Descargas poluentes no Paúl de Manique ameaçam saúde pública e biodiversidade
Efluentes sanitários estão a ser descarregados directamente no Paúl de Manique, uma zona húmida de elevado valor ecológico em Manique do Intendente, colocando em risco a saúde pública e milhares de espécies. A situação ocorre apesar de o local integrar um projecto de requalificação financiado pelo Fundo Ambiental, levantando críticas de especialistas que denunciam a demora na resolução de um problema que ameaça um ecossistema que deveria estar protegido.
Há anos que descargas de águas residuais estão a poluir a água e os solos do Paúl de Manique do Intendente, um rico ecossistema de zona húmida no concelho de Azambuja com 1.600 espécies de fauna e flora identificadas, cinco das quais em risco e com estatuto de protegidas, como o cágado-de-carapaça-estriada, o caimão-comum, a lontra, a cegonha-preta e o junco. Na causa está uma conduta que passa por dentro do paúl que entope, sobretudo em dias de chuva, fazendo com que as águas pluviais se misturem com as residuais e jorrem. A situação, lamenta a O MIRANTE Anabela Cruces, doutorada em Geologia do Ambiente e coordenadora do projecto “Paúl Natura - Conhecer para proteger”, que teve a sua candidatura ao Fundo Ambiental aprovada, “está há muito identificada e é do conhecimento dos responsáveis”. Há, sublinha, “análises microbiológicas feitas que comprovam a contaminação” daquelas águas pelas descargas de esgotos, o que constitui “um problema de saúde pública”.
“Não deveria haver esgotos a drenar para uma zona daquelas. É urgente fechar e relocalizar aquela conduta para fora da zona húmida e esse é um papel que os nossos governantes têm o poder de fazer pela população e pelas 1.600 espécies identificadas”, diz Anabela Cruces. As descargas de esgotos são consideradas altamente poluentes, uma vez que contêm matéria orgânica; microrganismos patogénicos, como bactérias e vírus; nutrientes e químicos tóxicos, que, quando lançados sem tratamento em rios, lagos ou no mar, degradam a qualidade da água, causam eutrofização, matam a vida aquática, contaminam fontes de água potável e ameaçam a saúde humana com doenças como cólera e hepatite.
A docente universitária sublinha que zelar pelo Paúl de Manique deveria ser “um assunto prioritário”, tendo em conta o seu “valor científico, pedagógico, didático, de biodiversidade e geodiversidade enormes”. Mas, lamenta, o projecto “Paúl Natura - Conhecer para proteger”, que tem como objectivo a criação da futura Reserva Natural Local do Paúl de Manique e a sua integração na rede de áreas protegidas do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), não tem avançado. “Por mais que sensibilizemos está parado e não temos vislumbrado interesse nesse sentido”.
Questionado por O MIRANTE, o presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio (PS), diz estar preocupado com a situação, tendo já alertado as Águas do Tejo Atlântico, entidade que diz ser a responsável pela gestão daquela conduta. “A situação está identificada por nós, a conduta não se encontra completamente vedada. Já alertámos e vamos oficiar por escrito para ficar o registo”, refere o autarca socialista que assume que a escorrência de esgotos possa estar ou vir a prejudicar a biodiversidade no Paúl. O nosso jornal questionou a Águas do Tejo Atlântico, cuja gestão está delegada na EPAL, mas não obtivemos resposta até à data de fecho desta edição. Considerado pela Câmara de Azambuja como “tesouro às portas de Lisboa”, o paúl de Manique do Intendente já foi, inclusive, objecto de investimento por parte desta autarquia que ali criou passadiços e um observatório.
Autarca da freguesia leva assunto à assembleia municipal
O assunto foi também abordado na última sessão da Assembleia Municipal de Azambuja, com o presidente da Junta da União de Freguesias de Manique do Intendente, Vila Nova de São Pedro e Maçussa, Pedro Gil, a alertar para o “problema grave de saneamento” junto ao Paúl, assim como para a necessidade de conclusão do saneamento básico em algumas localidades. “É um projecto para o qual certamente conseguiremos financiamento externo, porque será de grande monta, penso que não será problemático não estar no orçamento mas espero que tenha pernas para andar”, disse o autarca, a propósito da discussão e aprovação do orçamento municipal para 2026. O presidente do município, em resposta, disse que são projectos que “estão em carteira e que vão ser desenvolvidos”. Concretamente sobre a escorrência de esgotos para o Paúl, afirmou que se está a analisar a “possibilidade de se retirar o ramal de saneamento que passa por dentro” daquele espaço. “Está com ruturas significativas e cria ali situações complicadas nas águas do Paúl”, disse, sublinhando já ter iniciado contactos com a entidade responsável.


