Morte de utente após 12 horas de espera faz aumentar críticas às urgências do Hospital de Santarém
A morte de um idoso de 82 anos após várias horas de espera nas urgências do Hospital Distrital de Santarém voltou a lançar várias críticas ao funcionamento daquele serviço e reacendeu o debate sobre a incapacidade das urgências hospitalares daquela unidade em responder aos casos mais graves.
A morte de Celestino do Marco, de 82 anos, após várias horas de espera no Hospital Distrital de Santarém voltou a evidenciar o mau funcionamento da unidade, nomeadamente o serviço das urgências, num cenário que não é novo e que tem sido notícia em O MIRANTE ao longo dos últimos tempos (ver caixa). A Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria) confirmou a abertura de um inquérito interno, mas o caso levanta dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos de triagem e a capacidade de resposta das urgências hospitalares.
O utente deu entrada no hospital com sintomas compatíveis com um problema potencialmente fatal, mas foi classificado com pulseira azul, de prioridade mínima, permanecendo cerca de sete horas sem observação médica. Só após insistência da família e depois do seu estado de saúde se agravar de forma significativa é que a prioridade foi revista. Quando finalmente foi observado por um médico, já apresentava sinais de deterioração grave e acabou por morrer após encaminhamento urgente para cirurgia.
Para a família do utente, ouvida por O MIRANTE, é incompreensível que um doente com dor abdominal intensa, inchaço acentuado e vários dias sem evacuar seja inicialmente considerado “não urgente”. Embora a ULS tenha lançado um comunicado “tranquilizador” recentemente, a verdade é que o serviço de urgências tem estado envolvido em diversas polémicas relacionadas com tempos de espera excessivos, sobrelotação e alegadas falhas no atendimento, muitas delas tornadas públicas pelo nosso jornal. Profissionais de saúde e representantes sindicais têm alertado para a falta de recursos humanos e para a pressão permanente sobre as urgências, admitindo que estas condições aumentam o risco de erro clínico. Ainda assim, sublinham que a escassez de meios não pode servir de justificação para os problemas existentes.
Morte após idas sucessivas às urgências
Em 3 Junho de 2025, O MIRANTE noticiou o caso de um utente de 81 anos cuja família acusou o Hospital Distrital de Santarém de negligência médica, após o idoso se ter deslocado duas vezes ao serviço de urgência com sintomas compatíveis com uma doença vascular grave. Segundo os familiares, o utente apresentava sinais de veia entupida, mas acabou por ter alta hospitalar com prescrição de medicação para as dores, sem que fosse realizado um diagnóstico aprofundado. Dias depois, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e faleceu.
Na altura, a ULS Lezíria afirmou que o caso tinha sido “devidamente avaliado” do ponto de vista clínico, anunciando ainda a realização de uma análise interna detalhada a todo o processo assistencial. A família, no entanto, defendeu o apuramento de responsabilidades, considerando que falhas na avaliação e na decisão clínica podem ter contribuído para o desfecho fatal. O caso levantou muitas críticas ao funcionamento das urgências do Hospital de Santarém e voltou a colocar em causa a capacidade de resposta, a eficácia da triagem e a segurança clínica do atendimento.
À margem/opinião
Uma administração que sabe “sacudir a água do capote”
A morte de um utente de 82 anos após várias horas de espera nas urgências do Hospital Distrital de Santarém não é só uma questão clínica. É uma falha do Sistema. Quando um doente com sintomas potencialmente graves é classificado como “não urgente”, a triagem deixa de cumprir a sua função essencial: proteger vidas. A abertura de um inquérito interno pela Unidade Local de Saúde da Lezíria é um passo obrigatório, mas não chega. O Hospital de Santarém acumula um historial de queixas, atrasos e polémicas, e o actual conselho de administração, presidido por Pedro Marques, tem sido exímio a sacudir a água do “capote”.
A falta de recursos e a pressão constante sobre as urgências são conhecidas, mas não justificam erros de avaliação clínica nem a desvalorização do sofrimento dos doentes, sobretudo dos mais vulneráveis. Este caso exige mais do que explicações técnicas. Exige transparência, responsabilidades e mudanças reais.


