Sociedade | 03-04-2025 10:00

Hospital VFX tem mais de uma centena de utentes internados em macas por falta de camas

Hospital VFX tem mais de uma centena de utentes internados em macas por falta de camas
Utentes têm promovido várias manifestações à porta do Hospital Vila Franca de Xira exigindo melhor funcionamento da unidade

Sindicato dos Enfermeiros Portugueses e Ordem dos Enfermeiros dizem que a situação é gravíssima e que a actual administração da Unidade Local de Saúde Estuário do Tejo deve tomar medidas mitigadoras da situação, que consideram preocupante.

Nas salas de observação das urgências do Hospital Vila Franca de Xira estão internados em macas mais de uma centena de doentes por falta de camas para os receber nas enfermarias. Um cenário terceiro-mundista na unidade de saúde que a Ordem dos Enfermeiros e o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) dizem ser um caso gravíssimo e muito preocupante, exigindo a tomada de medidas rápidas que acabem com o problema.
Marco Aniceto, dirigente sindical do SEP e enfermeiro no hospital, confirma a O MIRANTE este cenário que se está a viver dentro das urgências, avisando que as condições de trabalho são más naquele serviço e que se trata de um problema recorrente, lembrando que há pelo menos dois anos que o sindicato vem alertando para a situação. “Antes da pandemia estávamos com um atendimento médio nas urgências de 200 utentes por dia, passando para o dobro actualmente. Tem de se fazer alguma coisa”, apela. As macas, além de soluções temporárias desconfortáveis, também não garantem privacidade aos utentes.
Recentemente, também Dora Franco, presidente da secção sul da Ordem dos Enfermeiros, veio a público mostrar-se perplexa e preocupada com a quantidade de utentes internados em macas naquele hospital, tendo já participado o caso à direcção executiva do Serviço Nacional de Saúde e ao bastonário da sua ordem, considerando urgente a tomada de medidas que salvaguardem os utentes e a qualidade do seu atendimento.
Segundo a ordem e o SEP, os enfermeiros afectos à urgência são 49 quando deviam ser, no mínimo, 200, para que um bom serviço fosse prestado. Tanto Dora Franco como Marco Aniceto consideram que a actual situação representa um risco tremendo para os utentes, ficando “amontoados” em macas. “Uma forma de prevenir que estas situações aconteçam passa por reforçar os cuidados de saúde primários, nos centros de saúde, para evitar que doenças que podiam ser acompanhadas em primeira linha se agudizem e obriguem os utentes a ir às urgências”, considera Marco Aniceto ao nosso jornal.
Já a presidente da secção sul da Ordem dos Enfermeiros veio defender também que o conselho de administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Estuário do Tejo tome medidas adicionais para resolver o problema, incluindo a activação de planos de contingência e suplementos remuneratórios para os profissionais, para que os enfermeiros não deixem de concorrer aos concursos lançados pela ULS.

Hospital fala em excesso de casos sociais
Questionado por O MIRANTE sobre o assunto, a ULS Estuário do Tejo explica que a urgência do Hospital VFX está sob pressão há várias semanas devido às patologias comuns nesta época do ano e lembra que a urgência tem recebido doentes com origem noutras áreas geográficas, o que também contribui para um aumento da pressão. “Os utentes fora da área geográfica desta ULS representam desde o início do ano cerca de 10% do total dos doentes assistidos na urgência geral de adultos”, explica essa entidade.
A ULS fala ainda de uma elevada percentagem de casos sociais entre os internamentos no hospital, dificultando a fluidez dos internamentos com origem em episódios de urgência. “Desde o início do ano já foram registados cerca de 80 casos sociais - doentes com alta clínica, mas aos quais não foi possível dar alta administrativa -, estando neste momento internados cerca de 30 desses casos”, acrescenta a unidade de saúde. Ainda assim, garante, têm sido desenvolvidas iniciativas para resolver, por meios próprios, várias dessas situações para permitir libertar camas hospitalares sempre que possível, incluindo em parceria com a Misericórdia de Vila Franca de Xira. A ULS admite que a situação tem obrigado a um esforço grande dos profissionais que trabalham na urgência e confirma que apesar dos sucessivos concursos para contratação de profissionais, os mesmos “nem sempre resultam no número de contratações desejáveis”.

À margem

Quem administra o hospital de VFX consegue dormir descansado?

O que se passa no hospital de Vila Franca de Xira merece uma queixa nos tribunais europeus por acusação de crueldade.

Os jornalistas da redacção de o MIRANTE não têm poupado nas palavras nem os editores têm poupado papel para denunciarem os casos tristes que se passam no Hospital Vila Franca de Xira, que foi em tempos uma referência nacional. Com o fim da gestão publico/privada, e com uma administração que está longe de ter uma política de informação transparente, a instituição tornou-se num caso grave que devia chegar ao Parlamento Europeu e aos tribunais do direitos humanos. Um hospital que tem uma centena de doentes internados instalados em macas por falta de camas não é um hospital, mas um hospício a crer no sofrimento que só pode ser comum, embora diferenciado, entre os doentes, médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar que ali trabalha.
O Governo de Luís Montenegro tem aqui uma boa oportunidade de ganhar votos nas próximas eleições, mas os dirigentes dos outros partidos também se tivessem a coragem de irem para a porta do Hospital exigir que a situação que se vive no Hospital pudesse ser verificada in loco pela comunicação social e, quem sabe, pela maioria dos familiares dos doentes que certamente também sofrem em silêncio por não lhes puderem acudir no sofrimento.
A redacção de O MIRANTE não tem nada de pessoal contra a actual administração do Hospital VFX, mas há aqui um caso de falta de Humanidade que ultrapassa tudo o que dirigentes responsáveis e empenhados deviam permitir à tutela. Casos como este, que certamente vão causar mortes prematuras a pessoas que não estavam condenados à morte antes de adoecerem, deviam provocar a demissão imediata da administração, ou uma contestação pública que obrigasse o Governo a medidas de emergência. Se não acontecer nada daquilo que é esperado, só podemos concluir que estamos a bater no fundo, e que o governo português merece responder nos tribunais europeus por acusação de crueldade.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal

    Edição nº 1710
    02-04-2025
    Capa Médio Tejo
    Edição nº 1710
    02-04-2025
    Capa Lezíria Tejo
    Edição nº 1710
    02-04-2025
    Capa Vale Tejo