Utentes com mobilidade reduzida impedidos de apanhar comboio na Póvoa de Santa Iria

Os elevadores da estação de comboio da Póvoa de Santa Iria continuam avariados, deixando os utentes com mobilidade reduzida sem acesso às plataformas de embarque e à zona ribeirinha.
O caso de Maria Letra, mãe de um jovem tetraplégico, ilustra o impacto da falta de acessibilidades. A Infraestruturas de Portugal prometeu resolver o problema este ano mas afinal só em 2025.
Os elevadores da estação de comboio da Póvoa de Santa Iria continuam sem funcionar. Os utentes que se deslocam de cadeira de rodas não conseguem aceder às plataformas de embarque nem atravessar a linha que dá acesso à zona ribeirinha da cidade. É o caso do filho de Maria Letra, que reside no Bairro dos Avieiros e é tetraplégico. Com os elevadores sem funcionar e com o túnel subterrâneo só com escadas, tem de ir até à ponte que dá acesso à Estrada Nacional 10 para poder deslocar-se para outras zonas da Póvoa de Santa Iria.
Segundo Maria Letra, a cadeira de rodas teve de ir para reparação por causa da chuva que apanhou. Por causa das autorizações da Segurança Social, a quem o pedido de reparação tem de ser feito e fundamentado, o filho fica meses em casa, acamado, até a cadeira estar pronta. É o que acontece de momento em que a cadeira foi para o Porto para ser reparada. “Já reclamei por telefone mas não fazem caso, entretanto enviei por e-mail a reclamação. O meu filho precisa de ir à farmácia e não pode, os elevadores estão constantemente avariados. Como ele estão outros utentes que precisam deslocar-se de comboio. Porque não colocam equipamentos novos como fizeram em Azambuja?”.
O MIRANTE já tinha questionado, em Maio, a Infraestruturas de Portugal (IP), responsável pela manutenção das instalações da estação de comboio, que na altura remeteu para o segundo semestre de 2024 a intervenção de modernização nos três elevadores da estação, de modo a melhorar substancialmente o seu funcionamento e reduzir o número de avarias. A semana passada, a IP disse ao nosso jornal que afinal a intervenção está prevista para o início de 2025, após a conclusão da intervenção que actualmente está em curso nos elevadores da estação de Azambuja.
Escadas rolantes vandalizadas
O cenário de desmazelo e degradação na estação de comboio da Póvoa não é novo e tem sido notícia recorrente em O MIRANTE. Apesar de ser utilizada diariamente por milhares de pessoas, a estação tem as escadas rolantes avariadas, lixo, sujidade, casas de banho encerradas, relógios e ecrãs avariados e cheiro intenso a urina de quem usa as paredes como urinol.
A IP lamenta que as escadas rolantes de boa parte das estações da área suburbana sejam alvo de inúmeros actos de vandalismo e de utilização abusiva, provocando a inoperacionalidade dos equipamentos e, consequentemente, prejudicando as acessibilidades aos utentes. “A IP procede às necessárias reparações com a maior brevidade possível, todavia, em resultado da extensão dos danos que requerem a substituição de diversos componentes, em algumas ocasiões a reactivação dos elevadores torna-se mais demorada e não é possível com a rapidez que desejaríamos”, diz a IP. A empresa pública garante ainda que as acções de limpeza são realizadas de forma regular, tendo a última decorrido entre os dias 4 e 7 de Outubro.
Câmara de VFX disponível para assumir manutenção das estações do concelho
Em Julho, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira exigiu uma melhor manutenção das estações de comboio do concelho por parte da IP e manifestou a sua disponibilidade ao ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, caso este queira passar a responsabilidade da manutenção dessas instalações directamente para a autarquia. “A IP tem demonstrado uma incapacidade para realizar a manutenção das estações ferroviárias. Chamamos sempre a atenção para a limpeza e manutenção, mas também dos elevadores que estão sistematicamente avariados, o que faz com que seja um suplício andar de comboio para quem tem dificuldades de mobilidade ou precisa de carregar carrinhos de bebé ou bicicletas. É quase impossível andar de comboio”, criticou o autarca.
Fernando Paulo Ferreira disse que em reunião com o ministro ficou a saber que o Governo está a estudar a possibilidade de protocolar com os municípios a manutenção das estações dentro do seu território. “Vai-nos dar mais trabalho, temos de estudar as verbas que virão, mas não tenho dúvidas que será mais fácil para nós intervir directamente. É mais fácil para as pessoas falarem directamente connosco do que com a IP, que nem sabem quem é”.
À margem/opinião
Quem paga é o mesmo de sempre
Não é admissível que uma estação de comboio usada diariamente por milhares de pessoas se encontre como a estação da Póvoa de Santa Iria. Sabemos que o vandalismo é uma realidade mas sabemos também que o vandalismo não se combate com o esvaziamento de pessoal das estações, como fizeram na Póvoa em que as bilheteiras movimentadas deram lugar a máquinas automáticas. Não fosse o quiosque que está dentro da estação e o cenário era pior, porque as câmaras de vigilância não metem medo aos vândalos.
A juntar a este cenário ainda acontecem situações como a que aconteceu na manhã de 15 de Outubro, digna dos apanhados. Anunciaram que o comboio que ia para Lisboa-Santa Apolónia, que estava previsto entrar numa das linhas, afinal ia dar entrada noutra linha. Lá tiveram os utentes de subir as escadas e trocar de linha. Os mais vagarosos ainda estavam a descer as escadas para a plataforma de embarque quando foi anunciado que afinal o comboio ia parar noutra linha. Foi ver tudo a correr e quem não teve pernas acabou por perder o comboio. Querem que as pessoas deixem os carros em casa mas com um cenário destes, a juntar às dezenas de greves, é caso para dizer que quem paga é sempre o mesmo…o “Zé Povinho”.