Onda solidária em Benavente para ajudar 'Bila' a voltar a andar
Sarbjit Singh Sandhar, a quem Benavente chama Bila, perdeu as duas pernas e as pontas dos dedos após uma pneumonia grave. Desde então, tem a seu lado a mulher e a ajuda da comunidade para conseguir as próteses que lhe devolvam autonomia para voltar a ter uma vida normal.
O sol de final de tarde cai sobre um terreno agrícola nos arredores de Benavente quando encontramos Sarbjit Singh Sandhar, 42 anos, e a mulher, Jaspal, de 40 anos. O casal, Bila e Jessy, para os amigos, espera-nos à porta da pequena casa térrea onde habitam. Estendem-nos sumos e bolachas. “É a nossa cultura”, dizem com um sorriso tímido. Ao lado, Clara Branco e Filomena Borges acompanham a visita. São as duas mulheres que deram o pontapé de saída para a onda de solidariedade que hoje envolve grande parte do concelho de Benavente.
Sarbjit, a quem todos tratam por Bila, vive há dez meses uma realidade que nunca imaginou. Uma pneumonia grave, agudizada pela diabetes, em Janeiro deixou-lhe um dos pulmões em colapso e obrigou-o a estar ligado à máquina ECMO no Hospital de São José, em Lisboa. Sobreviveu, mas desenvolveu gangrena nos membros. Para lhe salvar a vida, os médicos amputaram-lhe, em Fevereiro, as duas pernas e removeram as pontas dos dedos das mãos. Esteve em risco de perder a vida.
A alta hospitalar data de 15 de Março, mas a batalha está longe de terminar. A mão esquerda ficou mais funcional; a direita continua muito afectada e exigirá novas cirurgias. O que mais o angustia agora é a impossibilidade de caminhar. “Quero voltar ao trabalho”, diz, num português simples. “Quero ser útil. Não quero ficar preso a uma cadeira de rodas”, desabafa.
O casal vive em Portugal desde 2019, vindo da região de Punjab, na Índia. Jessy, 40 anos, trabalha para a Junta de Freguesia de Benavente a auxiliar nos cemitérios de Foros da Charneca e Benavente, nos campos de futebol e nos parques infantis. É conhecida pelo sorriso fácil e simpatia. “As pessoas gostam muito dela”, resume Filomena Borges. Quando a empresa onde trabalhava saiu do concelho, a junta contratou-a sem hesitar. Fala num português que se percebe, melhor do que o marido, e tem sido crucial na recuperação de Bila.
O problema agora é outro. Conseguir as próteses. O valor inicial estimado de 6.500 euros é insuficiente. Só as duas próteses de pernas custam cerca de 7.700 euros. As meias de silicone para os cotos, um material indispensável, somam mais 2.600 euros. “Estamos a falar de perto de dez mil euros”, explica Clara Branco. “A Segurança Social pode comparticipar, mas ninguém sabe quando. E ele precisa delas já”, afirma.
Até 25 de Novembro, a campanha no GoFundMe contabilizava 1.811 euros. Somando a rede de doações locais, o montante ronda os cinco mil. O objectivo é chegar rapidamente ao valor total. “Em mês e meio nunca pensámos angariar tanto”, confessam Clara e Filomena. Mas a luta continua, pois, ainda falta outra metade para alcançar a meta.
Os donativos podem ser feitos via GoFundMe, através de Clara ou Filomena, ou directamente para a conta de Sarbjit (IBAN: PT50 0033 0000 4559 3157 3510 5) e também é possível ajudar no Raio-X da Santa Casa da Misericórdia de Benavente, instituição onde Bila é funcionário, apesar de estar de baixa. “Quando perceberam o que ele estava a passar, os colegas, de uma forma muito discreta, fizeram uma colecta”, contam.
A primeira ajuda nasceu do afecto. “Eles criam empatia”, explica Filomena Borges. “São pessoas trabalhadoras, sempre bem-dispostas. É difícil não gostar deles”. Antes da doença, viviam num quarto alugado, com escadas impossíveis para alguém em cadeira de rodas. Mudaram-se para uma casa térrea e o senhorio ofereceu a renda. Mesmo assim, o casal insiste em pagar a renda, especialmente agora que um primo veio da Índia e conseguiu emprego.
“O SNS salvou-lhe a vida”
Na casa ergue-se um pequeno alpendre para que Bila possa ter também um espaço ao ar livre. Foi também Jessy quem comprou a primeira cadeira de rodas. “Não sabia que podia ter uma de graça pela Segurança Social. Não podia vê-lo sair do hospital e ficar numa cama”, conta.
Se estivessem na Índia, admitem que a situação poderia ser mais delicada. “Os hospitais públicos não têm condições”, explica Jessy. “No privado, o tratamento que ele teve aqui custaria uns 60 mil euros”. Em Portugal, apesar de tudo, sentiram-se sempre amparados. “O SNS salvou-lhe a vida”, afirma Filomena Borges.
Sarbjit trabalhou numa fábrica, depois três anos num restaurante e, mais recentemente, na Santa Casa da Misericórdia como ajudante de cozinha. Quer regressar. “Na cozinha não é possível ajudar sentado”, diz. O casal sente Benavente como casa. Não pensa regressar à Índia, excepto para visitar a família. Esperam um dia ter filhos, sonho adiado por circunstâncias que a vida não permitiu, primeiro em Inglaterra, depois em Portugal.
Depois de devolver a mobilidade ao marido, Jessy tem um outro sonho guardado. Quer tirar a carta de pesados. Até lá, há um objectivo comum: pôr Bila a caminhar outra vez. “Ele não merece esperar dois ou três anos por próteses”, resume Filomena. “Se cada um ajudar um pouco, chegamos lá”, conclui.


