”. Era a coluna da EPC comandada por Salgueiro Maia.
Nessa mesma madrugada, Natércia Maia também passou uns minutos pelas brasas mas estava em posse de mais sinais de que algo em grande ia acontecer. O marido, o capitão Fernando Salgueiro Maia, comprara cigarrilhas - ele que só fumava em ocasiões especiais - e antes de rumar ao quartel dissera-lhe para estar atenta às senhas na rádio. Natércia viu passar a coluna militar rumo a Lisboa pelos buracos dos estores de casa. No dia 25 dirigiu-se normalmente ao liceu onde era professora mas o director disse-lhe que nesse dia não havia aulas. Foi para casa, ligou a televisão e entretanto surgiram as primeiras imagens do Largo do Carmo, com Salgueiro Maia empunhando um megafone. “Tinha que ser”, pensou com seus botões. No dia 26 foi ter com ele a Lisboa para o abraçar.

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