O dia em que Aguiar Branco viveu horas de tensão na estação do Entroncamento
O presidente da Assembleia da República pode não andar muito de comboio, mas tem uma história na estação do Entroncamento de que nunca se esqueceu em 50 anos. O país estava numa grande confusão e Aguiar Branco queria ir para França, só que teve de esperar quase um dia inteiro na estação do Entroncamento, onde os comboios estavam parados, num ambiente de tensão e revolta, até conseguir embarcar no Sud Expresso apinhado de gente.
Portugal estava a viver um período quente, com muita gente com os nervos à flor da pele, e o agora presidente da Assembleia da República viu-se no meio de um momento tenso na estação de comboios do Entroncamento. Aguiar Branco pretendia ir de comboio para França para ir estudar em Bordéus. As universidades portuguesas estavam fechadas e o advogado de profissão não queria ficar parado, perante a incerteza que se vivia. Portugal estava a ferver com o Processo Revolucionário em Curso (PREC), marcado pelo agravamento das tensões políticas.
A segunda figura mais importante do Estado era, em Setembro de 1975 um jovem que só queria apanhar o Sud Expresso, famoso comboio internacional nocturno da CP - Comboios de Portugal, mas teve que esperar várias horas num ambiente tenso e ajudar a apaziguar os ânimos exaltados contra o chefe da estação.
À saída do comboio na estação do Entroncamento, onde chegou vindo do Porto, já se notava um ambiente tenso. As composições estavam paradas e acumulava-se gente nas plataformas com a paciência a esgotar-se. As explicações dadas eram de que havia incêndios na zona e não se podia circular por razões de segurança. Havia já uma situação de revolta contra o chefe de estação, sobretudo de emigrantes que precisavam de ir no Sud Expresso para trabalhar em França. A história vai sendo contada a O MIRANTE por Aguiar Branco em passo apressado no Museu Nacional Ferroviário do Entroncamento, entre locomotivas antigas.
O então estudante e outras pessoas que estavam no local tentaram apaziguar os ânimos e em conversa com o chefe da estação, ao fim de mais de uma dezena de horas conseguiu-se arranjar algumas carruagens para acoplar aos comboios porque já havia muita gente à espera. Aguiar Branco lembra-se de que a situação demorou tanto tempo que ficou com a imagem de que quando devia estar a desembarcar em França ainda não tinha saído do Entroncamento.
Naquela altura o país vivia uma situação complicada devido ao conflito entre os que alinhavam com o Grupo dos Nove, os mais moderados do Movimento das Forças Armadas (MFA) e os mais radicais que queriam definir o rumo do país após a revolução do 25 de Abril. E Aguiar Branco estava a despertar para a política, tendo-se filiado na Juventude Social Democrata. Durante a carreira política passou pelos cargos de deputado, líder do grupo parlamentar do PSD, ministro da Justiça e depois da Defesa. A sua visão política terá ajudado a lidar melhor com a situação.
A viagem até França foi terrível, continua a contar. Não bastaram as quase 20 horas de desespero na estação e ainda teve de lidar com um comboio que circulava sobrelotado. Havia gente em pé nos corredores e em todos os espaços possíveis, onde coubesse mais alguém. Esta é uma história marcante que o liga ao mundo ferroviário e ao distrito de Santarém e da qual nunca se esqueceu.


