Filipe Oliveira faz vida entre Portugal e França mas a casa nunca deixou de ser em Vale do Paraíso
Filipe Oliveira tem 53 anos e trabalha actualmente em França como serralheiro. Natural de Vale do Paraíso, saiu de Portugal à procura de melhores condições de vida, numa decisão que define como sendo simultaneamente necessidade e escolha. “O nosso país é mais complicado e não há muitas opções”, explica.
A história de Filipe Oliveira está inserida num fenómeno comum para muitas famílias portuguesas: a emigração em busca de melhores condições financeiras para obter uma vida melhor. Tal como outros, deixou Portugal não por desejo, mas por necessidade, procurando estabilidade económica, sem nunca cortar laços com a terra que o viu crescer.
A ida para o estrangeiro surgiu quando se abriu uma oportunidade profissional que decidiu agarrar. Não era a área ideal, mas foi a porta que lhe permitiu construir uma vida fora de Portugal. Hoje, o seu quotidiano é marcado pela rotina exigente do trabalho como serralheiro/tubista. Acorda às cinco da manhã para entrar às sete, cumpre oito horas de trabalho e regressa a casa para preparar o dia seguinte. “A semana funciona basicamente assim”, resume.
Quando regressa a Vale do Paraíso, no concelho de Azambuja, o tempo é curto e disputado. A prioridade é sempre a família, a mulher, as filhas, os pais e os sogros, depois sim, os assuntos pendentes da casa. Ainda assim, Filipe Oliveira admite que nunca consegue fazer tudo. “Fica sempre qualquer coisa por resolver”, refere.
Nos momentos livres, Filipe Oliveira procura sobretudo descanso. Diz que uma das melhores sensações é não ter despertador e, sempre que possível, passar um ou dois dias junto ao mar, em silêncio, para “carregar baterias”. Apesar de estar fora há vários anos, continua a sentir falta da vida simples de cá, o convívio com os amigos, a rotina e o quotidiano que deixou para trás.
“Viver entre Portugal e França tem sido, ao mesmo tempo, enriquecedor e cansativo”, afirma Filipe Oliveira, reconhecendo o crescimento cultural e profissional e sentindo o peso da distância. Essa ausência mudou também a forma como olha para a sua terra natal. Hoje dá mais valor a aspectos que antes passavam despercebidos, como o acesso a cuidados de saúde e a determinados serviços essenciais.
Despedidas cada vez são mais difíceis
Para Filipe Oliveira, Vale do Paraíso continua a ser a sua casa, a distância física reforçou a sua ligação emocional e afectiva ao lugar, às pessoas e às rotinas simples que marcaram o seu crescimento enquanto pessoa. Estar noutro país permitiu-lhe olhar para Portugal com outros olhos e valorizar aspectos que antes lhe passavam despercebidos. E sobre se as despedidas ficaram mais fáceis com o tempo, a resposta é clara: “Não, cada vez são mais difíceis”. Nem a tecnologia consegue atenuar a dor da separação.
Actualmente, passa cerca de doze semanas por ano em Portugal, divididas em períodos de duas semanas. O que mais destaca no país onde trabalha são as oportunidades profissionais, se pudesse trazer algo de França para Portugal, Filipe apostava na indústria, que considera essencial para o desenvolvimento do país. Na mala de regresso nunca pode faltar uma lembrança. Ao longo do percurso profissional, diz ter aprendido muito sobre si próprio, descobrindo capacidades que desconhecia. A distância ensinou-lhe, acima de tudo, a valorizar ainda mais a família.
Com a emigração, Filipe Oliveira admite que cresceu profissionalmente e pessoalmente, mas também tem um desgaste emocional acrescido. Viver entre dois países significa estar sempre a partir e não estar totalmente presente. E, para ele, a palavra “casa” tem um significado profundo. “É o equivalente a mãe”, sublinha, pois ultrapassa o espaço físico e representa também afecto. Quando pensa no futuro, imagina-se com a família reunida, com tranquilidade e sem a necessidade constante de andar neste vaivém entre países.


