Fetiche: quando o desejo deixa de ser tabu
No Dia Internacional do Fetiche, assinalado a 16 de Janeiro, a psicóloga Rosa Garrett sublinha que os fetiches fazem parte do desejo humano e só se tornam problemáticos quando vividos sem consentimento, diálogo e respeito pelos limites, alertando para o peso do estigma e da vergonha associados à sexualidade fora da norma.
Assinala-se a 16 de Janeiro o Dia Internacional do Fetiche, uma data que pretende promover reflexão e desmistificação em torno de um tema ainda marcado por estigma social. Para a psicóloga Rosa Garrett, o fetiche faz parte do desejo humano e só se torna problemático quando vivido sem consentimento, comunicação ou respeito pelos limites individuais. A psicóloga, de 69 anos, reside há 27 anos no concelho da Barquinha e desenvolveu grande parte da sua carreira profissional no Entroncamento. Em declarações a O MIRANTE, explica que a vergonha e o medo do julgamento associados aos fetiches têm raízes históricas e culturais profundas. “Durante séculos, a sexualidade foi legitimada apenas no contexto do casamento e da reprodução, ficando tudo o que fugia a essa norma sob suspeita”, refere.
Do ponto de vista psicológico, um fetiche corresponde a um padrão de excitação sexual associado de forma consistente a um objecto, uma parte do corpo ou uma situação específica, podendo incluir também dinâmicas relacionais como dominação e submissão. Segundo Rosa Garrett, o problema não reside no fetiche em si, mas na forma como este é integrado na vida emocional e relacional da pessoa ou do casal. Apesar de reconhecer alguma evolução social, sobretudo entre gerações mais jovens, a psicóloga considera que a abertura em relação à sexualidade continua a ser desigual. “Existe hoje mais visibilidade, mas persiste o medo do que foge à norma, que facilmente se transforma em julgamento social”, sublinha.
Questionada sobre a possibilidade de um fetiche ser vivido de forma saudável numa relação, Rosa Garrett é clara: isso só acontece quando existe consentimento explícito, comunicação aberta e liberdade real para aceitar ou recusar. “Quando há pressão emocional ou medo de perder a relação, deixa de ser uma escolha e passa a ser um problema”, afirma, acrescentando que a partilha de um fetiche pode reforçar a cumplicidade do casal se for feita num clima de segurança emocional e respeito mútuo. Por outro lado, existem sinais de alerta quando o fetiche deixa de ser saudável, nomeadamente quando provoca sofrimento psicológico persistente, culpa intensa, sensação de perda de controlo ou quando se torna rígido e exclusivo, inviabilizando outras formas de intimidade. A ausência de consentimento coloca também a questão no plano ético e, em alguns casos, legal.
A psicóloga alerta ainda para os riscos associados ao fácil acesso a conteúdos digitais e plataformas fetichistas. Se por um lado podem contribuir para a normalização e reduzir o isolamento, por outro podem gerar confusão entre fantasia e realidade, sobretudo quando não existe literacia emocional e sexual. “Muitas vezes são apresentadas dinâmicas de poder sem qualquer reflexão sobre consequências emocionais ou consentimento”, observa. Na sua prática clínica, Rosa Garrett explica que raramente as pessoas procuram ajuda “por causa do fetiche em si”, mas sim pelo sofrimento, culpa ou vergonha associados. Os fetiches mais comuns que encontra estão relacionados com partes do corpo ou objectos, como pés, roupas, cheiros ou tecidos. O trabalho terapêutico passa por compreender e integrar o desejo, e não por o eliminar. “Ter um fetiche não define quem a pessoa é. A vergonha não é sinal de perigo, é sinal de isolamento. O problema nunca foi o desejo, mas sim não saber o que fazer com ele”, conclui.


