Sociedade | 03-01-2026 18:00

O investigador de Vila Franca de Xira que quer perceber por que motivo o tempo voa

O investigador de Vila Franca de Xira que quer perceber por que motivo o tempo voa
Ricardo Correia veio passar o Natal a Vila Franca de Xira, para matar saudades da família e do sol, que nesta altura do ano é escasso na Finlândia - foto O MIRANTE

Ricardo Correia faz parte de um grupo de seis cientistas portugueses que conseguiram bolsas da União Europeia no valor de 12 milhões de euros para realizar investigação em várias áreas. O biólogo, actualmente a trabalhar na universidade de Turku, na Finlândia, quer perceber por que é que em determinados momentos o tempo parece andar mais depressa que noutros e a comunidade de Vila Franca de Xira também vai poder participar no estudo.

Se é daquelas pessoas que sente que o tempo passa mais devagar quando se está no campo ao invés da cidade, e que há momentos na vida em que uma hora passa a correr e noutros momentos parece arrastar-se durante uma eternidade, em breve poderá haver uma explicação científica para essa percepção.
É isso que Ricardo Correia, 40 anos, natural de Vila Franca de Xira, quer investigar. Actualmente a viver na Finlândia e a leccionar na Universidade de Turku, o biólogo ribatejano faz parte de um grupo de seis cientistas portugueses que conseguiram bolsas da União Europeia no valor de 12 milhões de euros para realizar investigação em várias áreas. Só para o seu projecto de investigação, focado na natureza e percepção do tempo, foram alocados dois milhões de euros para um horizonte temporal de estudo de cinco anos.
“Nas cidades, a percepção do tempo é a de que ele passa mais depressa. Um estudo dos anos 70 mostra que as pessoas caminham mais rápido nas cidades mais densas. Quero perceber se a paisagem e a nossa experiência na natureza pode influenciar a percepção do tempo, como o silêncio ou a complexidade do ambiente sonoro pode ter um efeito. São dimensões que ainda não estão bem explicadas”, conta a O MIRANTE. A ideia do projecto surgiu durante a pandemia de Covid-19, período em que muitas pessoas sentiram a percepção do tempo alterada.
Para Ricardo Correia, haverá o dia em que muitas condições de saúde, como a depressão ou a ansiedade, serão tratadas não com medicamentos mas com idas à natureza. “O que me fascina no tempo é a sua maleabilidade. Einstein dizia que o tempo era relativo, eu diria subjectivo. Uma hora passada num consultório médico é diferente de uma hora passada com os amigos. A forma como percepcionamos o tempo é também diferente de pessoa para pessoa. Veja-se os traumas, pessoas que estão presas ao passado ou a viver apenas para o dia de amanhã sem experienciar o presente”, defende.

Saudades da família, da comida e do sol
Ao encontrarmos Ricardo Correia durante uma breve visita natalícia à cidade para estar com a família, o seu primeiro pedido foi que a entrevista fosse feita a aproveitar o sol de Inverno da frente ribeirinha de VFX. Isto porque na Finlândia, actualmente, apenas existem duas horas de luz por dia. Confessa que por vezes sente mais frio dentro de casa quando visita Vila Franca de Xira do que na Finlândia, devido à qualidade do isolamento das casas nórdicas. “Como dizem os finlandeses, não há mau tempo, só má roupa”, brinca.
Na Finlândia reconhece vantagens claras: tudo funciona bem no país, os transportes são eficientes, não precisa de carro, e existe uma grande confiança das pessoas nas instituições. Apesar de estar bem integrado na comunidade finlandesa, a ligação a Vila Franca de Xira mantém-se forte. Sente falta da família, da comida, do sol e da paisagem. Cresceu a ver o rio Tejo todas as manhãs, enquanto tomava o pequeno-almoço, e essa vista continua a fazer-lhe falta.
Lá fora recomenda sempre VFX e Portugal a amigos e colegas estrangeiros como “um sítio fantástico para visitar”. Entre Vila Franca de Xira e Turku, entre a biologia, a conservação ambiental e o estudo do tempo, Ricardo Correia tem construído um percurso marcado pela curiosidade, pela interdisciplinaridade e por uma ligação constante à natureza e às pessoas.

De Vila Franca de Xira para a Finlândia

Ricardo Correia cresceu e fez a escolaridade obrigatória sempre em Vila Franca de Xira: frequentou a escola primária do Bom Retiro, depois a Escola Vasco Moniz e, mais tarde, a Escola Reynaldo dos Santos, antes de seguir para Lisboa para ingressar no ensino superior. Formou-se em Biologia e concluiu o mestrado em Biologia da Conservação, com um doutoramento dividido entre Lisboa e Inglaterra.
A escolha pela Biologia foi uma inclinação natural da sua personalidade. “Se calhar por crescer aqui ao lado do rio e das lezírias”, confessa, sublinhando que sempre teve interesse pela natureza e que sabia que não queria “ficar fechado dentro de um gabinete”, pelo menos no início da carreira.
O seu percurso levou-o a viajar e a investigar em diferentes partes do mundo, como Brasil e Turquia, onde conheceu a sua mulher. Daí acabaram na Finlândia, também no âmbito de um projecto de investigação. Ricardo Correia faz parte também da Associação de Profissionais Graduados e Investigadores Portugueses nos Países Nórdicos, sendo membro do conselho científico e o actual representante da associação na Finlândia.
O que o tira do sério são opiniões sem base em evidências, sobretudo em contextos como a política. É benfiquista, a sua cor favorita é o verde e o prato português de eleição é o bacalhau cozido, especialmente no Natal. Recusa a ideia de que os jovens “tenham de sair” de Portugal para ter sucesso. Embora defenda que devam lutar pelas oportunidades, cá ou no estrangeiro.
Aos 18 anos, quando ainda andava na escola, foi notícia no MIRANTE pela primeira vez, quando foi seleccionado com outro colega do concelho para participar num campo de Verão da NASA nos Estados Unidos. “Quando era pequeno dizia que queria ser astronauta ou cientista. Tive oportunidade de ser astronauta por uns dias e agora sou cientista”, recorda com um sorriso. Continua a acompanhar a actualidade portuguesa, lendo jornalismo em português - incluindo o site de O MIRANTE - para se manter informado e para não perder a ligação à língua.

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