Sociedade | 23-01-2026 18:00

Pedreiras de Fátima continuam a atormentar a vida dos moradores e não há soluções à vista

Pedreiras de Fátima continuam a atormentar a vida dos moradores e não há soluções à vista
Em 2021, moradores de Casal Farto deram a cara pelos transtornos que o trabalho das pedreiras de Fátima causam na freguesia e no meio ambiente, como se constata pelas árvores cobertas de pó nesta fotografia - foto arquivo O MIRANTE

Há anos que moradores das aldeias de Maxieira, Casal Farto e outras localidades vizinhas às pedreiras de Fátima continuam a queixar-se de ruído, poeiras e do trânsito de camiões que destroem as estradas e comprometem a segurança das pessoas. Entre promessas adiadas, o negócio continua a crescer, há empresas a realizar despedimentos colectivos e a população continua a sentir-se abandonada por quem tem a responsabilidade de zelar pelos interesses colectivos.

A exploração de pedreiras em Fátima continua a ser um negócio milionário, mas para quem vive nas aldeias mais próximas a realidade é outra: perda de qualidade de vida, degradação da paisagem, perda de biodiversidade e ausência de respostas eficazes por parte das entidades responsáveis, nomeadamente os autarcas do concelho de Ourém. Apesar das várias queixas apresentadas à junta de freguesia, à câmara municipal e a outras entidades, os problemas mantêm-se. O ruído provocado pelas detonações e maquinaria pesada, as poeiras que se acumulam nas habitações e na paisagem, nomeadamente nas árvores, continuam a ser um problema, para além do tráfego constante de camiões, muitas vezes a circular dentro das aldeias sem as devidas condições de segurança.
A Câmara Municipal de Ourém tem sublinhado, em várias ocasiões, que não tem competência directa para fiscalizar a actividade das pedreiras, limitando-se à monitorização dos níveis de ruído. No entanto, os moradores questionam a eficácia dessa monitorização e continuam a lamentar a falta de informação pública sobre os resultados obtidos e as medidas correctivas aplicadas quando existem incumprimentos. Nas assembleias municipais de Ourém, o tema também surge com alguma frequência (menos do que deveria ser, dizem os moradores), sobretudo associado à regularização de pedreiras que não cumprem integralmente a legislação, através da aprovação de declarações de interesse público.
Promessas feitas por algumas empresas, como a requalificação de estradas, a criação de vias alternativas para o trânsito pesado ou a implementação de medidas para reduzir poeiras e ruído, continuam, em grande parte, por cumprir. A falta de soluções tem levado muitas famílias a venderem as suas propriedades e a abandonarem as localidades onde sempre viveram, contribuindo para o despovoamento progressivo destas zonas”, conforme já foi relato por O MIRANTE em várias reportagens. Enquanto decorrem investigações judiciais relacionadas com a actividade das pedreiras no concelho, a população insiste que a sua principal reivindicação é viver com segurança, sossego e dignidade.

Pedreiras de Fátima sob investigação e escrutínio público

O sector das pedreiras em Fátima e no concelho de Ourém está a atravessar um período de elevado escrutínio judicial, político e empresarial, na sequência de investigações criminais, condenações judiciais e polémicas sobre licenciamento. Em Novembro de 2025, a Polícia Judiciária realizou 25 mandados de busca na Câmara Municipal de Ourém e em empresas ligadas à exploração de pedreiras, no âmbito da operação “Terra Limpa”. Em causa estão suspeitas de violações urbanísticas, crimes ambientais, corrupção, fraude na obtenção de subsídios e branqueamento de capitais. O inquérito encontra-se em curso, sem acusações públicas até ao momento.
Uma das empresas visadas, o Grupo Verdasca, nega irregularidades, mas tem sido alvo de debate político na Assembleia Municipal de Ourém, devido a construções sem licenciamento e embargos que não terão travado obras, levantando dúvidas sobre a eficácia da fiscalização municipal. No plano empresarial, destaca-se o fim de um litígio de quatro anos entre a Filstone e o empresário Telmo Duarte, relativo a um contrato de fornecimento de pedra, resolvido recentemente por acordo em tribunal. O nome do empresário surge também associado a uma condenação criminal por coacção a um cliente, reforçando a atenção sobre práticas no sector. Casos judiciais antigos envolvendo relações entre empresários de pedreiras e responsáveis políticos locais, como o ex-presidente da Junta de Fátima, Humberto Silva, continuam a ser referidos como exemplo das fragilidades na transparência e no controlo da actividade.

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