Sociedade | 02-06-2024 12:00

Barracas no Sobralinho dão tecto a dezenas de famílias e são perigo para a saúde pública

Barracas no Sobralinho dão tecto a dezenas de famílias e são perigo para a saúde pública
TEXTO COMPLETO DA EDIÇÃO SEMANAL
Para Afonso Pereira, da associação Assistir, o bairro do Clarimundo deve ser encarado como uma situação urgente

Há quase 40 anos que várias pessoas de etnia cigana vivem em barracas e habitações precárias sem o mínimo de condições de salubridade no Sobralinho, mesmo ao lado de uma das auto-estradas mais movimentadas do país, a A1, escondidas entre caniços e árvores num cenário terceiro-mundista.

É numa barraca precária e suja, onde o telhado é seguro com o peso de pneus e outros materiais, sem esgotos nem água e com electricidade apenas quando o gerador funciona, que Maria José, de etnia cigana, vive em condições miseráveis há 36 anos no Bairro do Clarimundo, no Sobralinho, concelho de Vila Franca de Xira. Ela e a família já pediram ajuda a quatro presidentes de câmara: Daniel Branco, Maria da Luz Rosinha, Alberto Mesquita e Fernando Paulo Ferreira. Até hoje, diz, só Maria da Luz Rosinha foi ao bairro conhecer as condições de insalubridade em que a comunidade e ninguém conseguiu resolver o problema. “Vamos buscar a água a um chafariz e trazemos em bidões para aqui. As necessidades fazemos em baldes e no meio do mato quando precisamos. Não temos condições nenhumas aqui”, lamenta Maria José a O MIRANTE.
A vizinha, Josefa Caldeira, garante que há dias encontrou sete ratos a fazer ninho numa das panelas onde cozinha. Há baratas e pulgas em quantidade. As preocupações com a insalubridade do local adensam-se porque há bebés e crianças a residir naquele local sem o mínimo de condições. Sempre que chove também cai água dentro das barracas. “Tomamos banho em alguidares e temos vergonha da nossa situação”, lamenta outra mulher.
No bairro do Clarimundo vivem três dezenas de pessoas, algumas trabalham, outras vão trabalhando quando a oportunidade surge e outras vivem de apoios e rendimentos sociais. A comunidade diz sofrer na pele a discriminação de serem ciganos na hora de procurar trabalho. “O meu filho já por cinco vezes foi a entrevistas de emprego e dizem sempre que já têm as posições ocupadas. Ninguém quer dar emprego a ciganos. A culpa não é nossa, nós queremos um futuro melhor, não fazemos mal a uma mosca mas não conseguimos”, lamenta Maria José.
A comunidade garante que se inscreve regulamente nos concursos de habitação social do município mas nunca passa de suplente. A última vez que uma família do bairro conseguiu casa entregue pela câmara foi há mais de uma década e os moradores questionam se as verbas do programa Primeiro Direito serão agora usadas, ou não, para resolver de vez a falta de casa condigna. Quem ali vive não esconde a desilusão de poder chegar a velho e vir a morrer em condições indignas, dizendo estarem entregues à sua sorte.

“Não faz sentido fazer política sem erguer os pobres”
Em Janeiro deste ano foi criada em Alverca do Ribatejo a Assistir, uma associação que tem como objectivo dar apoio a bairros carenciados do país, dando também às comunidades que neles vivem ferramentas para se poderem integrar e poderem-se candidatar a apoios sociais. Afonso Pereira, presidente da associação, confessa a O MIRANTE ter ficado chocado com o estado do bairro do Clarimundo. “Já ajudámos bairros na Costa da Caparica e em Lisboa mas não sabíamos que a situação aqui era tão grave. Ficámos chocados assim que entrámos aqui pela primeira vez. Este é um dos casos mais graves que já encontrámos”, garante Afonso Pereira, que vive no bairro da Chasa em Alverca e está a estudar Antropologia.
A Assistir está actualmente a efectuar um levantamento de todos os bairros de barracas existentes no concelho de Vila Franca de Xira. “Não basta construir as casas, é preciso ajudar a reintegrar esta comunidade. Para nós não faz sentido fazer política sem erguer os pobres. Primeiro acaba-se com a pobreza e depois então faz-se passadiços e jardins novos no concelho. Não é aceitável que este assunto se arraste mais tempo e é preciso colocá-lo na ordem do dia”, defende Afonso Pereira.
Uma primeira medida que, para o dirigente, pode ajudar a população do bairro é a instalação de sanitários portáteis, pelo menos para evitar que as pessoas continuem a fazer as necessidades a céu aberto. “Estamos perante um problema de saúde pública. Não é compreensível nem faz sentido que às portas de Lisboa, num dos distritos onde mais se investe em habitação, um caso gravíssimo como este ainda não tenha sido resolvido”, critica.

