Vão ser demolidas 40 casas com as obras da Linha do Norte e estão previstos quase seis anos de trabalhos
Estudo de Impacte Ambiental do projecto de alargamento da Linha do Norte entre Alverca e Castanheira do Ribatejo revela impactos mais severos do que inicialmente foram anunciados pela Infraestruturas de Portugal. Vai ser preciso demolir quarenta edifícios, entre habitação, comércio, serviços e instalações industriais. Documento está em consulta pública até final de Fevereiro. Município de Vila Franca de Xira já mostrou apreensão.
Alargar a Linha do Norte para passar o comboio de alta velocidade entre Lisboa e Porto vai ter impactos mais graves do que o previsto no troço entre Alverca e Castanheira do Ribatejo, com obras de alargamento da via que demorarão pelo menos cinco anos e meio a concluir e implicarão a expropriação e demolição de quarenta edifícios, 15 deles actualmente habitados. Os dados constam no Estudo de Impacte Ambiental (EIA) do projecto, que está em consulta pública até final de Fevereiro e que já está a gerar apreensão na comunidade.
Segundo o documento, consultado por O MIRANTE, será necessário alargar a linha em 11 metros entre Alverca e a Castanheira, o que obrigará a expropriar quatro dezenas de edifícios, entre casas de habitação - a maioria devolutas mas onde 15 estão habitadas, estabelecimentos comerciais à beira rio, moradias, armazéns, instalações industriais e até antigos equipamentos desportivos, como o devoluto campo de futebol da Hortinha em Alhandra e o ginásio actualmente usado pela Sociedade Euterpe Alhandrense. O presidente da associação, Jorge Zacarias, já veio dizer que o processo de alargamento da via vai ser feito “à custa das populações de Alhandra e de VFX” e exigiu transparência no processo. “É obrigatória a apresentação clara às populações dos impactos que a intervenção terá nas duas localidades. Não vale a pena os nossos políticos empurrarem responsabilidades uns para os outros. Prometeram defender as populações, chegou o momento de o demonstrar”, criticou.
“Impactos negativos muito significativos”
Na zona do jardim municipal Constantino Palha, em Vila Franca de Xira, vai ver “cortada” uma área a rondar os 1.800 metros, mais do que aquilo que se pensava inicialmente quando a Infraestruturas de Portugal (IP) esteve no concelho a apresentar o projecto em traços gerais pela primeira vez. As obras serão feitas fundamentalmente de noite para não perturbar a normal circulação de comboios. Mas com obras nocturnas, é de esperar dores de cabeça para quem viver perto da linha ou dos locais em obra. Também a construção de estaleiros de obra e movimentação de máquinas promete transformar num inferno a vida de quem já anda a passo de caracol na congestionada Estrada Nacional 10. “No que se refere ao uso do solo haverá impactos negativos muito significativos”, avisa ainda o estudo.
Há pequenos factores positivos, como a dinamização da economia local durante as obras ou a expectável redução de ruído na linha com a modernização da frota ferroviária, mas será sempre algo a depender da CP, o operador da Linha do Norte.
Novas estações em Alhandra e VFX
O EIA confirma também o que já se sabia: a demolição da velha estação de Alhandra (e a construção de uma nova) e a desactivação da actual estação de VFX, com a construção de uma nova estação ao lado, com terminal de autocarros. O estudo abrange uma extensão total de 12,5 quilómetros e o documento não oferece quaisquer alternativas ao projecto que a IP apresentou o ano passado e dado praticamente como definitivo, sem atravessamento em túnel, pelo interior do concelho ou pela margem sul. “Precisamos sempre de quadruplicar a linha. É inevitável. Criar um corredor novo só para a alta velocidade era criar um novo rasgo no território sem resolver o principal problema, que é reforçar a oferta de suburbanos em VFX”, justificara em Dezembro de 2023 o vice-presidente da IP, Carlos Fernandes, em entrevista a O MIRANTE.
Já o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, enviou entretanto um pedido de participação numa sessão pública de esclarecimento sobre o projecto de modernização da linha ao presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Pimenta Machado, tendo em conta o período de consulta pública em vigor até 27 de Fevereiro. “Compreendendo que o projecto de quadruplicação da Linha do Norte apresenta um impacto relevante nas áreas urbanas do território do concelho, a câmara tem mantido, desde o primeiro momento em que o Governo o decidiu concretizar, um diálogo aberto e construtivo nos órgãos municipais e estes com os munícipes”, disse o autarca.


