Sociedade | 30-05-2024 11:44

Os políticos portugueses são uns imbecis

Os políticos portugueses são uns imbecis
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Dia 15 de Junho começam no Rio de Janeiro as comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões. O local é o Real Gabinete Português de Leitura, a terceira biblioteca mais bonita do Planeta, fundada e construída por emigrantes portugueses em 1837. É lá que está um dos maiores e mais valiosos acervos da literatura portuguesa. Gilda Santos lamenta que o apoio do governo português seja quase nulo, num país que reúne em congresso com regularidade 500 professores de literatura só para discutirem a cultura portuguesa.

O MIRANTE voltou recentemente ao Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, onde Gilda Santos é uma peça chave da actual direcção da instituição, num trabalho que já desenvolve, em várias frentes, há mais de três dezenas de anos. Oportunidade para revermos as salas principais do RGPL, onde se apresentam as memórias e os livros dos principais escritores e políticos dos últimos séculos, mas também para percebermos como o acervo cresceu nos últimos anos, e como a instituição está preparada para continuar a merecer o estatuto que lhe permite receber as obras do “depósito legal”. Mas o facto do RGPL ser uma instituição única no mundo a guardar a memória da cultura portuguesa e dos seus maiores autores de sempre, nem isso lhe vale para ter, como merecia e merece, o apoio do Governo Português. Gilda Santos não é de modas e em reposta a um comentário sobre a presença no Rio de Janeiro, na altura da nossa visita, de Magui Corceiro, actriz e modelo, Gilda brinca com as palavras e diz que “os únicos portugueses que não descobrem o Brasil são os que estão ligados à cultura. Não descobriram até agora que investir na cultura portuguesa no Brasil é o grande achado, é quase como voltar aos tempos antigos. A História de Portugal, a cultura de Portugal, só se perpetuará no dia em que os portugueses ligados à cultura resolverem investir no Brasil. Há um bando de gente de universidades de norte a sul do Brasil que estuda a cultura portuguesa, e os diabos dos políticos portugueses não ajudam, não apoiam, são uns imbecis”. Certamente que um dia destes alguém vai ajudar a mudar a actual situação, acrescentamos em jeito de pergunta; Gilda Santos não se cala: “No final de Julho do ano passado realizou-se um congresso no interior de São Paulo, numa cidade pequena chamada São Carlos. Quem é que conhece São Carlos? Ninguém. Mas foi um professor de lá que decidiu levar um congresso da associação brasileira de professores de literatura portuguesa para a pequena cidade. 500 pessoas. Quando é que em Portugal se consegue realizar um congresso com 500 professores de literatura? No Brasil é normal. Em S. Paulo já realizámos com mais de 600 professores, uma semana inteira de congresso a discutir a literatura em portuguesa. Há notícias que isso também se faz em Oxford, nos EUA, mas são cerca de uma centena. A verdade é que Portugal não percebe que a continuidade da língua, da cultura, e da História de Portugal está no Brasil. Mas eles não investem. O Instituto Camões fica criando cátedra na Estónia, na Letónia, no Báltico, onde existem meia dúzia de gatos pingados a falar português. O que é isso para a cultura portuguesa? São uns imbecis, fico com vontade de torcer o pescoço às pessoas da cultura em Portugal, por que são realmente imbecis, não encontro outra palavra mais simpática para classificar a política cultural dos políticos portugueses dos últimos anos”.

Uma Biblioteca que é um mundo

Em 2014 revista Time indicou o Real Gabinete Português de Leitura como a quarta biblioteca mais bonita do mundo, exatamente nas vésperas dos grandes eventos que aconteceram na cidade do Rio de Janeiro, nomeadamente os Jogos Olímpicos e o campeonato do mundo de futebol no Brasil. A classificação e a notícia criaram uma influência enorme. Em 2022 o Financial Times reforçou a fama ao classificar a biblioteca como a terceira mais bonita do planeta. Hoje o Real Gabinete Português de Leitura tem uma média de mil visitantes por dia. Gilda Santos confirma que o RGPL é a associação portuguesa mais antiga do Brasil e ao mesmo tempo a mais antiga biblioteca da América Latina, fundada por emigrantes, em funcionamento desde a sua fundação a 14 de maio de 1837. Confirma ainda que a instituição tem em arquivo a acta da reunião fundadora do RGPL e notícias sobre livros adquiridos nessa altura, e muito material sobre a comemoração do tricentenário da morte de Luís Vaz de Camões, em 1880, quando se iniciou a construção da atual sede, assim como registos sobre os materiais usados no edifício e sobre o seu mobiliário e decoração.

Gilda Santos Fala com o orgulho da preciosa coleção camiliana e de a não menos preciosa colecção camoniana, em que se inclui uma edição de Os Lusíadas de 1572, assim como um grande número de obra raras publicadas a partir de 1520.

O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro deve ser ainda o monumento com mais significado na diáspora portuguesa e, para além de ser uma instituição que soube modernizar-se, continua a promover debates à volta da cultura luso brasileira. No dia 10 de Junho deste ano começam no RGPL as comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões com um programa que só terminará em 10 de Junho de 2025.

Gilda Santos, uma brasileira com sangue quente português

Gilda Santos nasceu numa família de classe média e desde cedo mostrou um grande interesse pelo mundo académico e pelas artes. Obteve Graduação em Literaturas de Língua Portuguesa em 1974, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e concluiu o mestrado na mesma Universidade em 1980. Como professora universitária, Gilda Santos dedicou-se ao ensino, mas também à pesquisa, explorando temas como inclusão educacional, métodos de ensino inovadores e psicologia da aprendizagem. É uma figura respeitada no campo da educação, devido a uma abordagem humanista e na aposta do potencial de cada aluno para aprender e crescer.

Gilda Santos dedicou uma parte da sua vida ao estudo da literatura portuguesa, mergulhando nas obras de escritores como Fernando Pessoa, José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen. Eduardo Lourenço e Jorge de Sena, entre outros.

Além da literatura, Gilda é uma estudiosa da História de Portugal e suas tradições. Explorou os eventos marcantes que moldaram o país ao longo dos séculos, desde os tempos dos descobrimentos até os desafios e conquistas da contemporaneidade. A sua pesquisa incluiu o estudo das artes, arquitetura, música e folclore portugueses, enriquecendo sua compreensão e apreciação da cultura lusitana.

A professora Gilda Santos é igualmente uma defensora da língua portuguesa, trabalhando para promover seu ensino e valorização. Gilda Santos representa um exemplo de como a paixão pela cultura portuguesa pode transcender fronteiras geográficas, enriquecendo a vida pessoal e profissional ao mesmo tempo que promove o entendimento e a cooperação entre o Brasil e Portugal.

Gilda Santos tem uma grande ligação afectiva e familiar a Portugal, que visita com muita regularidade, o que faz dela uma das maiores embaixadoras da cultura portuguesa no Brasil e no mundo.

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