As explicações da câmara
A Câmara de Vila Franca de Xira confirma ter conhecimento da existência de famílias a residir no bairro e garante que está empenhada em proporcionar acompanhamento social e prestar esclarecimentos e informações aos cidadãos sobre as respostas sociais e alternativas habitacionais a que se podem candidatar. O município lembra que muitos já foram realojados nos últimos anos através de concursos para entrega de habitações mas lamenta que as construções precárias voltem depois a ser ocupadas por membros descendentes de agregados já realojados, que, quando se autonomizam, voltam a viver naquele local com as suas famílias. Já sobre a perspectiva de haver ou não realojamento para aquelas pessoas num futuro próximo, o município não presta qualquer informação.

A solução é trabalhar

As barracas do Sobralinho também foram notícia no início de Maio depois de um morador do bairro da Improsit, situado ao lado do bairro do Clarimundo, onde também vivem quase duas dezenas de pessoas, ter ido a reunião de câmara confrontar o presidente do município de Vila Franca de Xira sobre a falta de soluções para os problemas de insalubridade ali existentes. Fernando Paulo Ferreira respondeu ao morador que, tendo em conta a sua idade e capacidade física, faria sentido que ao invés de receber subsídios fosse trabalhar.
“Não é possível que uma pessoa jovem, com capacidade e com educação, não trabalhe. Tem mesmo de trabalhar e nós vamos ajudá-lo a fazer isso. É preciso para as pessoas resolverem os seus problemas tomarem passos, muito simples, que a maior parte das pessoas tem de tomar: ou ir trabalhar ou ir para cursos profissionais que o habilitem a trabalhar e é isso que conto que faça. Tem muito que contribuir para o país e o seu agregado familiar”, atirou o autarca. O presidente de VFX informou também que está a ser feito um levantamento dos bairros de barracas existentes no concelho e avisou: “Qualquer barraca que surja será deitada abaixo, não é possível construir barracas nem habitações provisórias no nosso concelho e estamos em cima disso”, disse.
Quando o morador começou a gritar para o autarca exigindo respostas, Fernando Paulo Ferreira interrompeu a reunião não sem antes lembrar ao cidadão cigano que “com a mesma energia com que está aos gritos” tem muita energia para ir trabalhar, pedindo-lhe que “não se assuste com o trabalho” porque, lembrou, “toda a gente trabalha”, recusando a ideia de estar a ser xenófobo para com a comunidade.

À margem/opinião

O bom exemplo de Tomar

O problema dos bairros do Clarimundo e da Imporsit no Sobralinho, concelho de Vila Franca de Xira, está por resolver há mais de três décadas e é impossível não pensar que quem ali vive tem razões para pensar que nunca mais vai ver o seu problema resolvido. O próprio município de Vila Franca de Xira não dá qualquer previsão para quando deixará de haver gente a viver em condições precárias. Quatro presidentes de câmara já tiveram o assunto em mãos, mas nunca o conseguiram resolver. Um bom exemplo de um município ribatejano que conseguiu com sucesso resolver um problema semelhante foi a Câmara de Tomar, que em Agosto do ano passado completou um projecto social histórico iniciado em 2013 e que permitiu acabar, em apenas dois mandatos, com o famoso Bairro do Flecheiro, onde viviam cidadãos em 60 barracas com condições indignas. Ao todo foram 250 pessoas que foram realojadas em habitações condignas, provando que quando há vontade e empenho não há problema que não tenha solução.

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