Leonilde Paiva chegou aos 103 anos a pedir saúde
Há 103 anos, no dia mais curto do ano, nasceu Leonilde Paiva. Uma mulher de vida longa, muito trabalho e pouco namoro. Foi das primeiras a tirar a carta de condução em Azambuja, para poder ir vender o que produzia na horta. O número de centenários tem aumentado em Portugal e constitui um desafio para os lares, alerta a directora técnica da Santa Casa da Misericórdia de Azambuja.
Durante a infância, em vez de ir para a escola, Leonilde Paiva guardava ovelhas mas, mesmo assim, aprendeu a ler. Ainda hoje, já depois de ter passado a barreira dos cem anos, tem na leitura o passatempo de eleição. Prefere revistas cheias de cor e não se atrapalha com as letras miúdas que junta com a facilidade com que noutros tempos colhia o que a terra dava. A sua vida foi de muito trabalho, na quinta da família, em Casais de Baixo, no concelho de Azambuja, onde produzia um pouco de tudo. Couves, batatas, alfaces e coentros eram depois de apanhados transportados numa carroça puxada por uma mula para o mercado da vila, até o seu avô decidir que era melhor Leonilde tirar a carta de condução. E assim foi. Antes dos anos 60, tornou-se numa das primeiras mulheres de Azambuja a ter habilitação para conduzir.
No dia mais curto do ano, aquele em que completa 103 anos, é ela que é guiada na sua cadeira de rodas por uma das auxiliares do lar da Santa Casa da Misericórdia de Azambuja para a sala onde conversa com O MIRANTE. As memórias daqueles tempos surgem-lhe como peças soltas de um puzzle que nem sempre encaixam no discurso. Outras vezes fala como se os acontecimentos tivessem ocorrido no dia anterior. A chuva que vê cair através da janela lembra-lhe a que ouvia bater nos vidros da “carreira” quando ia em passeio conhecer um lugar novo.
Leonilde Paiva não casou nem teve filhos. “Eu? Não era de namoros”, atira, confessando que se apaixonou uma vez na vida. Depois pergunta porque está ali e porque está alguém a tomar notas sobre o que diz. “É o dia do seu aniversário”, lembra-lhe a directora técnica, Cristina Rodrigues, dando-lhe um beijo. “Ah, tenho-me lembrado todos os dias deste mês mas hoje ainda não me tinha lembrado. É hoje que é dia 22? Mil obrigados, quero é saúde e mais nada”, diz.
De cabelo branco como a neve e mãos entrelaçadas, Leonilde abraça os 103 anos com a mesma leveza com que vai soltando gargalhadas durante a conversa. Sempre gostou de rir, especialmente das partidas que pregava à família que continua a visitá-la no lar. Partilha quarto com uma cunhada, mais nova mas em situação débil. Leonilde reconhece-a sempre ao acordar e demonstra preocupação com o seu estado de saúde. Depois ela própria pede para sair da cama e viver mais um dia. Gosta de escolher as roupas e não se inibe de reclamar com as auxiliares quando não é do seu agrado o que lhe querem vestir. Tem tanto de respingadora como de carinhosa. Gosta de receber beijos, abraços e medir a temperatura às mãos que a cuidam. “Tão quentinhas que estão, deixa-as estar”, pede à directora técnica que lhe dá às mãos enquanto lhe fala ao ouvido. A audição já não é o que era, mas a destreza com que segura nos talheres para se alimentar sozinha continua a surpreender.
Grupo etário tem crescido nos últimos anos
Leonilde Paiva viveu sozinha, em habitação própria, até ir para o lar em 2017. Chegou sem sinais de demência, a andar pelo próprio pé, apenas apoiada por uma canadiana. Era dona de uma autonomia que já raramente se vê nos utentes que ali chegam. “Agora as pessoas vêm com 80, 90 anos, já não vem com autonomia e, nestes últimos dois anos, temos notado um aumento das demências”, refere a directora técnica, Cristina Rodrigues. Quando ali começou a trabalhar, era raro haver utentes a chegar aos cem anos. “Agora é cada vez mais frequente termos pessoas a viver acima dos cem anos, já não é uma novidade”, garante.
E não só há mais centenários como, afirma, a média de idades tem aumentado, fixando-se actualmente nos 86 anos. Nesta instituição com 41 utentes em valência de lar residencial há mais homens, mas quem vive mais são as mulheres. O mesmo sugerem os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE): o número de centenários em Portugal aumentou entre 2023 e 2024, passando de 3.149 para 3.282 e destes, cerca de 80% são mulheres (2.686).
Para Cristina Rodrigues esta tendência de longevidade traz pressões sobre o sistema de saúde e os lares, pois as necessidades de cuidados passam a ser maiores e necessárias durante mais tempo. Exigem, por isso, “respostas eficazes por parte das políticas públicas. Há necessidade de um aumento dos cuidados com uma população envelhecida, com mais patologias. Temos necessidade de outros apoios ao nível da enfermagem e de médicos”, alerta, lamentando que o sistema esteja “desactualizado”, nomeadamente ao nível da “legislação, comparticipação às instituições, e pela própria remuneração dos técnicos que nelas trabalham”.


