Utente morre no Hospital de Santarém oito horas depois de receber pulseira azul
Utente com sintomas de obstrução intestinal foi triado com pulseira de prioridade mínima. Sete horas após a entrada foi observado e encaminhado com urgência para cirurgia, mas acabou por morrer.
Celestino do Marco, 82 anos, morreu no Hospital Distrital de Santarém (HDS) na madrugada de dia 3 de Janeiro, um sábado, depois de ter esperado cerca de sete horas para ser observado por um médico. O utente, que se dirigiu àquela unidade hospitalar a 2 de Janeiro com queixas de dor abdominal e outros sintomas de possível obstrução intestinal - que pode levar à morte se não for tratada rapidamente - foi triado, cerca das 13h30, com pulseira azul (não urgente), que indica prioridade mínima.
Uma das sobrinhas que acompanhava o utente, Linda Lino, conta a O MIRANTE que após se aperceber de que o estado de saúde do tio estava a piorar pediu à equipa da triagem que o reavaliasse. Pediu também, segundo diz, uma maca para que o tio pudesse estar mais cómodo, mas ambas as solicitações foram rejeitadas. “O hospital estava um caos nesse dia. Disseram que não havia macas e todos os que entravam com pulseiras amarelas passavam à frente do meu tio. Ele foi ficando e piorando, até que já nem falava”. Foi nessa altura, cerca das 20h00, que voltou a ir junto da triagem pedir novamente uma reavaliação. “Dessa vez tiraram-lhe a pulseira azul e deram-lhe a amarela”, conta.
O utente, já com pulseira considerada urgente - cujo tempo de espera normal para primeira observação deve ser de 60 minutos -, foi visto por um médico, pelas 20h30, que depois de lhe fazer apalpação ao abdómen o encaminhou, com carácter de “urgência”, para cirurgia. “Ainda lhe tiraram sangue, mas já não deu tempo. O meu tio só não morreu na sala de espera porque reclamei e consegui uma pulseira amarela a muito custo”, diz, lamentando a morte do tio, que era uma pessoa autónoma e sem problemas de saúde associados.
Celestino do Marco, utente numa estrutura residencial para pessoas idosas em Coruche, tinha sido visto por um médico de medicina geral e familiar no dia 2 de Janeiro, que indicou que deveria ser observado no hospital por apresentar inchaço abdominal fora do normal. “O meu tio não defecava há cerca de oito dias! Levámos a carta desse médico connosco, mas de nada valeu. Para mim foi negligência da triagem”, lamenta a sobrinha que apresentou queixa no livro de reclamações do HDS.
ULS vai abrir inquérito
Contactada por O MIRANTE, a Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS) “lamenta profundamente o falecimento do utente” e refere que “todas as reclamações apresentadas são objecto de análise rigorosa, incluindo a averiguação clínica e organizacional dos factos, com garantia do cumprimento dos princípios da segurança do doente, qualidade assistencial e responsabilidade profissional”. A instituição diz ainda ter “total disponibilidade para prestar todos os esclarecimentos devidos à família após conclusão dos respectivos procedimentos de análise”.


