Sociedade | 30-08-2025 18:00

Dependência dos videojogos aumenta o número de jovens à procura de ajuda

Dependência dos videojogos aumenta o número de jovens à procura de ajuda
Luís Simões, psicólogo com consultório em Santarém trabalha também no Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências - foto arquivo O MIRANTE

Jogar horas a fio e perder o interesse em tudo o que se costumava gostar pode ser apenas o sintoma de um problema maior que precisa ser tratado, alerta o psicólogo especialista Luís Simões que regista cada vez mais pedidos de ajuda. A maior parte chega através dos pais de crianças e jovens com dependência em videojogos.

Quando se joga um videojogo geram-se circuitos neuronais que vão originar “picos de prazer e de bem-estar, como quando estamos apaixonados”. Um gatilho fácil sobretudo para os mais vulneráveis que rapidamente passam a jogar cada vez com mais regularidade, até tudo o que até então parecia interessante ao seu redor deixar de o ser, alerta o psicólogo Luís Simões, a propósito do Dia Internacional do Gamer, que se assinala a 29 de Agosto. “Nos casos mais graves há jovens que deixam de fazer as refeições em família, comem no quarto”, sentem “privação quando não estão a jogar”, deixam de praticar desporto e, no caso de crianças, de brincar. Há crianças, alerta, a desenvolver desde cedo uma dependência às novas tecnologias. Segundo um estudo do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, para o qual Luís Simões trabalha, 39% iniciou a utilização da Internet antes dos 10 anos. “A natureza da criança é brincar, mas o sistema à volta está sempre com fome”, aliciando-a para outros caminhos.
Em declarações a O MIRANTE o especialista com consultório em Santarém diz que “os pais trabalham cada vez mais, nem que seja só para ter um carro melhor” e que deixaram de ter “tempo para fazer actividades ao ar livre com os miúdos”, levando os “computadores da empresa para casa porque à noite ainda têm que responder a emails”. É, por vezes, na sequência deste cenário, que vem a solução fácil: pôr à disposição da criança um smartphone, um tablet, um computador. Luís Simões explica que “o risco de vir a ter comportamentos aditivos e possível evolução para uma dependência, não é igual para todos os jovens”, havendo “factores-chave relacionados com a pessoa, com o contexto e com o comportamento”. Mas, reconhece, “os videojogos podem ter a função de o jovem se adaptar ao ambiente pouco saudável” que se vive na sua casa.

Maioria dos pedidos de ajuda partem dos pais
O psicólogo nota que “há cada vez mais pedidos de ajuda” que, “na maioria dos casos” lhe chegam através dos pais. No mesmo sentido vai o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) que registou um crescimento de 172% nos pedidos de acompanhamento entre 2020 e 2024, reflectindo uma maior consciência sobre os riscos associados a esta dependência de videojogos. “Nas dependências com substância como álcool, drogas ainda há campanhas de prevenção. Nos videojogos não há nada”, diz, sublinhando que “sem ajuda, é muito difícil quebrar o ciclo” da dependência.
Luís Simões recorda o caso de um paciente, na casa dos 20 anos de idade, que trabalhava num call center e vivia com os pais. “Começou por só jogar aos fins-de-semana, mas rapidamente passou a jogar diariamente” e “tudo foi ficando para trás. Deixou de sair com amigos, de fazer desporto. Começou a perder a noção das horas de jogo, ficava pela noite dentro, acordava cansado para ir trabalhar”. E embora não jogasse a dinheiro (gambling) chegava a gastar 300 euros por mês porque queria ter sempre as últimas novidades. “Não conseguia controlar o impulso. Sempre que saía uma novidade, ia comprar. Depois, vinha a culpa e, para não a sentir, jogava mais. O ciclo estava instalado”.
Desde 2018 que a Organização Mundial de Saúde reconhece a dependência do jogo como uma doença. E o primeiro passo para o tratamento, refere o psicólogo, “é o reconhecimento de que existe um problema”. O que acontece, adverte, é que muitas vezes “a dependência não é o problema principal”, mas “o sintoma do sofrimento, do vazio, da solidão, das relações sem qualidade” e se nos focarmos só no sintoma, o problema continua lá”. Falando por experiência dos pacientes que acompanha, no caso dos jovens, os pedidos raramente vêm dos próprios. É, por isso, “importante a família e os amigos mostrarem preocupação, sem forçar, mas estarem disponíveis para caminhar lado a lado e ir incentivando a procura de ajuda profissional”. Sem proibir, porque, “a proibição tem um efeito contrário ao esperado. As coisas não vão lá à força. Há pais que desligam a ficha do computador de forma abrupta, não havendo diálogo, o que cria uma tensão. É importante negociar o período de jogo, por exemplo” e os pais “dominarem a linguagem” utilizada pelos filhos para poderem dizer, por exemplo, que se está perto da hora de jantar não vão iniciar um “multiplayer”- por envolver vários jogadores que podem ficar prejudicados se houver saída desse elemento a meio do jogo e depois o excluírem em situações futuras.
Destacando que não se deve “diabolizar” os videojogos até porque estes, “quando usados com moderação, podem trazer benefícios na aprendizagem do inglês, na resolução de problemas, no trabalhar em equipa”, diz que “a supervisão parental é fundamental, tanto para o número de horas que o jovem passa frente ao ecrã como para os conteúdos”. Uma estratégia, sugere, pode passar por “o pai também jogar, mostrar interesse e sentar-se a jogar com o filho. Fica a saber o que ele joga, acaba por, conseguir supervisionar de uma forma mais lúdica”.

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