Vera Camilo encontra equilíbrio entre a ciência e o barro
Vera Camilo vive em Arruda dos Vinhos desde a infância e trabalha na Fundação para a Ciência e Tecnologia. Procurou a olaria por curiosidade e vontade de se superar. Fez um workshop na Fundação Oriente e nunca mais parou. As suas oficinas abertas à população em Arruda dos Vinhos estão sempre esgotadas, sinal de que a olaria está a ganhar popularidade.
Preservar os valores da olaria tradicional para o futuro é garantir que uma arte milenar não cai no esquecimento. A olaria foi sendo progressivamente esquecida nas últimas décadas, muitas vezes substituída pela produção industrial e pela ideia de que tudo o que era antigo “já não prestava”. Hoje, porém, assiste-se a um regresso a estas práticas tradicionais, numa tentativa de reconciliação entre tradição e contemporaneidade. É neste movimento de redescoberta que se insere o percurso de Vera Camilo. Tem 42 anos e vive no concelho de Arruda dos Vinhos. É natural de Alenquer mas garante que Arruda dos Vinhos sempre fez parte do seu percurso. É um território que sente como casa, não apenas pelas memórias, mas também pelo sentimento de pertença e acolhimento.
Recentemente Vera Camilo realizou, em parceria com o município, a sua terceira oficina de olaria tradicional, que voltou a esgotar em poucas horas. “Houve um período em que se achava que tudo o que era velho não prestava, tudo o que era tradicional era desvalorizado. Havia uma certa falta de autoestima. Hoje, a olaria está novamente em destaque, aparecendo com novas linguagens e abordagens”, defende a artesã, que trabalha tanto o grés como o barro vermelho, uma argila tradicional portuguesa que serviu a comunidade durante séculos.
O desafio, explica, está em conciliar tradição e contemporaneidade. “Voltar a usar estes materiais, como antigamente, mas com um design actual, mais moderno. As cores, as formas, temos muita margem para criar”, explica. Nas suas oficinas, as pessoas procuram superar-se, esquecer os problemas do dia a dia e experimentar novos desafios. As crianças, em particular, revelam um fascínio imediato. “É uma ponte entre o passado e o presente. E também um escape às tecnologias. Usar as mãos é muito importante, porque parece que já não fazemos nada com elas”, considera.
Um novo desafio na vida
O percurso profissional de Vera Camilo desenvolveu-se inicialmente fora do universo artístico. Licenciou-se em sociologia e trabalha na Fundação para a Ciência e Tecnologia, onde exerce funções na área da gestão de projectos de investigação. Um percurso que ocupa grande parte da sua vida profissional. Em 2017, já depois de ter os seus filhos, sentiu que precisava de uma ocupação diferente para os tempos livres. Foi nesse momento que surgiu a cerâmica. Ao tomar conhecimento de workshops de olaria na Fundação Oriente, decidiu experimentar. “Há um momento na nossa vida em que se dá um clique. Para além do trabalho, parece que precisamos de qualquer coisa que nos ajude a expandir horizontes e para mim a olaria tornou-se esse espaço”, conta.
Começou por descobrir a roda de oleiro, como vidrar uma peça, acertar nas cozeduras e interagir com a comunidade ceramista. “É uma comunidade pequena em Portugal, mas muito interessante. Conhecer artistas que trabalham a 100% nesta área e ver o que fazem é algo que vale mesmo a pena apoiar”, defende.
Hoje as rodas de oleiro já não são como antigamente, em que se dava aos pés para mover o engenho. Hoje a electricidade move a roda com mais conforto e até permite o ajuste da velocidade. Entre todas as peças que produz, há uma que se destaca como o maior desafio: o bule de chá. “É a peça mais completa que existe”, explica. “Para fazer um bule tenho de saber fazer tudo: a tampa, o gargalo, a asa, a forma. E depois tem de funcionar”, explica. O bule tem de verter correctamente, a tampa não pode cair, o vidrado tem de ser adequado, a cozedura tem de resultar. “Ainda não cheguei ao meu bule perfeito e se calhar ele não existe. É por isso que continuo à procura”, confessa.
A aprendizagem na olaria é lenta e exige paciência. O processo é feito de tentativa e erro, de frustração e superação. É um processo que desenvolve competências que se estendem à vida quotidiana: foco, resiliência e persistência. “Quando estou na roda abstraio-me do tempo. De repente passaram horas. A mente faz um reset ao dia a dia”, revela, destacando esse lado terapêutico da olaria.
É perfeccionista e sente-se cada vez mais atraída pelos fornos a lenha, que considera melhores para cozer o barro do que os fornos eléctricos. A cinza, o depósito do fogo, as variações de cor tornam cada peça irrepetível. “Esta arte é milenar. Está sempre a evoluir, mas nunca deixará de existir”, conclui.


