Sociedade | 19-01-2026 12:00

O pé descalço que casou com a menina de bem e tem uma adega que produz amizade

O pé descalço que casou com a menina de bem e tem uma adega que produz amizade
António Graça tem um percurso de vida preenchido e é um rosto acarinhado em Alcanhões - foto O MIRANTE

António Graça, que apenas herdou do pai a alcunha de Chambeta, veio ao mundo porque a mãe não teve sucesso ao provocar um aborto. Enamorou-se da mulher com quem está há 56 anos contra todos. Fez mais do que prometeu aos sogros, que por causa dele foram deserdados. Não só preservou o que tinham como aumentou o património da família. É um dos mais antigos produtores de vinho de Alcanhões, tem uma adega onde se faz vinho à moda antiga e amizades entre copos sem preço.

A pequena adega do Chambeta na esquina que dá para a rua principal de Alcanhões não é só um sítio onde se faz e bebe água-pé e vinho. É um símbolo da vila por onde já passou e passa muita gente que conhece o patriarca da família, ou conhece alguém que o conhece, ou que aparece porque o pequeno portão verde está aberto. Quem entra é recebido pelo octogenário António Graça, com um copo. “Isto está tão bom”, repete todas as vezes que brinda com alguém entre paredes amarelas que guardam histórias de muitas noites e dias de convívio.
Comprou o espaço, que foi em tempos uma taberna onde paravam os homens à espera que aparecesse um capataz para os contratar para a agricultura. O pai era um deles. Homem possante, era sempre o primeiro a ser contratado por ser “uma força bruta”. O contrato verbal era fechado com um copo de vinho e quando se bebia já não se aceitava outro trabalho mais bem pago. Na parede escreveu: “Adega dos sem abrigo”. Muitos que já tiraram selfies com a frase de fundo não sabem que tem a ver com a origem humilde de António “Chambeta”, que explica: “É porque o espaço está aberto para gente da minha classe, do pé descalço, pessoas que comeram o pão que o diabo amassou”, conta o homem do ar sempre bem-disposto que calçou os primeiros sapatos quando começou a trabalhar nas pinturas de construção civil aos 14 anos.
A adega é o exemplo do que prometeu aos sogros, pessoas mais abastadas, deserdados por a filha casar com um rapaz que não tinha onde cair morto. Apenas tinha a força e vontade de lutar pela vida, que começou na barriga da mãe, que andou a bater com a barriga nos sobreiros. Ela não queria ter mais um filho com tão pequena diferença, de nove meses em relação à primeira filha. Foi salvo pelo médico que disse à mãe que o que ela tinha na barriga era um quisto, alcunha que carregou algum tempo. Depois dele, nasceu uma irmã sete anos mais nova, já falecida.
Para casar prometeu manter o património dos sogros, que viviam da carpintaria e da agricultura. Não só cumpriu como o aumentou. Ao seu casamento só foram sete pessoas, porque o irmão da noiva tinha morrido pouco tempo antes na Guerra do Ultramar. A casa onde nasceu com o chão em terra batida, passada com panos molhados com barro para ficar mais consistente, também já faz parte do seu património. António causou alvoroço quando teve permissão para fazer obras na casa dos sogros, para ser também o lar do jovem casal. Os pais de Maria Elisa, com quem está casado há 56 anos, viram em choque a habitação destruída. Fez tudo de novo, 150 metros quadrados em baixo e outros tantos por cima. Era na parte de baixo que fazia o vinho.
Os sogros viveram sempre com eles até ao fim dos seus dias e António diz que o que espera da vida é o mesmo destino. “Que nunca me ponham num lar”, pede aquele que é um dos mais antigos produtores de Alcanhões, onde há oito adegas tradicionais, e que ainda faz o vinho de forma manual, com pisa a pés e prensa a força de braços. Para alguns vizinhos e amigos da sua idade, a adega é um centro de dia onde se conversa com um copo na mesa, onde se fazem almoçaradas e jantaradas de convívio. Só para 10 pessoas, limite imposto por António Chambeta e que os filhos, Francisco e Jaime, cumprem religiosamente quando convidam os amigos.
Aos 81 anos, António ainda cozinha. Há pouco tempo fez um galo com massa que andou a ser comentado na vila durante dias. Não cobra os copos a quem entra para provar e conversar um pouco. Um dia os filhos fizeram as contas de um depósito e disseram que tinha de dar mil euros, mas só havia 500€ porque, justificou: “o pai também bebe muito”.

A quarta classe aos 30, a carta aos 50 e a saída da prateleira para mestre de obras na Rical

António Graça demorou dois anos para fazer cada ano do primeiro ciclo e saiu ao fim de seis anos sem fazer a quarta classe, que concluiu aos 30 anos de idade para ir tirar a carta de condução, que só obteve aos 50 anos. Trabalhou 30 anos por conta própria a pintar casas, armazéns, muros, o que aparecesse. A outra metade dos seus 60 anos de trabalho passou-os na fábrica de refrigerantes Rical, em Santarém. Era o único pintor e tinha sempre que fazer. Foi onde ganhou bom dinheiro, chegando a ganhar tanto ou mais de horas extraordinárias do que do salário.
Sentado nos bancos corridos a uma mesa com uma toalha plastificada, onde repousam do petisco do dia anterior uns pedaços de chouriço e de queijo, uma tijela de azeitonas que adoça a preceito em garrafões de plástico, bebe acompanhado por um vizinho um gole de água pé da cor do mel, antes de contar os tempos de sindicalista na Rical. Diz que enquanto conhecia os patrões era mais fácil e falava com eles para pedir aumentos de ordenados. Quando a fábrica passou para a Unicer deixou de conhecer os patrões. Eram só engenheiros, administradores disto e daquilo. Parecia que já não era importante ter um pintor. Não porque não houvesse o que pintar, mas porque era sindicalista. Função que desempenhava por convicção por não gostar de desigualdades, nem injustiças.
Benfiquista ferrenho e “comunista com muito gosto”, foi colocado três anos no que chama de “prateleira 18”, condição de alguém que está no trabalho para não trabalhar, fazendo-o sentir-se à margem como castigo. Mas um dia um desses novos administradores da Rical, ao pé de uma tampa de esgoto, perguntou-lhe se sabia o que era aquilo. Ele não só disse que sim como descreveu o percurso do esgoto e as várias caixas de ligação. Ficou incumbido de medir as distâncias para se mandar fazer umas bacias de retenção de águas sujas. António Graça entregou um desenho com o que se pretendia e que não lhe tinha sido pedido. Foi a sua sorte. Passou a gerir um gabinete de obras da fábrica.
A família Chambeta tem anos de entregar 50 toneladas de uva à adega cooperativa que agora pertence a privados. Com a arte Chambeta costuma-se fazer três mil litros de vinho e 700 de água-pé. A primeira comida que fez foi aos sete anos, quando a mãe, que roubava tudo o que podia de comer para dar aos filhos, o mandou ir guardar gado numa quinta. Todos os dias fazia bacalhau com batatas em molho de tomate, sem água porque não deve levar água, aconselha.

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