Projecto de pirólise dos curtumes contestado em Alcanena pela localização e riscos ambientais
Proposta para a instalação de uma unidade de pirólise destinada ao tratamento de resíduos da indústria dos curtumes em Alcanena está a gerar forte controvérsia política e ambiental, com deputados municipais a levantarem dúvidas quanto à localização, aos impactos na saúde pública e à falta de garantias.
A proposta do CTIC – Centro Tecnológico das Indústrias do Couro e da AUSTRA para a instalação de um sistema de pirólise destinado à valorização de resíduos dos curtumes gerou forte debate na Assembleia Municipal de Alcanena. O projecto, com um investimento estimado em cerca de sete milhões de euros e financiamento previsto de 50% pelo PRR, prevê a instalação da unidade junto ao actual aterro e à ETAR, com capacidade para tratar cerca de cinco mil toneladas de resíduos por ano.
Segundo o CTIC, a pirólise permite a decomposição de matéria orgânica a altas temperaturas, sem oxigénio, reduzindo os impactos associados aos aterros. A AUSTRA referiu que a tecnologia já é utilizada noutros países, estando a viabilidade do projecto dependente dos prazos do PRR. Vários deputados municipais manifestaram reservas quanto à localização, aos impactos ambientais e ao controlo das emissões gasosas. Nuno Marques, do Movimento Cidadãos por Alcanena, alertou para a proximidade a zonas habitacionais e para a falta de garantias sólidas, considerando insuficientes os estudos apresentados. O CTIC assegurou que as emissões poderão ser controladas através de filtros e monitorização da Agência Portuguesa do Ambiente.
O presidente da Câmara de Alcanena, Rui Anastácio, pediu prudência, sublinhando que ainda não existe qualquer pedido formal de licenciamento e alertando para a eventual necessidade de uma avaliação de impacte ambiental, incompatível com os prazos do PRR. O autarca mostrou também preocupação com a localização proposta e com a imagem e segurança do concelho, defendendo uma análise rigorosa antes de qualquer decisão.
Curtumes em Alcanena: poluição histórica
A indústria de curtumes em Alcanena arrasta há anos um conjunto de problemas ambientais que continuam a afectar a qualidade de vida da população e a imagem do sector. Apesar dos esforços de modernização, a descarga de efluentes poluentes, maus-cheiros persistentes e contaminação de solos e águas têm sido motivos de preocupação constantes, tal como O MIRANTE noticiou em várias reportagens ao longo dos últimos anos. Em 2023, uma empresa de curtumes e o seu gerente foram acusados pelo Ministério Público de poluir o ambiente ao enterrarem mais de cem toneladas de restos de raspas de peles. Os maus-cheiros, resultado dos processos de tratamento e da decomposição da matéria orgânica, tornaram-se uma queixa frequente dos moradores, levando a debates públicos e a várias reacções da autarquia. O CTIC – Centro Tecnológico das Indústrias do Couro – e proprietários do sector têm sublinhado que a maioria das empresas tem investido na redução de emissões e que problemas de má imagem resultam sobretudo de algumas unidades incumpridoras.


